Bolsa brasileira enfrenta cenário mais difícil no quarto governo Lula
O Ibovespa caiu após o resultado eleitoral, e projeções indicam crescimento econômico menor e juros altos, fatores que podem limitar os ganhos das ações.
Resumo em 30 segundos
O Ibovespa subiu nos três primeiros mandatos de Lula, com altas especialmente expressivas no primeiro. Para o quarto governo, economistas veem um cenário menos favorável, marcado pela desaceleração econômica e pelo desafio fiscal. O índice recuou após o resultado eleitoral, enquanto projeções apontam crescimento menor e juros elevados.
A Bolsa brasileira acumulou alta nos três primeiros mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, mas o desempenho poderá ser mais moderado no quarto, diante da desaceleração econômica e da necessidade de ajuste das contas públicas. O Ibovespa recuou nesta segunda-feira (26), após a vitória do petista no segundo turno, encerrado no domingo (25), e especialistas apontam que o novo cenário terá condições diferentes das que impulsionaram os ganhos anteriores.
No primeiro mandato, entre 2003 e 2006, o principal índice da Bolsa subiu 294%, segundo dados da Bloomberg. No mesmo intervalo, o MSCI Emerging Markets, indicador de mercados emergentes, avançou 212,4%. A valorização ocorreu durante o aumento da demanda chinesa por commodities, como petróleo e minério, e foi acompanhada por uma queda de 39,6% do dólar ante o real.
No segundo mandato, o Ibovespa teve alta de 55,8%, enquanto o MSCI subiu 26,1%. O dólar caiu 22,2% no período. Já no terceiro mandato, iniciado em 2023, a Bolsa avançou 60,9% até esta segunda-feira, abaixo dos 63,4% registrados pelo índice de emergentes; a moeda americana subiu 2,15% na mesma comparação. Até sexta-feira (23), antes da mudança de humor dos investidores após o resultado eleitoral, a valorização do Ibovespa no período era de 86%.
Einar Rivero, CEO da consultoria Elos Ayta, atribuiu parte dos ganhos recentes a fatores externos. Guerras e sanções à Rússia, afirmou, diminuíram as alternativas de investimento internacional e elevaram a atratividade relativa de mercados emergentes como o Brasil. No cenário doméstico, o índice também foi favorecido pelas expectativas de redução da taxa básica de juros, a Selic, e, mais recentemente, por apostas de mudança na política fiscal associadas à projeção de vitória de Flávio Bolsonaro.
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o crescimento da economia ajuda a explicar a alta da Bolsa nos três mandatos. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, em média, 3,5% ao ano no primeiro governo Lula, 4,7% no segundo e 2,7% no terceiro, segundo os números citados pelo economista. Ele avalia que o quarto mandato tende a ter o menor crescimento médio dos governos do petista, diante do desafio fiscal, o que pode se refletir em desempenho mais fraco do mercado acionário.
As projeções do relatório Focus, do Banco Central, compiladas antes do segundo turno, apontavam expansão de 1,80% do PIB neste ano e de 1,31% no próximo. Os analistas também esperavam que a Selic terminasse o ano em 13,25% e o seguinte em 11,75%. A taxa básica influencia o custo do crédito e a remuneração de aplicações de renda fixa, fatores que podem afetar decisões de investimento em ações.
A trajetória da Bolsa variou entre governos. Nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o Ibovespa subiu 55,8% entre 1995 e 1998 e 66% de 1999 a 2002. No primeiro governo de Dilma Rousseff, entre 2011 e 2014, caiu 27,8%, enquanto o MSCI recuou 16,9%; o dólar avançou 59,9%. No segundo mandato dela, marcado pelo impeachment em 2016 e pela entrada de Michel Temer, o índice brasileiro subiu 75,7%, ante cerca de 1% do indicador internacional. Entre 2019 e 2022, no governo Jair Bolsonaro, o Ibovespa avançou 24,8%, enquanto o MSCI caiu 0,97% e o dólar subiu 36,1%.