Eleições de meio de mandato nos EUA põem Congresso em disputa
A votação renova 435 cadeiras da Câmara e 35 do Senado; democratas são favoritos para avançar, mas pesquisas e analistas apontam incerteza sobre o tamanho dos ganhos.
Resumo em 30 segundos
Os americanos votam nesta terça-feira para renovar todas as cadeiras da Câmara e 35 vagas do Senado. Os democratas são apontados como favoritos para avançar, sobretudo na Câmara, mas a quantidade de disputas competitivas, a participação dos eleitores, os recursos de campanha e a margem de erro das pesquisas tornam incerto o resultado.
Os eleitores dos Estados Unidos votam nesta terça-feira (3) nas eleições de meio de mandato, que renovam todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados e 35 das 100 vagas do Senado. A disputa pode alterar o controle do Congresso e a margem de atuação do presidente Donald Trump, mas, mesmo com os democratas em posição favorável em pesquisas, analistas consideram incerto o tamanho de possíveis ganhos do partido.
Os democratas são apontados como favoritos para ampliar sua bancada, sobretudo na Câmara, e tentar retomar a maioria dos republicanos. A expectativa, porém, não é necessariamente de uma vitória ampla: estimativas citadas por analistas variam de cinco a 20 cadeiras conquistadas. Em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, os democratas obtiveram 41 cadeiras adicionais na Câmara.
A polarização e o redesenho dos distritos eleitorais reduziram o número de disputas competitivas. O chamado gerrymandering consiste em traçar limites de distritos de modo a favorecer um partido, o que pode tornar mais previsível o resultado em determinadas regiões. Analistas estimam que apenas 40 a 50 das 435 cadeiras da Câmara estejam realmente em disputa nesta eleição.
Bill Galston, ex-assessor do presidente Bill Clinton na Casa Branca, afirmou que mesmo um ganho de 25 cadeiras daria aos democratas maioria suficiente para agir, mas não uma maioria ampla. Com uma margem estreita, o partido teria menos facilidade para aprovar propostas controversas e poderia enfrentar dificuldades para apresentar o resultado como um mandato popular abrangente.
No Senado, os democratas também são considerados competitivos, mas a conquista de quatro cadeiras líquidas — o saldo necessário para uma maioria de 51 a 49 — está longe de ser garantida. Algumas das disputas decisivas ocorrem em Estados que deram vitórias expressivas a Trump em 2024. David Wasserman, analista eleitoral do Cook Political Report, disse que os democratas precisam vencer em Estados onde o presidente obteve diferenças de dois dígitos. Mesmo uma mudança nacional de dez pontos percentuais a favor dos democratas provavelmente deixaria o partido a duas cadeiras da maioria, segundo ele.
O cenário também é menos confortável para os democratas em Estados onde esperavam disputas mais favoráveis, como Maine e Michigan. “Os republicanos estão muito próximos nessas disputas”, disse Andrew Busch, professor de políticas públicas da Universidade do Tennessee, em Knoxville. Para ele, a proximidade dos candidatos republicanos não corresponde ao que se esperaria caso os democratas estivessem avançando em todas as frentes.
A participação dos eleitores é outro fator que pode reduzir os ganhos democratas. Pesquisas indicam entusiasmo maior entre os eleitores do partido, mas jovens, negros e hispânicos costumam comparecer menos às urnas em eleições de meio de mandato do que em anos de eleição presidencial. O custo de vida também alimenta ceticismo desses grupos em relação aos dois partidos, e uma participação abaixo da esperada pode afetar o desempenho democrata.
Dados da votação antecipada em Estados que registram a filiação partidária dos eleitores apontaram maior participação democrata. Republicanos, por sua vez, afirmam que muitos de seus apoiadores preferem votar no próprio dia da eleição. Em 2022, pessoas com 50 anos ou mais representaram uma parcela do eleitorado quase duas vezes maior que a dos menores de 50 anos; pesquisas de boca de urna dos últimos anos mostram preferência dos eleitores mais velhos pelos republicanos.
Os republicanos também chegaram ao fim da campanha com vantagem financeira. Dados de comitês partidários e da Comissão Eleitoral Federal indicaram que o partido e grupos aliados tinham várias centenas de milhões de dólares a mais disponíveis nas últimas semanas. Trump gastou mais de US$ 277 milhões, sobretudo por meio do super PAC MAGA Inc., em anúncios e material enviado pelo correio para apoiar candidatos republicanos. Elon Musk desembolsou cerca de US$ 366 milhões durante o ciclo eleitoral, dos quais US$ 276 milhões desde julho.
Até o fim de setembro, os republicanos haviam investido US$ 188 milhões a mais que os democratas em publicidade nas disputas mais acirradas pelo Senado, segundo a empresa AdImpact. Busch disse que uma vantagem financeira expressiva pode influenciar resultados apertados quando os recursos são direcionados às campanhas na reta final.
As pesquisas também não garantem que a tendência favorável aos democratas se traduza em votos. Um levantamento Reuters/Ipsos entre eleitores registrados apontou preferência de 47% pelos democratas e 35% pelos republicanos em uma pergunta sobre o voto para o Congresso que não mencionava candidatos. Pesquisas subestimaram a força republicana em 2014, enquanto as de 2022 subestimaram o desempenho democrata. Os erros maiores ocorreram em eleições nas quais Trump era candidato; desta vez, ele não disputa um cargo, mas tem incentivado seus apoiadores a votar como se estivesse concorrendo.
O presidente e candidatos republicanos também tentam associar os democratas ao socialismo e ao extremismo. Candidatos democratas em disputas competitivas têm se declarado capitalistas, enquanto os republicanos destacam vitórias de integrantes do movimento Socialistas Democráticos da América e de candidatos progressistas nas primárias. Galston afirmou que esses ataques podem influenciar eleitores indecisos e reduzir em um ou dois pontos a vantagem democrata em disputas apertadas.
Se os democratas conquistarem a maioria na Câmara, poderão presidir comissões e ampliar a fiscalização do governo, inclusive por meio de pedidos de documentos e convocação de integrantes da administração. A perda da maioria também pode permitir que a oposição abra um processo de impeachment na Câmara, onde a aprovação exige maioria simples. Para condenar e destituir o presidente, porém, o Senado precisa reunir dois terços dos votos — um patamar muito mais alto. A eleição, portanto, pode afetar a capacidade de Trump de avançar sua agenda e o grau de fiscalização do governo, mas o resultado das disputas ainda definirá a dimensão dessa mudança.
Para entender
- Gerrymandering
- É o redesenho de limites de distritos eleitorais para favorecer um partido ou grupo político. Como os distritos determinam quais eleitores escolhem cada representante, a divisão pode tornar algumas cadeiras mais seguras e reduzir o número de disputas competitivas.