Disputa entre EUA e China acelera investimentos em mineração no Brasil
A Serra Verde, produtora de terras raras em Goiás, está sob controle da americana USA Rare Earth, enquanto empresas chinesas investiram cerca de US$ 6 bilhões no país.
Resumo em 30 segundos
A disputa entre Estados Unidos e China por minerais críticos está atraindo recursos para o Brasil. A americana USA Rare Earth assumiu o controle da Serra Verde, em Goiás, e investimentos chineses se espalham por minas de níquel, cobre e ouro. Projetos existentes podem acelerar a produção, mas obras, infraestrutura e exploração ainda impõem obstáculos.
A disputa entre Estados Unidos e China por minerais usados em tecnologias como inteligência artificial e eletrificação tem acelerado investimentos em mineração no Brasil. No ano passado, empresas chinesas aplicaram cerca de US$ 6 bilhões no país, enquanto Washington ampliou sua participação na Serra Verde, única produtora fora da Ásia de quatro dos minerais de terras raras mais escassos. O movimento também alcança outros países com jazidas prontas ou projetos que podem ser retomados rapidamente.
A competição por minerais críticos — matérias-primas consideradas essenciais para setores estratégicos, cuja oferta pode ser limitada ou concentrada em poucos países — ganhou força à medida que as duas potências buscam reduzir riscos no abastecimento. Terras raras são um grupo de elementos químicos usados, entre outras aplicações, em componentes de alta tecnologia. Apesar do nome, não são necessariamente raras na natureza; a dificuldade está em encontrar concentrações que permitam extração e processamento economicamente viáveis.
A Serra Verde fica no Brasil e é a única produtora de quatro desses minerais de terras raras fora da Ásia. Em setembro, a empresa americana USA Rare Earth, de capital aberto e com participação do governo dos Estados Unidos, assumiu o controle da operação. A companhia já gastou US$ 2,8 bilhões na aquisição, e um pacote organizado pelo Departamento de Guerra, somado a um empréstimo da Corporação Financeira de Desenvolvimento dos Estados Unidos, elevará o investimento americano a quase US$ 5 bilhões.
A expansão da mina brasileira deve entrar em operação dentro de um ano. O projeto é um exemplo da estratégia americana de priorizar ativos disponíveis que possam aumentar a produção em prazo curto, em vez de depender apenas da descoberta e do desenvolvimento de novas jazidas, processos que podem levar uma década ou mais. A rapidez também é uma prioridade para a China, que há anos investe em acordos e operações de mineração no exterior.
Os investimentos chineses no Brasil são mais diversificados. No ano passado, companhias do país investiram cerca de US$ 6 bilhões no mercado brasileiro, mais do que em qualquer outro país. Aproximadamente um terço desse montante foi destinado a minas que produzem níquel, cobre e ouro.
A rivalidade não significa que Brasil e outros países tenham de escolher entre Washington e Pequim. No ano passado, cinco países — Brasil, República Democrática do Congo (RDC), Cazaquistão, Zâmbia e Canadá — concentraram quase 80% dos investimentos combinados dos Estados Unidos e da China em mineração no exterior. A experiência brasileira, assim como a dos demais destinos, mostra que os dois lados podem investir simultaneamente em um mesmo país.
O interesse decorre, em parte, da existência de minas antigas, projetos inacabados ou operações paralisadas que podem voltar a produzir com mais rapidez e menor custo do que uma jazida ainda não desenvolvida. Para as nações que recebem os recursos, a concorrência pode trazer capital e ampliar a exploração de reservas. Mas a capacidade de transformar esse interesse em produção depende de projetos concretos, infraestrutura e tempo para concluir as obras.
A disputa também se relaciona à dependência de fornecedores. Em maio de 2025, a China restringiu exportações de sete minerais de terras raras usados na fabricação de semicondutores e armas, em resposta a tarifas americanas. O governo de Donald Trump recuou das tarifas, e os Estados Unidos passaram a ampliar estoques, apoiar produtores com preços garantidos e direcionar recursos a projetos de mineração.
Em 2025, o governo e empresas americanas investiram US$ 15,4 bilhões em minas no exterior, ante um valor próximo de zero no ano anterior, segundo autoridades. Pelo menos um décimo veio do Exim, banco estatal de exportação e importação, e da Corporação Financeira de Desenvolvimento. Empresas chinesas de mineração controladas pelo Estado investiram mais de US$ 30 bilhões fora do país, acima do total de 2024.
O interesse internacional por minerais críticos pode criar oportunidades para o Brasil, mas a corrida não elimina os obstáculos do setor. A estratégia de curto prazo depende de projetos já identificados e de empresas dispostas a desenvolvê-los. Ao mesmo tempo, a cautela dos investidores em exploração dificulta a descoberta de novas reservas; preços mais altos, por si só, não garantem que uma mina comece a produzir.
A escala do desafio aparece no cobre: embora haja expectativa de que a demanda supere a oferta em 8% dentro de dez anos, identificar e desenvolver depósitos pode levar uma década ou mais. A falta de investimento em minas antigas também contribuiu para a redução da produção no Chile, maior produtor mundial do metal. Para o Brasil, a expansão da Serra Verde e a entrada de capital chinês mostram que as terras raras e outros minerais já estão no centro da disputa entre as duas potências, mas os resultados dependerão de transformar aportes em produção efetiva.
Para entender
- Minerais críticos
- São matérias-primas consideradas essenciais para setores estratégicos, como energia, defesa e tecnologia. A preocupação com o abastecimento cresce quando a produção ou o processamento se concentra em poucos países, tornando cadeias de fornecimento vulneráveis a restrições comerciais ou interrupções.
- Terras raras
- Grupo de 17 elementos químicos usados em aplicações como ímãs de alto desempenho, eletrônicos e tecnologias de energia. Não são necessariamente escassos na natureza; o desafio é encontrar depósitos com concentração suficiente e capacidade de extração e processamento economicamente viáveis.