Banco Central do Paraguai intervém no Ueno após queda da solvência
A intervenção não significa falência: clientes ficaram sem acesso a saques e transferências, e o BC anunciou pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis.
Resumo em 30 segundos
O Banco Central do Paraguai assumiu o controle do banco digital Ueno após o índice de solvência cair para menos da metade do mínimo legal. Clientes não conseguiram sacar ou transferir dinheiro, mas a intervenção não significa que todos os depósitos serão perdidos. O BC anunciou um pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis.
O Banco Central do Paraguai interveio na terça-feira, 3, no banco digital Ueno e assumiu o controle da instituição, após seu índice de solvência cair para menos da metade do mínimo legal. A medida foi aprovada por unanimidade na noite de segunda-feira e ocorre em meio a uma investigação criminal e a pressões políticas envolvendo o presidente Santiago Peña e o chefe do banco central, Carlos Carvallo, que assinou sua renúncia.
A intervenção, chamada de procedimento de resolução, coloca a gestão do Ueno nas mãos de interventores designados pela Superintendência de Bancos. Eles devem avaliar as finanças, preservar os ativos e conduzir a solução de forma ordenada. O índice de solvência compara o capital de uma instituição com seus ativos ponderados pelo risco; sua queda indica menor capacidade de absorver perdas e cumprir obrigações.
O Ueno afirma ter cerca de 3 milhões de clientes, aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai. A instituição administra entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo cerca de US$ 380 milhões do fundo estatal de previdência e saúde. O banco pertence ao Grupo Vásquez, e seu patrimônio líquido era de US$ 401 milhões ao fim de junho, segundo dados citados pelo Banco Central.
Clientes não conseguiram acessar contas pelo aplicativo, sacar ou transferir dinheiro na terça-feira. O fundo de garantia de depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa em cada instituição, valor equivalente a US$ 38 mil, segundo estimativas preliminares. Essa cobertura deve alcançar integralmente cerca de 97% dos depositantes do Ueno. A lei prevê pagamento em até 15 dias após a intervenção, com possibilidade de uma prorrogação.
Como medida inicial, o Banco Central informou que os clientes receberão até 10 milhões de guaranis, cerca de US$ 1,7 mil, descontadas eventuais dívidas com o banco. A autoridade não divulgou uma data para o pagamento e disse que buscará a maior proteção possível para os saldos acima do limite garantido. A diferença entre o teto geral do fundo e o pagamento inicial anunciado decorre do caráter escalonado da resposta; o valor inicial não equivale à cobertura máxima.
O fundo estatal de previdência afirmou que continuará pagando as pensões e transferirá para outro banco os cerca de 32 mil aposentados que recebem seus benefícios pelo Ueno. Também pretende recorrer à Justiça para recuperar o investimento. Peña disse que pediu a saída de Carvallo e que acertou com líderes do Congresso a aceleração de uma proposta para agilizar pagamentos a depositantes e assegurar a devolução de recursos públicos.
Carvallo afirmou que permanecerá no cargo durante a transição, apesar de já ter assinado a carta de demissão. “Os responsáveis terão de responder perante os tribunais, sem exceções nem privilégios”, escreveu. Promotores ordenaram a prisão de oito pessoas, entre elas o presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale, e o diretor-executivo Federico Miguel Vázquez Villasanti, por suspeita de abuso de confiança e outros crimes; outros dois diretores foram detidos na terça-feira.
A intervenção não significa, por si só, que o banco tenha falido ou que todos os depósitos estejam perdidos. O procedimento permite transferir depósitos para outras instituições antes da liquidação dos ativos restantes. O Banco Central afirmou que a situação é específica do Ueno e não representa uma condição generalizada do sistema financeiro paraguaio.