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Domingo, 1 de novembro de 2026

Corrente elétrica altera reconhecimento de imagens sexualizadas de mulheres

Estudo com 76 universitários observou melhora imediata no reconhecimento de fotos femininas na posição normal, mas não avaliou atitudes nem efeitos duradouros.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Equipamento de estimulação cerebral e eletrodos sobre uma mesa de laboratório. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Equipamento de estimulação cerebral e eletrodos sobre uma mesa de laboratório.
Resumo em 30 segundos

Um experimento publicado na revista Social Neuroscience testou estimulação transcraniana por corrente contínua em 76 estudantes. Entre os participantes que receberam a corrente, melhorou o reconhecimento de imagens sexualizadas de mulheres na posição normal. Os autores destacam que o efeito foi medido em uma única sessão e que o estudo não prova mudanças em atitudes ou comportamentos.

Um estudo publicado na revista Social Neuroscience indica que uma corrente elétrica fraca aplicada na testa pode alterar, por alguns minutos, a forma como as pessoas reconhecem imagens sexualizadas de mulheres. O experimento envolveu 76 estudantes universitários e usou estimulação transcraniana por corrente contínua, uma técnica não invasiva que envia uma corrente de baixa intensidade por eletrodos colocados no couro cabeludo.

Os participantes observaram fotografias de modelos homens e mulheres usando roupa íntima. Metade das imagens aparecia de cabeça para baixo. Depois, eles viram novamente as fotos misturadas a imagens inéditas e precisaram indicar quais já tinham visto. Metade recebeu dez minutos de estimulação; a outra metade passou por um procedimento placebo, desligado após 30 segundos para reproduzir a sensação inicial do estímulo.

Nem os estudantes nem os pesquisadores responsáveis pelas avaliações sabiam quem havia recebido a corrente ativa. No grupo placebo, os participantes reconheceram melhor as imagens dos homens quando estavam na posição normal do que quando apareciam invertidas. Essa diferença foi menor para as imagens das mulheres, sobretudo porque o reconhecimento delas na posição correta ficou abaixo do observado para os homens.

Entre os participantes que receberam estimulação, o reconhecimento das mulheres na orientação normal melhorou. Com isso, deixou de haver diferença entre as imagens de homens e de mulheres. A corrente não modificou o chamado efeito da posição correta nas fotografias masculinas.

Esse efeito corresponde à vantagem de reconhecer rostos ou corpos na orientação habitual em comparação com a posição invertida. Em geral, as pessoas identificam rostos e corpos com mais facilidade quando as partes estão organizadas como de costume. Para objetos, como casas, a inversão costuma atrapalhar menos, porque eles podem ser reconhecidos por elementos isolados.

Uma explicação proposta pelos pesquisadores é que partes expostas em imagens sexualizadas podem chamar tanta atenção que dificultam a percepção de características que distinguem uma pessoa de outra. A corrente talvez reduza essa atração, favorecendo o reconhecimento do corpo como um conjunto. Essa interpretação, porém, é uma hipótese: o estudo não identificou diretamente o mecanismo cerebral responsável pela mudança.

A pesquisa se relaciona a um debate sobre objetificação sexual, entendida como perceber alguém principalmente como um corpo ou como partes do corpo, em vez de como uma pessoa inteira. Um estudo de 2012 que usou imagens invertidas encontrou menor vantagem da posição normal para mulheres sexualizadas do que para homens em roupas íntimas. Houve tentativas de não reproduzir o resultado, mas uma análise de 2022 que reuniu 41 artigos também identificou uma diferença nesse padrão de reconhecimento.

Outros experimentos indicam que a percepção pode variar conforme o contexto. Em um estudo de 2015, desfocar o peito e a virilha das mulheres ou apresentar informações sobre sua formação em medicina e seu trabalho em uma campanha de pesquisa contra o câncer levou participantes a reconhecer os corpos de maneira mais parecida com a observada para homens.

Uma pesquisa anterior, realizada no Canadá, também associou a percepção ao poder. Participantes escreveram por dez minutos sobre uma ocasião em que exerceram poder sobre alguém ou em que alguém teve poder sobre eles. Mulheres que se sentiram poderosas apresentaram um padrão semelhante ao observado diante de objetos ao ver imagens sexualizadas de homens. O mesmo ocorreu com homens que se sentiram poderosos diante de imagens sexualizadas de mulheres. Já quem se sentiu impotente mostrou a vantagem da posição normal para ambos os gêneros.

A objetificação é relevante porque estudos a associam a avaliações de menor competência e humanidade sobre mulheres sexualizadas. A internalização dessa visão também está ligada a uma imagem corporal pior e a condições mais precárias de saúde mental, física e sexual. A exposição a conteúdos sexualizados na mídia, por sua vez, aparece associada a maior tolerância à violência sexual contra mulheres; essas relações não significam que um único experimento tenha demonstrado causa e efeito.

Os autores ressaltam que o novo estudo teve uma única sessão de laboratório e mediu apenas efeitos imediatos, sem avaliar atitudes ou comportamentos. Como todas as fotografias eram sexualizadas, não é possível separar quanto do resultado decorre da sexualização e quanto pode estar relacionado a outras diferenças entre as imagens. Os achados, portanto, não demonstram que a estimulação seja uma forma de tratar o sexismo nem que seus efeitos persistam além da sessão.

Para entender

Estimulação transcraniana por corrente contínua
Técnica não invasiva que aplica uma corrente elétrica de baixa intensidade por eletrodos colocados no couro cabeludo. É usada em pesquisas sobre atividade cerebral; os resultados de um experimento específico não demonstram, por si só, eficácia como tratamento.
Efeito da posição correta
Pessoas costumam reconhecer rostos e corpos com mais facilidade quando aparecem na orientação habitual do que quando estão invertidos. A diferença é usada em experimentos para investigar como o cérebro processa uma pessoa como um conjunto, em vez de se concentrar apenas em partes isoladas.

Fontes: Folha de S.Paulo

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