Celso Amorim diz que Trump respeitará resultado se Lula vencer
O assessor de Lula não espera reconhecimento imediato de uma eventual vitória do petista; o segundo turno da eleição presidencial será no domingo, 25 de outubro.
Resumo em 30 segundos
Celso Amorim afirmou que Donald Trump deverá respeitar o resultado do segundo turno se Lula vencer, embora talvez não reconheça a vitória imediatamente. O assessor também criticou o que considera favorecimento algorítmico de contas ligadas a Flávio Bolsonaro e manifestou preocupação com a aproximação do Brasil ao Escudo das Américas.
A três dias do segundo turno da eleição presidencial no Brasil, Celso Amorim afirmou que Donald Trump deverá respeitar o resultado caso Luiz Inácio Lula da Silva vença, ainda que o presidente dos Estados Unidos prefira outro candidato. Assessor especial de Lula e ex-ministro das Relações Exteriores, Amorim disse não esperar que Trump reconheça imediatamente uma eventual vitória do petista.
“ Acho que o presidente Trump vai respeitar. Não significa que vai sair correndo para reconhecer e dizer ‘que bom’, mas vai respeitar na prática”, afirmou Amorim em entrevista. Ele acrescentou que o republicano pode não elogiar Lula, mas lembrou que Trump desejou boa sorte ao presidente brasileiro em uma ligação telefônica.
Trump não declarou apoio explícito a Lula ou a Flávio Bolsonaro desde o primeiro turno. No entanto, tem demonstrado preferência pelo senador do PL em comentários sobre a política brasileira. Após Flávio terminar à frente de Lula na primeira etapa da eleição, Trump chamou o resultado de “grande vitória”.
A posição do governo americano sobre o processo eleitoral também foi mencionada por Amorim. Em resposta a parlamentares democratas, o Departamento de Estado dos Estados Unidos declarou apoiar o direito dos brasileiros a eleições livres e justas, mas não assumiu expressamente o compromisso de respeitar o processo, como os parlamentares haviam solicitado.
A disputa ocorre em meio a tensões entre os governos brasileiro e americano, relacionadas a sanções contra autoridades, tarifas e à revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington. Amorim também criticou o que classificou como prejuízo a perfis de Lula e favorecimento algorítmico de contas ligadas a Flávio na Meta. Para ele, o episódio foi grave e deixou danos que não podem ser revertidos, independentemente do resultado eleitoral.
O assessor afirmou que o caso mostra que grandes plataformas digitais podem interferir em decisões políticas de outros países. Não atribuiu, porém, a ação diretamente à Casa Branca. Disse ter a impressão de que há conexões entre as elites de poder nos Estados Unidos e as grandes empresas, mas ressaltou que não poderia fazer uma acusação.
A Meta é uma empresa de tecnologia que controla plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp. O episódio envolvendo contas dos candidatos passou a integrar o debate eleitoral sobre o papel dos algoritmos, sistemas que selecionam e distribuem conteúdos aos usuários. Amorim relacionou a atuação das grandes empresas digitais à influência política, sem afirmar que o governo Trump tenha participado do caso.
A política externa também está em discussão na campanha. Flávio afirmou, depois do primeiro turno, que o Brasil passaria a integrar o Escudo das Américas caso fosse eleito. A iniciativa, liderada pelos Estados Unidos com aliados ideológicos no continente, tem como objetivo declarado combater o narcotráfico. Críticos, segundo Amorim, veem o projeto como uma forma de ampliar a influência de Washington no hemisfério; ele descreveu a proposta como um “cerco” ao Brasil.
Amorim citou ataques americanos a embarcações no Caribe ao explicar sua preocupação e disse que não se sabe quantas pessoas morreram nem houve, segundo ele, comprovação pública das acusações contra os alvos. O ex-chanceler afirmou que o Brasil não deveria se expor a esse tipo de risco. Um dos apoiadores mais próximos de Trump e defensor do Escudo das Américas é o presidente argentino, Javier Milei, que tem feito críticas a Lula e ao Judiciário brasileiro. O governo brasileiro retirou seu embaixador da Argentina por tempo indeterminado.
O ex-chanceler também comentou declarações de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que vive nos Estados Unidos e é próximo do governo Trump. Eduardo tem criticado o Itamaraty e defendido mudanças no ministério, incluindo uma “faxina” e reformas no Serviço Exterior. Amorim disse não ver risco para a instituição porque acredita que Flávio não vencerá, mas avaliou que a eventual influência dessas propostas seria “uma coisa terrível”.
Amorim não quis avaliar a gestão do ministro Mauro Vieira, mas elogiou o trabalho do Itamaraty nos governos petistas. Ele apontou o aumento de concursos e do número de diplomatas e reconheceu dificuldades na progressão de carreira. Também disse esperar que a relação entre Brasil e Argentina possa ser recuperada e classificou as manifestações de Milei como “lamentáveis”.
As relações diplomáticas entre países são conduzidas por seus governos e representações oficiais. A retirada de um embaixador por tempo indeterminado é uma medida de protesto que reduz a representação diplomática no outro país, mas não significa, por si só, o rompimento das relações.
Para entender
- Escudo das Américas
- Iniciativa liderada pelos Estados Unidos e apoiada por aliados no continente, apresentada como um esforço de combate ao narcotráfico. A proposta também é alvo de críticas de quem vê nela uma forma de ampliar a influência de Washington na região.