Trump pode contestar vitória apertada de Lula e pressionar o Brasil
Ex-assessor de Barack Obama afirma que Trump pode contestar uma vitória apertada de Lula e usar o reconhecimento do resultado como instrumento de pressão.
Resumo em 30 segundos
Nick Zimmerman, ex-assessor de Barack Obama, avalia que Donald Trump pode contestar uma vitória apertada de Lula e usar o reconhecimento do resultado para pressionar o Brasil. O pesquisador também prevê cobranças a um eventual governo Flávio Bolsonaro sobre comércio, segurança e limites à presença chinesa em setores estratégicos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode não reconhecer uma eventual vitória apertada de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial brasileira, afirmou Nick Zimmerman, ex-diretor para Brasil e Cone Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Segundo ele, o resultado poderia ser usado pelo governo americano para ampliar a pressão sobre o Brasil a partir de 2027.
Zimmerman trabalhou na Casa Branca durante o governo de Barack Obama e hoje é pesquisador sênior do Inter-American Dialogue. Em entrevista, disse considerar possível que Washington condicione o reconhecimento do resultado a contrapartidas ou adote novas sanções caso Lula vença por pequena margem. A avaliação é uma previsão do pesquisador, não uma decisão anunciada pelo governo americano.
Na análise de Zimmerman, as ações do governo Trump já representam uma tentativa de influenciar a disputa brasileira. Ele citou como exemplos o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros no ano passado, sanções previstas na Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O ex-assessor comparou a postura de Trump a episódios recentes envolvendo outros países. Segundo ele, o presidente americano ofereceu apoio financeiro à Argentina às vésperas de eleições legislativas e ameaçou cortar ajuda externa a Honduras caso o candidato que preferia não vencesse. Zimmerman afirmou que não vê precedentes semelhantes na política americana recente, em que presidentes usassem instrumentos econômicos e apoio público para favorecer candidatos estrangeiros.
Para o pesquisador, a atuação de administrações anteriores seguia outra lógica: manter as relações entre governos, em vez de aproximá-las de partidos políticos, e defender a legitimidade dos processos eleitorais. Ele citou Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama como presidentes que, segundo sua avaliação, não apoiaram publicamente candidatos de outros países.
Zimmerman apontou três interesses que, em sua leitura, orientam a política de Trump para o Brasil: uma vitória da direita nas eleições, acesso a minerais críticos e terras raras e proteção às empresas de tecnologia dos Estados Unidos contra regras que Washington considera desfavoráveis. Ele afirmou que esses objetivos podem afetar a relação bilateral independentemente do resultado eleitoral.
Se Lula vencer e Trump contestar o resultado, acrescentou o pesquisador, a relação entre os países pode se deteriorar ainda mais. O não reconhecimento poderia servir de justificativa para novas medidas econômicas no ano seguinte. Zimmerman descreveu o momento atual como o pior das relações bilaterais desde o golpe de 1964 e disse que a polarização política nos dois países dificulta a construção de políticas duradouras entre governos.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro, por outro lado, poderia abrir negociações comerciais e ampliar a cooperação em segurança pública, segundo Zimmerman. Ele prevê, porém, divergências sobre a China: Washington poderia pressionar por limites à participação chinesa em infraestrutura e na exploração de minerais considerados estratégicos para os Estados Unidos.
O pesquisador comparou essa possível pressão às tentativas do primeiro governo Trump de restringir o uso de tecnologia de comunicação da chinesa Huawei no Brasil. Na avaliação dele, alinhamento ideológico não garantiria que um eventual governo Flávio atendesse às exigências americanas. Zimmerman afirmou que o interesse brasileiro seria evitar a obrigação de escolher entre Estados Unidos e China.
Sobre a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, Zimmerman considerou improvável que a medida leve a operações militares americanas em território brasileiro. Ele apontou como risco mais provável os efeitos sobre instituições financeiras: bancos poderiam sofrer sanções se autoridades americanas concluíssem que não adotaram controles adequados contra lavagem de dinheiro ligada a grupos classificados como terroristas.
O pesquisador também avaliou que a influência de Trump não deve ser o principal fator da eleição, que, em sua opinião, será definida sobretudo por questões cotidianas do Brasil. Em uma disputa acirrada, no entanto, afirmou, qualquer acontecimento pode ter impacto. As declarações não indicam que o governo americano já tenha decidido como reagirá ao resultado das urnas.
Quem é quem
- Donald Trump
- Político norte-americano e presidente dos Estados Unidos. Sua política externa e suas declarações sobre outros países são acompanhadas por governos e instituições internacionais, especialmente quando envolvem relações comerciais, segurança e disputas diplomáticas.
- Luiz Inácio Lula da Silva
- Político brasileiro e presidente do Brasil. Foi eleito para três mandatos presidenciais não consecutivos e é uma das principais figuras da política nacional. A relação de seu governo com os Estados Unidos é tema recorrente na diplomacia bilateral.
- Inter-American Dialogue
- Centro de análise e debate sobre temas políticos, econômicos e sociais das Américas, com sede em Washington. Reúne especialistas e promove pesquisas e discussões sobre relações entre países do continente e desafios regionais.