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Sábado, 31 de outubro de 2026

Estudo sugere data de julho para A Noite Estrelada de Van Gogh

A pesquisa aponta a madrugada de 22 de julho de 1889, em Saint-Rémy, como possível inspiração, mas a datação tradicional dos museus continua sendo junho.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Céu estrelado sobre uma vila em Saint-Rémy-de-Provence, com um cipreste em primeiro plano. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Céu estrelado sobre uma vila em Saint-Rémy-de-Provence, com um cipreste em primeiro plano.
Resumo em 30 segundos

Um estudo publicado na revista Scientific Reports sugere que Van Gogh se inspirou no céu de 22 de julho de 1889 para pintar A Noite Estrelada. A equipe identificou possíveis correspondências entre a Lua, Vênus e estrelas das Híades na tela. Astrônomos e historiadores contestam a hipótese, e os museus mantêm a datação tradicional em junho.

Um estudo publicado em 22 de outubro na revista Scientific Reports propõe que Vincent van Gogh se inspirou no céu da madrugada de 22 de julho de 1889 para pintar “A Noite Estrelada”. A hipótese situa a observação em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França, e contraria a datação tradicional de junho, mantida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e pelo Museu Van Gogh, em Amsterdã.

A pesquisa foi liderada pelo astrônomo Elijah Jeong-hyun Kim, doutorando na Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul, e fundador da fabricante de telescópios Space Light Laboratory. A equipe comparou elementos do quadro com simulações do céu e concluiu que, em 22 de julho, a Lua minguante, Vênus e o aglomerado estelar das Híades poderiam aparecer juntos no campo de visão estimado para o pintor.

Os pesquisadores também identificaram semelhanças matemáticas entre cinco pontos luminosos da tela e estrelas das Híades, na constelação de Touro. A posição da Lua e de Vênus foi outro elemento usado para defender a data. O aglomerado é um conjunto de estrelas que, visto da Terra, parece formar uma concentração no céu.

A conclusão se opõe a uma hipótese apresentada em 1984 pelo historiador da arte Albert Boime. Ele relacionou a pintura à constelação de Áries observada em 19 de junho, cerca de um mês antes da data agora sugerida. Uma carta de Van Gogh ao irmão Theo, escrita por volta de 18 de junho, também é associada à obra: nela, o pintor menciona ter feito “um novo estudo de um céu estrelado”.

Para os autores do novo estudo, a carta não demonstra que o quadro tenha sido concluído naquele período. Eles também contestam que um desenho da pintura estivesse entre os trabalhos enviados a Theo em 2 de julho. Ainda assim, os museus que têm a obra em suas coleções continuam a datá-la em junho.

A reconstrução do céu partiu de visitas de Kim a Saint-Rémy, realizadas em 2019. Ele comparou fotografias das colinas locais com um desenho da paisagem feito por Van Gogh e usou as semelhanças para estimar o enquadramento que o artista teria observado. Em seguida, a equipe simulou a posição dos astros nesse campo de visão. Kim disse que a coincidência entre os elementos celestes e a pintura lhe pareceu difícil de ignorar.

A proposta enfrenta objeções. Donald Olson, astrônomo da Universidade Estadual do Texas, afirma que Vênus deveria aparecer abaixo e à esquerda das Híades, e não apenas abaixo, como na tela. Ele também considera estreito demais o campo de visão reconstruído para incluir todas as colinas representadas. Olson disse ainda não reconhecer as Híades nem a estrela Aldebarã na pintura.

A data é relevante também por causa do período de internação de Van Gogh no hospital psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole. O artista havia se internado voluntariamente após um período marcado por crises e por conflitos com Paul Gauguin, com quem morava em Arles. Historiadores situam uma crise em meados de julho de 1889, o que levanta dúvidas sobre a possibilidade de Van Gogh estudar o céu no dia 22.

Os autores sugerem, em vez disso, que a crise começou no fim de julho. Em carta a Theo, de 22 de agosto, Van Gogh relatou que o episódio havia começado semanas antes, enquanto pintava ao ar livre num dia de vento. A equipe relacionou o relato a registros meteorológicos de ventos fortes entre 27 e 29 de julho. Kim, porém, reconhece que faltam dados e registros médicos para confirmar essa interpretação.

A discussão envolve também quanto da tela corresponde a uma observação direta. O professor Felipe Sevilhano Martinez, do Museu de Arte de São Paulo, afirma que Van Gogh podia combinar realidade e imaginação, em vez de reproduzir literalmente o céu. O historiador da arte Martin Bailey também ressalta que o pintor usava a imaginação ao representar os astros. Kim concorda que o quadro reúne observação, memória e invenção, mas sustenta que a disposição da Lua, de Vênus e das Híades veio de uma configuração vista no céu.

A obra foi feita com camadas espessas de tinta, técnica chamada impasto, que cria relevo na superfície. Sua composição inclui uma vila que não era visível da janela do hospital, um cipreste em primeiro plano e redemoinhos azuis ao redor de estrelas e de uma Lua amarela. Para Richard Thomson, da Universidade de Edimburgo, a pequena igreja sob o céu amplo também sugere a natureza como criação divina. Van Gogh, filho de um pastor protestante e ex-pregador, escreveu a Theo em 1888: “Então saio à noite para pintar as estrelas”.

Fontes: Folha de S.Paulo

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