BRB manteve compra de carteiras do Master apesar de alertas internos
Relatório da PF aponta problemas nos créditos desde agosto de 2024 e diz que as operações entre os bancos continuaram até agosto de 2025.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Federal afirma que o BRB continuou comprando carteiras de crédito do Banco Master mesmo após alertas sobre falhas nos ativos. O relatório registra que uma carteira de R$ 93 milhões teve apenas R$ 10 milhões considerados aproveitáveis e descreve outras reduções de valor após análises técnicas. As operações seguiram até agosto de 2025.
A Polícia Federal afirma que o Banco de Brasília (BRB) continuou comprando carteiras de crédito do Banco Master até agosto de 2025, embora áreas técnicas já apontassem falhas nos ativos desde agosto de 2024. A conclusão consta do relatório do inquérito sobre as operações entre as instituições, enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, em 5 de agosto de 2024, Dario Garcia, então diretor de Finanças e Controladoria do BRB, recebeu um alerta de que cerca de 90% de uma carteira cedida pelo Master tinha problemas ou não cumpria os critérios do banco. O documento cita inconsistências nos dados, falhas de governança e de controle e possíveis irregularidades na origem dos créditos.
Em novembro daquele ano, uma análise de uma base avaliada em R$ 93 milhões concluiu que apenas R$ 10 milhões poderiam ser aproveitados. Mensagens obtidas pela investigação mostram Garcia comentando a qualidade dos ativos com ironia: “Que base maravilhosa!!!”. Apesar das rejeições, a orientação teria sido pedir ao Master outros créditos para manter as operações, em vez de suspender as compras.
O relatório também descreve uma carteira apresentada em janeiro de 2025 com valor de R$ 922 milhões. Após análise, o montante caiu para R$ 164 milhões; depois, segundo a PF, a presidência do BRB questionou a redução e os critérios foram alterados, elevando o valor de cessão para R$ 422 milhões.
A investigação afirma que Garcia recebeu relatórios diários de caixa do Master. Entre 2 e 13 de maio de 2025, o banco mantinha saldo de aproximadamente R$ 33 milhões a R$ 35 milhões, apesar de movimentações de centenas de milhões. Para a PF, as cessões de carteiras ao BRB ajudavam o Master a cumprir compromissos de curto prazo. Nos dias sem essas operações, a instituição recorria à liberação de depósitos compulsórios ou à emissão de títulos para evitar saldo negativo.
A PF diz que as aquisições prosseguiram até agosto de 2025, mesmo com apontamentos de inadimplência elevada, falta de registros e documentos, contratos sem formalização, problemas de conciliação e reclamações de clientes. Em 28 de agosto, Garcia teria sido informado de que Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, haviam combinado outra compra. Os dois foram indiciados pela PF, assim como Garcia e outras pessoas, no inquérito sobre as operações.
Em um relatório mais amplo, a PF atribui R$ 17,5 bilhões ao total de créditos cedidos pelo Master ao BRB entre julho de 2024 e outubro de 2025. Desse valor, R$ 12,2 bilhões seriam créditos sem comprovação de existência, segundo os investigadores. O Banco Central liquidou o Master em novembro de 2025; antes, havia barrado a compra da instituição pelo BRB. A liquidação é um processo em que o regulador encerra as atividades de um banco e organiza a apuração de seus ativos e obrigações.