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Domingo, 1 de novembro de 2026

Dólar alto eleva projeções de inflação para 2026 e 2027

Economistas veem o câmbio e o El Niño pressionando alimentos e projetam IPCA de até 5,31% em 2026 e 5% em 2027.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Alimentos frescos em uma banca de mercado, com movimento urbano ao fundo. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Alimentos frescos em uma banca de mercado, com movimento urbano ao fundo.
Resumo em 30 segundos

A alta do dólar após a eleição e os possíveis efeitos do El Niño levaram economistas a elevar projeções para a inflação. O IPCA pode subir 5,31% em 2026 e 5% em 2027, enquanto os alimentos consumidos em casa avançaram 1,01% no IPCA-15 de outubro. As estimativas superam a meta do Banco Central em diferentes cenários.

A alta do dólar após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e os efeitos do El Niño ampliaram os riscos para a inflação no Brasil e levaram economistas a revisar projeções para 2026 e 2027. A moeda americana fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,447, maior cotação do ano, depois de subir 9,2% na semana após as eleições. A pressão cambial se soma à alta dos alimentos, que já aparece nos indicadores de outubro.

O câmbio afeta produtos que dependem de insumos importados e também influencia os preços de commodities, entre elas as agrícolas. Combustíveis, alimentos e alguns bens duráveis estão entre os segmentos que podem sentir o efeito, segundo o economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence. Se o dólar permanecer acima do patamar anterior à eleição, o repasse pode alcançar diferentes áreas da economia.

Romão elevou sua estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação, de 5,18% para 5,31% em 2026. Para 2027, aumentou a projeção de 4,23% para 5%. A mudança na expectativa para o câmbio foi o principal motivo da revisão, seguida pela possibilidade de o El Niño provocar efeitos mais fortes sobre os preços.

Outros economistas também projetam inflação acima da meta do Banco Central. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, prevê alta de 5,2% do IPCA em 2026 e de 4,5% em 2027. Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, estima 5% neste ano e 4,2% no próximo, mas afirma que a previsão para 2027 pode subir dependendo da combinação de riscos.

A meta de inflação do Banco Central tem centro de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Assim, o limite superior é de 4,5%. As estimativas de Vale para 2026 e de Romão para os dois anos ficam acima desse teto; as projeções de Cardoso também superam o limite em 2026.

O El Niño é um fenômeno climático que altera temperaturas e a distribuição das chuvas. Essas mudanças podem prejudicar a produção agropecuária e reduzir a oferta de determinados alimentos. No Brasil, a alta da comida já vinha sendo influenciada por problemas climáticos, incluindo chuvas fortes no Sul e no Sudeste, e economistas apontam que os efeitos iniciais do fenômeno podem contribuir para novas pressões.

O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,32% em outubro, em ritmo menor que no mês anterior. A queda das passagens aéreas e da energia elétrica ajudou a conter o índice, enquanto os alimentos consumidos em casa avançaram 1,01%, maior alta para outubro em cinco anos. O tomate subiu 24,54%; arroz, 5,8%; cebola, 13,63%; e batata-inglesa, 10,96%.

O IPCA-15 é calculado antes do índice cheio e funciona como sinal da tendência dos preços, mas não substitui o resultado oficial do mês. A coleta de outubro ocorreu de 16 de setembro a 14 de outubro. A mediana das projeções do boletim Focus, do Banco Central, era de inflação de 5,19% em 2026 e 4,34% em 2027; os dados foram coletados antes da eleição de Lula.

Além do câmbio e do clima, analistas citam fatores domésticos que podem influenciar os preços. Vale aponta o impulso à demanda associado a medidas adotadas pelo governo antes da eleição, entre elas o reajuste do Bolsa Família. Os novos valores começaram a ser pagos na semana anterior ao segundo turno, após anúncio feito 17 dias antes do primeiro.

Cardoso inclui entre os riscos os custos relacionados ao fim da escala 6x1, o preço do petróleo e as decisões do governo sobre combustíveis. Solange Srour, diretora de macroeconomia para Brasil do UBS GWM, também menciona a reforma tributária e avalia que a alta do dólar pode persistir caso não haja um ajuste fiscal considerado confiável. Para ela, a desaceleração da economia é um possível fator de contenção da inflação, mas teria efeito limitado se persistir a desconfiança sobre as contas públicas.

A pressão dos preços pode dificultar o trabalho do Banco Central e influenciar a trajetória dos juros. Srour não descarta que a instituição volte a elevar a taxa básica em 2027, caso as expectativas de inflação se deteriorem. No boletim Focus, analistas esperavam que a Selic terminasse o ano em 13,25% ao ano e recuasse para 11,75% no ano seguinte.

Vale afirma que a evolução do dólar dependerá das sinalizações de Lula sobre a política fiscal e da formação do novo governo. Para os economistas, a intensidade do El Niño, a trajetória do câmbio e as medidas para controlar gastos e combustíveis serão determinantes para saber se as previsões de inflação para 2027 voltarão a subir.

Fontes: Folha de S.Paulo

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