EUA e Japão serão coproprietários de fábrica de chips em Nova York
Projeto da GlobalFoundries prevê US$ 10 bilhões na primeira fase, produção a partir de 2029 e uma participação de 7% do governo americano na empresa.
Resumo em 30 segundos
Os governos dos Estados Unidos e do Japão serão coproprietários de uma nova fábrica de semicondutores da GlobalFoundries no norte de Nova York. A primeira etapa, financiada com US$ 10 bilhões do Japão, deve começar a produzir em 2029. Uma segunda fase, também estimada em até US$ 10 bilhões, depende de aprovação dos acionistas.
Os governos dos Estados Unidos e do Japão serão coproprietários de uma nova fábrica de semicondutores da GlobalFoundries no norte do estado de Nova York. O projeto, anunciado nesta semana, prevê US$ 10 bilhões em financiamento japonês para a primeira etapa, que deve começar a produzir chips em 2029; uma segunda unidade poderá receber outros US$ 10 bilhões, se for aprovada posteriormente.
A parceria foi articulada pelo secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, no governo de Donald Trump. O modelo vincula investimentos estrangeiros à participação pública nos projetos e nas empresas envolvidas, em vez de depender apenas de subsídios e empréstimos federais. No caso da fábrica, uma sociedade de propósito específico reunirá os governos americano e japonês como coproprietários, enquanto a GlobalFoundries ficará responsável pela operação.
Lutnick afirmou, durante um evento na unidade da empresa na quarta-feira, que os Estados Unidos terão direito a 50% dos lucros de fluxo de caixa do investimento de US$ 20 bilhões e receberão uma participação de 7% na GlobalFoundries. Segundo ele, essa fatia equivalia a cerca de US$ 2 bilhões pelo valor de mercado da companhia naquele momento. O secretário disse que Trump ainda não havia decidido o destino das ações e declarou ser pessoalmente favorável a transferi-las para as “Trump Accounts”, contas de poupança para crianças com benefícios fiscais.
Os lucros do projeto deverão ser repartidos entre os governos dos dois países e a GlobalFoundries. A fabricante também receberá taxas pelo uso de sua tecnologia e pela operação da fábrica. O governo americano, portanto, terá participação tanto no empreendimento específico quanto na companhia, que já tem o fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, como acionista majoritário.
A unidade produzirá semicondutores destinados a automóveis, fábricas e centros de processamento de dados, conhecidos como data centers. Esses componentes são usados em produtos que vão de veículos e eletrodomésticos a sistemas de computação. A expansão elevaria em 10% a capacidade dos Estados Unidos de fabricar chips e se tornaria uma das maiores instalações do tipo no país.
A primeira fase, de US$ 10 bilhões, conta com o apoio de todas as partes envolvidas. A segunda ainda depende de uma decisão dos acionistas da GlobalFoundries até o fim de 2028. Se avançar, o investimento total ficará em torno de US$ 21 bilhões, segundo a empresa. O financiamento adicional de até US$ 10 bilhões mencionado no plano está condicionado à aprovação dessa etapa.
A companhia avaliava ampliar suas operações havia alguns anos e decidiu seguir com o projeto após conversas com os governos americano e japonês. O presidente-executivo da GlobalFoundries, Tim Breen, disse que a empresa pretendia expandir a produção e que a pressão do governo dos Estados Unidos a levou a considerar um plano maior, dividido em duas etapas. O diretor de manufatura, Pradip Singh, afirmou que a fábrica permitirá atender clientes com chips produzidos nos Estados Unidos sem que a empresa arque sozinha com o custo de ampliar a capacidade.
A GlobalFoundries já recebe apoio do governo americano. Em 2024, durante o governo de Joe Biden, foram aprovados US$ 1,5 bilhão em financiamento e US$ 1,6 bilhão em empréstimos para apoiar a produção da empresa. A companhia também atua como fornecedora de semicondutores para as Forças Armadas dos Estados Unidos, em uma função descrita como “foundry confiável”. Uma foundry é uma fabricante que produz chips conforme as especificações de outras empresas ou clientes.
O acordo integra a estratégia de Trump e Lutnick de negociar compromissos de investimento com parceiros comerciais, usando tarifas como instrumento de pressão. No caso japonês, os Estados Unidos ofereceram tarifas mais baixas em troca da criação de um fundo de investimentos direcionado a projetos escolhidos pelo presidente. Além da fábrica de chips, o Japão concordou em financiar uma usina de gás natural em Ohio, uma instalação de exportação de petróleo bruto na Costa do Golfo e uma fábrica de diamantes sintéticos na Geórgia, entre outros empreendimentos ligados a energia nuclear e minerais críticos.
Autoridades japonesas disseram que a fábrica usará equipamentos do Japão e fornecerá parte da produção a uma empresa de tecnologia japonesa. A construção também busca ampliar a fabricação doméstica de semicondutores, tema que ganhou força após a escassez de chips durante a pandemia afetar a produção de automóveis e contribuir para a inflação. Republicanos e democratas defendem o aumento da capacidade nacional do setor.
Lutnick apresentou ainda números de outros compromissos de investimento: US$ 550 bilhões atribuídos ao Japão, US$ 350 bilhões à Coreia do Sul e US$ 500 bilhões para fábricas taiwanesas de semicondutores. O secretário disse que esses valores eram inéditos. A realização de compromissos anunciados pelo governo, porém, pode depender de condições comerciais: autoridades sul-coreanas, por exemplo, afirmaram que um gasoduto no Alasca só avançaria se fosse considerado viável economicamente.
Para entender
- GlobalFoundries
- Fabricante de semicondutores que produz chips conforme as especificações de outras empresas e clientes. Esse modelo de produção é conhecido como foundry. A companhia também fornece componentes para as Forças Armadas dos Estados Unidos.
- Trump Accounts
- Contas de poupança para crianças com benefícios fiscais, citadas por Howard Lutnick como uma possível destinação para as ações da GlobalFoundries que caberiam ao governo americano.