PF indicia Vorcaro e ex-presidente do BRB por fraude bilionária
A investigação aponta que R$ 12 bilhões dos R$ 17,5 bilhões em carteiras vendidas pelo Banco Master ao BRB eram fraudulentos; os indiciados não foram condenados.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, por crimes financeiros relacionados à venda de carteiras de crédito do Banco Master. A PF afirma que pelo menos R$ 12 bilhões dos R$ 17,5 bilhões repassados eram fraudulentos. O relatório segue para análise da Procuradoria-Geral da República.
A Polícia Federal (PF) indiciou o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa por suspeita de crimes financeiros ligados à venda de R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master à instituição pública do Distrito Federal. No relatório final do primeiro inquérito sobre o caso, a PF afirma que pelo menos R$ 12 bilhões em ativos repassados eram fraudulentos, principalmente por envolverem carteiras consignadas falsas.
O indiciamento é o resultado de uma investigação da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades relacionadas ao Master. Vorcaro foi indiciado por gestão fraudulenta, indução de investidor a erro em operação financeira, fraude à fiscalização, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. Indiciamento é a conclusão da polícia de que há indícios de crime e de autoria; não equivale a condenação.
A PF também apontou como indiciados ex-dirigentes dos dois bancos e outras pessoas que teriam participado das operações. Entre eles estão Augusto Lima, ex-sócio do Master; Ângelo Ribeiro, ex-diretor financeiro; Luiz Antônio Bull, ex-diretor de compliance; Alberto Félix de Oliveira, ex-superintendente financeiro; e o advogado Daniel Monteiro, que trabalhava para Vorcaro.
Segundo o relatório, as cessões de crédito ocorreram de julho de 2024 a outubro de 2025 e somaram R$ 17,5 bilhões. O conjunto incluía empréstimos consignados e pessoais, crédito rotativo e parcelamento de faturas. A PF afirma que os repasses continuaram em outubro de 2025, mesmo após o Banco Central (BC) barrar, em setembro daquele ano, a venda do Master ao BRB.
A investigação atribui a Vorcaro participação direta na negociação de carteiras consignadas sem lastro, que teriam sido falsificadas por meio da Tirreno, empresa com ligações ao banco. A PF também descreve a atuação de diretores do Master e do BRB nas operações. O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), e deverá seguir para o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que decidirá se há elementos para apresentar denúncia. Se isso ocorrer, caberá à Justiça avaliar se os acusados se tornam réus.
A PF afirma que o Master dependia de recursos do banco público para manter a liquidez e evitar o fechamento ao menos desde 2024. Em uma mensagem de 2 de setembro daquele ano, Vorcaro escreveu: “Tem notícia do BRB? Se não vier vou ter que devolver a grana de sexta e vamos usar compulsório hoje”. O depósito compulsório é uma parcela dos recursos que os bancos são obrigados a manter no BC, mecanismo que ajuda a regular a liquidez e a segurança do sistema financeiro.
Nos depoimentos prestados na semana anterior à conclusão do inquérito, Vorcaro e Costa disseram que a operação não causou prejuízo e seria benéfica aos bancos. As defesas dos dois ainda não haviam se manifestado sobre o indiciamento. Vorcaro ficou preso por 11 dias em novembro do ano anterior, voltou a ser detido em março por ordem do ministro do STF André Mendonça e Costa está preso desde abril.
O prejuízo do BRB com as operações ainda não foi calculado com exatidão. O banco tenta obter um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas a operação está travada, e a instituição ainda não divulgou o balanço referente ao ano anterior.
O Master foi liquidado em 18 de novembro, quando a PF deflagrou uma fase da operação e prendeu Vorcaro. A investigação, inicialmente concentrada na venda do banco ao BRB, foi ampliada após a análise de provas encontradas no celular do banqueiro. A Operação Compliance Zero já teve dez fases, voltadas a diferentes suspeitas, incluindo crimes financeiros, corrupção de agentes públicos, obstrução da Justiça e ações coordenadas em redes sociais.
Para entender
- Indiciamento
- É o ato pelo qual a autoridade policial aponta indícios de que uma pessoa praticou um crime. Não equivale a uma condenação nem torna a pessoa ré: o Ministério Público avalia se apresenta denúncia, e a Justiça decide se a recebe.
- Depósito compulsório
- É a parcela de recursos que instituições financeiras são obrigadas a manter no Banco Central. O mecanismo ajuda a regular a quantidade de dinheiro disponível no sistema e contribui para a estabilidade financeira.