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Quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Christine Lagarde antecipa saída e abre disputa pelo comando do BCE

Pablo Hernández de Cos e Klaas Knot aparecem entre os favoritos para assumir o Banco Central Europeu a partir de fevereiro de 2027.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Dois economistas caminham em direção à sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Dois economistas caminham em direção à sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt.
Resumo em 30 segundos

Christine Lagarde deixará a presidência do BCE nove meses antes do fim previsto de seu mandato. Pablo Hernández de Cos e Klaas Knot são os principais nomes cotados para sucedê-la, mas a escolha depende de negociações políticas entre os países da Zona do Euro e pode ser influenciada por outras vagas na cúpula do banco.

Christine Lagarde anunciou nesta quinta-feira que deixará a presidência do Banco Central Europeu (BCE) nove meses antes do fim previsto de seu mandato, abrindo a disputa para escolher quem comandará a instituição a partir de fevereiro de 2027. Os nomes mais cotados são o espanhol Pablo Hernández de Cos, atual dirigente do Banco de Compensações Internacionais (BIS), e o holandês Klaas Knot, ex-presidente do banco central dos Países Baixos.

A saída antecipada de Lagarde, de 70 anos, ocorre quando a Zona do Euro volta a enfrentar inflação elevada e se aproxima de eleições em países como França e Itália. A escolha do sucessor caberá aos líderes dos 21 países que usam a moeda comum e poderá ser influenciada pelas disputas sobre outros cargos vagos na cúpula do BCE.

Hernández de Cos, de 55 anos, presidiu o Banco da Espanha entre 2018 e 2024 e assumiu a direção do BIS em 2025. Knot, de 59 anos, liderou o banco central holandês por 14 anos, até 2025. Ambos têm formação acadêmica em economia e experiência na gestão de crises, mas são associados a tendências diferentes na condução da política monetária.

Hernández de Cos costuma ser descrito como mais favorável a juros baixos e estímulos econômicos, enquanto Knot ganhou fama de defensor de medidas mais restritivas. As classificações, conhecidas no debate monetário como “dovish” e “hawkish”, respectivamente, são consideradas simplificações por pessoas familiarizadas com as posições dos dois. Seus antigos professores descrevem ambos como pragmáticos e inclinados a buscar equilíbrio.

A trajetória de Hernández de Cos inclui divergências com o governo espanhol. Em 2020, quando presidia o Banco da Espanha, ele alertou que um aumento acentuado do salário mínimo no país poderia eliminar postos de trabalho. Sua pesquisa acadêmica também se concentrou na solidez das finanças públicas, tema relevante diante das preocupações com a situação fiscal francesa.

Na política monetária europeia, ele apoiou em 2019 a decisão do então presidente do BCE, Mario Draghi, de reduzir novamente os juros e retomar compras de títulos. Também defendeu que o banco adotasse uma meta explícita de inflação de 2%, aprovada em julho de 2021. Na avaliação dele, a formulação anterior — inflação “abaixo, mas próxima de 2%” — poderia transmitir tolerância a resultados inferiores ao objetivo.

No fim de 2021, quando a inflação já ultrapassava 3%, Hernández de Cos considerou improvável que os juros subissem, mesmo em 2023. O BCE começou a elevá-los em meados de 2022, quando a inflação se aproximava de 9%, e ele reconheceu posteriormente que a instituição demorou a reagir. Em setembro de 2023, embora de início tenha se oposto a mais um aumento de 0,25 ponto percentual, ajudou a negociar um acordo que levou a taxa a 4%, com o argumento de que a alta seria uma precaução.

Knot, por sua vez, manifestou oposição a juros negativos e compras de títulos em 2019, quando criticou publicamente uma decisão do Conselho do BCE. Sua reputação de linha dura também se relaciona à crise da dívida grega: em 2011 e 2012, foi o primeiro dirigente a falar abertamente sobre a possibilidade de calote soberano da Grécia e, no início de 2012, cogitou publicamente a saída do país do euro.

A posição de Knot sobre a compra de títulos, porém, mudou com o tempo. Em uma análise de sua trajetória, ele disse ter passado do ceticismo a uma postura de “pragmático por princípio” e afirmou que ajustou suas ideias à medida que os fatos mudaram. Também concluiu que o BCE precisava exercer, em certa medida, o papel de emprestador de última instância, isto é, oferecer apoio financeiro em situações extremas, numa união monetária com políticas fiscais, mercados de dívida e sistemas bancários ainda organizados nacionalmente.

A escolha não é apenas uma avaliação técnica dos candidatos. Para vencer, um nome precisa obter o apoio de pelo menos 16 dos 21 países da Zona do Euro, que juntos representem 65% da população do bloco. França e Itália podem formar uma minoria de bloqueio; Alemanha, Países Baixos, Áustria, Finlândia e dois dos três países bálticos também poderiam reunir votos suficientes para vetar uma indicação.

A sucessão ocorre em meio a uma renovação ampla da liderança do BCE. Além de Lagarde, Isabel Schnabel deixará a diretoria executiva em janeiro para integrar o Fundo Monetário Internacional (FMI), e o mandato do economista-chefe Philip Lane termina em maio. A combinação de vagas pode influenciar acordos entre governos: há a expectativa de que o presidente francês, Emmanuel Macron, queira indicar o próximo economista-chefe, o que poderia dificultar a escolha de Hernández de Cos caso os dois postos principais fossem para países do sul da Europa.

As negociações também envolvem a vice-presidência, atualmente ocupada pelo croata Boris Vujcic. A distribuição regional e as diferenças sobre juros podem favorecer um candidato de consenso se os líderes não chegarem a um acordo sobre os favoritos. A disputa anterior, em 2019, mostrou que a negociação pode surpreender: Macron indicou Lagarde, então presidente do Fundo Monetário Internacional, em vez de um nome que já fosse apontado como favorito.

Para entender

Dovish e hawkish
No debate sobre política monetária, “dovish” descreve uma posição mais favorável a juros baixos e estímulos à economia. “Hawkish” indica preferência por medidas mais restritivas, como juros mais altos para conter a inflação. Os rótulos são simplificações e não resumem todas as posições de um dirigente.

Fontes: Valor Econômico

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