Bolsa despenca após reeleição de Lula e dólar chega a R$ 5,40
A queda de 13,88% do Ibovespa levou a B3 a suspender negociações; o dólar avançou 8,21%, em reação à surpresa eleitoral e a temores fiscais.
Resumo em 30 segundos
No primeiro pregão após a reeleição de Lula, o Ibovespa caiu 13,88% e o dólar subiu 8,21%, a R$ 5,40. A turbulência atingiu ações, fundos imobiliários e juros futuros, em meio a preocupações com as contas públicas. Especialistas recomendaram cautela enquanto investidores aguardam sinais da política econômica do governo.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmada no domingo (25), provocou forte reação nos mercados financeiros no primeiro pregão após a votação, na segunda-feira (26). O Ibovespa caiu 13,88%, para 176.608 pontos, e o dólar subiu 8,21%, a R$ 5,40, em um dos pregões mais turbulentos da história da Bolsa brasileira.
A queda levou a B3 a interromper as negociações pela primeira vez desde 2020. O circuit breaker é um mecanismo de segurança que suspende temporariamente as operações quando há movimentos bruscos nos preços, para conter a volatilidade e permitir que o mercado assimile as informações. Naquele dia, apenas oito ações fecharam em alta, todas de empresas exportadoras beneficiadas pela valorização do dólar.
A vitória de Lula, com 51,79% dos votos válidos, surpreendeu investidores que apostavam em Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, a Bolsa havia avançado mais de 7% diante da vantagem de Flávio. A mudança no resultado esperado contribuiu para a reversão do otimismo e para o movimento de venda de ações após a apuração do segundo turno.
Os efeitos foram intensos em diferentes setores. Bancos perderam R$ 249 bilhões em valor de mercado apenas na primeira hora de negociação, enquanto Magazine Luiza, Hapvida e C&A tiveram quedas superiores a 47%. Na direção oposta, Suzano subiu 10,08% e Embraer avançou 8,89%, entre os papéis que encerraram o dia em alta.
O dólar a R$ 5,40 refletiu a busca de investidores por proteção e a preocupação com a condução das contas públicas. A cotação corresponde ao valor registrado no pregão de segunda-feira (26), não a uma cotação atual. A economista Marcela Kawauti estimou que a moeda poderia ficar entre R$ 5,50 e R$ 6,00 em 2026 e 2027. Monica de Bolle defendeu uma revisão do arcabouço fiscal e medidas com impacto de pelo menos R$ 40 bilhões para sinalizar compromisso com o equilíbrio das contas.
O arcabouço fiscal reúne regras para orientar as despesas e as receitas do governo e a trajetória da dívida pública. Investidores passaram a acompanhar possíveis mudanças nessas regras, as primeiras medidas da administração reeleita e a composição da equipe econômica. Também observaram as futuras indicações para o Banco Central (BC), que podem oferecer sinais sobre a condução dos juros.
A tensão apareceu nos contratos de juros futuros, que refletem expectativas para as taxas em períodos adiante. Os contratos com vencimento em janeiro de 2035 passaram de 12,65% para 15,37% na abertura do pregão de segunda-feira. A alta indica que o mercado passou a exigir retornos maiores diante das incertezas fiscais e pode encarecer o crédito e os financiamentos.
A reação não ficou restrita às ações. O índice de fundos imobiliários (IFIX) recuou 5,68% na segunda-feira, a maior queda diária desde março de 2020, e caiu mais 1,19% no dia seguinte, apagando os ganhos de outubro. O TGAR11 teve a maior baixa, de 17,04%. O aumento dos juros futuros e as dúvidas sobre as contas públicas também pesaram sobre esses fundos.
O Banco do Brasil caiu quase 30% na segunda-feira e acumulou perda de 24,49% em outubro. Entre os fatores de preocupação estão a perspectiva de juros elevados por mais tempo e a inadimplência no agronegócio, setor que representa mais de 30% da carteira de crédito do banco. Para o Magazine Luiza, a queda de cerca de 60% na segunda-feira foi parcialmente revertida com alta aproximada de 6% na terça-feira (27). A ação ainda acumulava recuo de 24% em outubro e de 36,46% no ano.
Depois do primeiro pregão, o Ibovespa continuou em queda nas sessões seguintes. Um levantamento da Economatica mostrou que não há um padrão único para o comportamento da Bolsa e do dólar após eleições presidenciais: em 2014 e 2018, o Ibovespa caiu no primeiro pregão, mas subiu nos 30 dias posteriores; em 2022, o movimento foi inverso. A surpresa com o resultado de 2026 foi apontada como um fator específico desta reação.
Especialistas recomendaram cautela diante da volatilidade, em vez de decisões precipitadas de venda ou compra. Entre as estratégias mencionadas estão manter ao menos 50% da carteira em ativos líquidos enquanto não houver sinalização fiscal mais clara e considerar investimentos de curto prazo atrelados à Selic ou ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Títulos de longo prazo indexados à inflação podem oferecer juros reais próximos de 7%, mas também oscilam bastante: o Tesouro IPCA+ 2050 caiu 12,63% após o resultado eleitoral.
As incertezas sobre a duração das perdas e uma possível recuperação dependem, entre outros fatores, das medidas econômicas que o governo apresentar. A turbulência também ocorreu em uma semana de atenção internacional: nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), banco central do país, manteve a taxa de juros, como esperavam os investidores.