Daniel Vorcaro é alvo de investigação sobre rede de exploração sexual
A Polícia Federal apura se o ex-banqueiro financiou e comandou o agenciamento de mulheres para festas; a defesa nega as acusações.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Federal investiga se Daniel Vorcaro financiou e ajudou a comandar uma rede que recrutava mulheres para festas e encontros. Mensagens atribuídas a ele indicariam participação na seleção e nos pagamentos, mas a defesa questiona a autenticidade e o contexto do material. Até agora, não houve pedido de indiciamento nem decisão judicial sobre essa frente.
A Polícia Federal investiga se o ex-banqueiro Daniel Vorcaro financiou e ajudou a comandar uma rede de agenciamento de mulheres para festas e encontros com autoridades e convidados. A apuração, derivada do caso Master, busca esclarecer se houve exploração sexual, cafetinagem ou tráfico de pessoas, inclusive envolvendo menores de idade e estrangeiras levadas ao Brasil.
Mensagens atribuídas a Vorcaro e a interlocutores, extraídas de seu celular, são uma das bases da investigação. Os diálogos sugerem que ele participava da escolha das mulheres, autorizava pagamentos e custeava a estrutura, enquanto intermediários cuidavam do recrutamento e da logística. A defesa nega as acusações e questiona a autenticidade e o contexto de parte do material divulgado.
A estrutura teria sido organizada a partir de 2023, com o uso de uma agência de modelos como canal de recrutamento. Em dezembro daquele ano, Vorcaro recebeu um contrato para comprar metade de uma empresa do tipo por R$ 1,5 milhão, dividido em três parcelas. Mensagens anteriores indicariam que a agência serviria para selecionar mulheres sem expor diretamente os organizadores.
Segundo os diálogos, um promotor de eventos próximo ao ex-banqueiro recrutava as mulheres e as preparava para as festas. Um brasileiro ligado a uma empresa sediada nos Estados Unidos cuidava de voos, hospedagem, contatos com recrutadores e liberação de dinheiro. Vorcaro, por sua vez, teria decidido quem entrava ou saía do grupo e quanto receberia.
As conversas descrevem equipes diferentes. A chamada “Famiglia A” ficaria mais próxima de Vorcaro; o grupo “B” atenderia eventos maiores. As mulheres mais jovens eram associadas a um grupo chamado “creche”. Os diálogos também mostram o uso de termos como “escravas” e “kengas” para se referir a elas, além de relatos de que seus celulares eram recolhidos antes das festas.
A PF apura a presença de brasileiras e estrangeiras, entre elas ucranianas, russas, venezuelanas, argentinas e polonesas. Investigadores querem saber se algumas eram refugiadas de áreas de conflito, se viajaram em aeronaves particulares e se tinham documentos. A condição de estrangeira ou refugiada, por si só, não comprova tráfico de pessoas; a investigação também procura determinar se houve coação ou violência.
Uma das jovens mencionadas nas conversas era uma ucraniana de 19 anos. Um interlocutor teria dito que ela não tinha para onde voltar em razão dos bombardeios e sugerido que fosse incluída na agência. Em abril de 2024, Vorcaro teria decidido dispensar russas e ucranianas, embora o promotor tenha lembrado que os países delas continuavam em guerra.
As mulheres teriam sido levadas a eventos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Londres, Roma e Dubai. Uma festa de Halloween, em 2023, teria reunido cerca de 110 mulheres de dois grupos de agenciamento; em Londres, em abril de 2024, seriam quase 100. As conversas indicam que os celulares eram recolhidos antes dos encontros, medida que, segundo a linha investigativa, poderia ajudar a preservar o anonimato dos participantes.
A estrutura teria movimentado cifras milionárias, ainda não totalmente rastreadas. Uma agência emitia faturas que eram encaminhadas ao setor financeiro do Master, enquanto despesas no Brasil eram pagas por outra empresa. Um dos promotores apontados como interlocutor de Vorcaro receberia R$ 120 mil por mês pelos serviços, conforme as informações identificadas na investigação.
No Brasil, a prostituição não é crime. A legislação, porém, criminaliza a exploração sexual por terceiros, incluindo a obtenção de lucro com a atividade de outra pessoa, além da manutenção de estabelecimento destinado a esse fim. Para caracterizar tráfico de pessoas, a apuração precisa esclarecer elementos como eventual coação e as condições em que as mulheres foram recrutadas e transportadas.
O relatório final da CPI do Crime Organizado, apresentado em abril pelo senador Alessandro Vieira, apontou indícios de exploração sexual e tráfico internacional de pessoas em eventos ligados a Vorcaro. O documento cita a análise de cerca de 400 gigabytes de arquivos, incluindo mensagens, vídeos e imagens de passaportes, e ressalva a necessidade de aprofundamento pelas autoridades. Até o momento, não houve pedido de indiciamento formal nem decisão judicial sobre essa frente.
Em nota, Vorcaro negou ter explorado ou desrespeitado mulheres e afirmou que essas condutas não fazem parte de sua índole. Também disse não reconhecer autoria, autenticidade ou contexto de vários conteúdos vazados, que classificou como mensagens obtidas ilegalmente e divulgadas de forma manipulada. Preso desde março pela segunda vez, ele afirmou que pretende colaborar com as apurações e falar sobre os assuntos investigados pelos meios adequados.