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Sábado, 24 de outubro de 2026

Demência e armas em casa elevam risco de suicídio entre idosos

Estudos nos Estados Unidos apontam acesso frequente a armas entre idosos com declínio cognitivo e recomendam conversas sobre armazenamento seguro.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Criado-mudo com um cofre trancado e uma caixa de munição separada, ao lado da mão de uma pessoa idosa. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Criado-mudo com um cofre trancado e uma caixa de munição separada, ao lado da mão de uma pessoa idosa.
Resumo em 30 segundos

O acesso a armas de fogo pode aumentar os riscos para idosos com demência ou perda de memória, sobretudo o de suicídio. Pesquisadores defendem que profissionais de saúde e familiares abordem o tema antes que o declínio avance, priorizando armas descarregadas e trancadas, com a munição guardada separadamente.

Um homem de 72 anos com depressão e sinais de comprometimento cognitivo mantinha duas armas ao alcance da cama em sua casa, nos Estados Unidos. O caso, relatado por uma pesquisadora que o entrevistou, ilustra os riscos associados ao acesso a armas entre idosos com perda de memória ou demência, especialmente o suicídio, que responde por mais de 90% das mortes por armas de fogo nessa faixa etária.

O homem era um administrador de saúde aposentado que vivia sozinho perto de Seattle. Em uma entrevista por videochamada para um estudo sobre segurança com armas entre idosos, Laura Prater, pesquisadora da Universidade Estadual de Ohio, aplicou um questionário que apontou comprometimento cognitivo leve. O diagnóstico pode anteceder a demência, mas não necessariamente evolui para ela.

O médico do homem também havia diagnosticado depressão. Ele contou a Prater que guardava uma pistola calibre .45 descarregada na gaveta do criado-mudo e apoiava uma espingarda, também sem munição, ao lado da cama. Os cartuchos ficavam sobre o móvel. O aposentado dizia manter as armas para se proteger por morar sozinho.

Pesquisadores estimam que ao menos um terço das pessoas com demência tenha acesso a armas de fogo. Uma pesquisa realizada em sete estados americanos constatou que um terço dos entrevistados com 65 anos ou mais que relatavam declínio cognitivo subjetivo vivia em casas com armas. Entre essas pessoas, um quarto não as guardava de forma segura. A diferença em relação ao grupo com cognição considerada normal não foi estatisticamente significativa.

O declínio cognitivo subjetivo corresponde à percepção de piora na memória ou na capacidade de pensar, sem que a pessoa necessariamente tenha recebido um diagnóstico de demência. Profissionais de saúde podem abordar o assunto nessa fase, enquanto o paciente ainda tem condições de participar das decisões sobre o acesso e o armazenamento das armas.

O risco não se limita ao suicídio. A confusão pode contribuir para disparos acidentais ou tiros contra familiares, visitantes e cuidadores. Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças indicam que 8.226 americanos de 65 a 85 anos morreram por armas de fogo em 2024, uma média próxima de 23 por dia. A taxa geral de mortalidade desse grupo não é muito superior à média da população, mas os homicídios são mais frequentes entre os mais jovens.

Especialistas defendem uma abordagem de redução de danos, em vez de começar pela exigência de que a pessoa se desfaça das armas. A proposta é conversar sobre os riscos e incentivar que elas fiquem descarregadas e trancadas, com munição armazenada separadamente. Travas de gatilho e cofres também podem ajudar; alguns programas fornecem esses dispositivos gratuitamente.

A recomendação considera que muitos idosos associam as armas à proteção e à própria identidade. Para alguns, a sensação de vulnerabilidade aumenta com a idade, e o receio de ser vítima de um crime pode parecer uma justificativa para manter uma arma por perto. No entanto, uma meta-análise publicada em 2011 apontou que ter uma arma em casa eleva os riscos de suicídio e acidentes. O estudo não encontrou evidências confiáveis de que a presença da arma impeça crimes ou reduza ferimentos em invasões e altercações.

As conversas sobre o tema ainda são pouco frequentes. Em um estudo de 2020 liderado por Marian Betz, médica emergencista da Universidade do Colorado Anschutz, cerca de 5% dos cuidadores de pessoas com demência disseram que um profissional de saúde já havia falado com eles sobre segurança com armas. Pacientes também podem evitar contar aos médicos que possuem armas por acreditar, equivocadamente, que uma revelação de depressão ou demência levará automaticamente ao confisco. Essas condições, por si sós, não obrigam a equipe médica a tomar essa medida.

Famílias podem hesitar em abordar o assunto por medo de provocar conflitos e afastar parentes de quem precisarão cuidar durante o avanço da doença. Em entrevistas com 50 cuidadores de pessoas com demência, pesquisadores ouviram relatos de comportamentos imprudentes e situações de risco, mas também de receio de pressionar os idosos a entregar ou guardar as armas.

Iniciativas tentam apoiar pacientes, familiares e profissionais. O programa Pathways 2 Safety, ligado à pesquisadora Kelsey Conrick, trabalha com organizações comunitárias para incluir conversas sobre armas nos cuidados de saúde e distribuiu mais de mil dispositivos de trava desde março. A ferramenta online Safety in Dementia ajuda cuidadores a se preparar para decisões sobre armas e outros riscos; o Firearm Life Plan permite que proprietários registrem o que deve ocorrer quando não puderem mais usar armas com responsabilidade. A ferramenta foi usada por quase 16 mil pessoas desde 2022.

Pesquisadores também propuseram incluir a segurança com armas nas consultas anuais de bem-estar do Medicare, programa de saúde dos Estados Unidos para idosos e pessoas com deficiência. Essas consultas alcançam cerca de 60% dos beneficiários e tratam de prevenção e segurança.

A importância de abordar o tema aparece em outro caso relatado por Betz. Em 2019, um paciente na faixa dos 80 anos recebeu diagnóstico de comprometimento compatível com demência após uma avaliação. A médica conversou com ele e com o filho sobre os sintomas e tratamentos. No dia seguinte, quando ligou para informar resultados de exames de sangue, o filho atendeu e contou que havia encontrado o pai morto no porão, com um tiro na cabeça.

Para entender

Declínio cognitivo subjetivo
É a percepção de piora na memória ou na capacidade de pensar, mesmo sem diagnóstico de demência. Pode ser um sinal para conversar sobre segurança e planejamento enquanto a pessoa ainda consegue participar das decisões.
Redução de danos
Abordagem que busca diminuir riscos sem exigir, como primeiro passo, que a pessoa abandone as armas. Pode envolver diálogo, armazenamento descarregado e trancado, munição separada e uso de dispositivos de segurança.

Fontes: Folha de S.Paulo

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