Willer Tomaz pagou viagens de Hazenclever, diz PF em investigação
Registros citados pelos investigadores apontam hospedagem e passagens custeadas em 2025, quando Hazenclever presidia a Loterj; Tomaz diz que eram adiantamentos.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Federal investiga a relação profissional e pessoal entre Willer Tomaz e Hazenclever Lopes Cançado, ex-presidente da Loterj, incluindo despesas de viagens pagas pelo advogado. O inquérito também apura possíveis favorecimentos a empresas ligadas a Tomaz em contratos e credenciamentos da autarquia, além de suspeitas de lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal aponta que Hazenclever Lopes Cançado, ex-presidente da Loterj, manteve vínculos profissionais e pessoais com o advogado Willer Tomaz e teve despesas de viagens pagas por ele enquanto chefiava a autarquia, no Rio de Janeiro. A relação é investigada em inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis favorecimentos a empresas de apostas ligadas a Tomaz.
Hazenclever assumiu a presidência da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) em julho de 2022 e deixou o cargo em março deste ano, quando se candidatou a deputado federal pelo PL. A autarquia, vinculada à Secretaria Estadual da Casa Civil, administra, regulamenta e fiscaliza atividades lotéricas no estado, além de credenciar empresas de apostas esportivas e jogos online.
Segundo a PF, registros encontrados em dados extraídos do celular de Tomaz indicam que ele pagou uma hospedagem em hotel no Rio e uma passagem entre Rio e Brasília em maio de 2025. Em junho daquele ano, teria custeado mais duas viagens: uma entre Rio e Brasília e outra entre Campinas e Rio. O relatório afirma que os pagamentos ocorreram durante o período em que a Rio Pag mantinha contrato com a Loterj.
Tomaz disse que tinha uma parceria profissional com Hazenclever e que os valores pagos correspondiam a adiantamentos por serviços prestados. O ex-presidente da Loterj não se manifestou. Em nota, Tomaz afirmou atuar exclusivamente como advogado da Rio Pag e negou participar da gestão das empresas associadas a ele pelos investigadores.
A PF situa a relação profissional dos dois antes da nomeação de Hazenclever. Em 2021, ambos se apresentaram à Justiça de Mato Grosso como credores em um processo relacionado a precatórios, segundo o relatório. Os investigadores também apontam que Hazenclever tinha registrado um endereço de e-mail institucional do escritório de Tomaz.
A investigação examina decisões da Loterj que beneficiaram empresas que a PF associa ao advogado. No início de 2023, a Rio Pag, controlada por Tomaz segundo os investigadores, venceu uma concorrência para processar pagamentos feitos por apostadores a operadoras autorizadas pela autarquia. Meses depois, a Rede Loto, também ligada a ele pela investigação, recebeu credenciamento para explorar apostas online.
A Rio Pag venceu depois que uma concorrente foi desclassificada por não seguir a forma exigida para apresentar sua proposta. O edital determinava três casas decimais para a taxa de repasse: a concorrente indicou 26%, enquanto a Rio Pag ofereceu 20%. Como a outra empresa apresentou o percentual com apenas duas casas decimais, foi eliminada, embora sua oferta fosse maior mesmo com o ajuste formal. A PF afirma que a hipótese de favorecimento encontra correspondência no tratamento dado à concorrente.
De acordo com dados citados na investigação, a Rio Pag arrecadou R$ 187,8 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026. O contrato foi rescindido em setembro, um mês depois do fim desse período. Para a PF, a proximidade entre Tomaz, Hazenclever e integrantes do governo estadual poderia facilitar a interlocução de interesses ligados à empresa junto à direção da Loterj.
O relatório também descreve Hazenclever como possivelmente ligado ao grupo de interesses de Tomaz na condição de advogado. O ex-governador Cláudio Castro afirmou, em nota, que Hazenclever chegou à presidência da Loterj por indicação do PL. Castro também tinha relações com Tomaz e com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), citado em outras frentes do inquérito.
O caso está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação começou com apurações sobre suspeitas de movimentações financeiras irregulares em plataformas de apostas. Referências a Flávio Bolsonaro em documentos apreendidos levaram o caso ao Supremo, já que o senador tem prerrogativa de foro. Ele chama o inquérito de “fake news” e afirma que sua relação com Tomaz é de amizade. O advogado nega irregularidades e questiona a divulgação das informações às vésperas do segundo turno da eleição presidencial.
A PF também investiga vínculos de Tomaz com duas empresas offshore registradas na Ilha da Madeira, em Portugal, embora ele não apareça formalmente como sócio. Os investigadores citam pagamentos de despesas pessoais feitos pela Cathedral Holding, controladora da Rede Loto, e comunicações que apontariam ligação do advogado com a empresa. A Cathedral realizou movimentações com a Alcazar Holding, que mantém contas em nome de Tomaz; documentos da PF indicam que Flávio aparecia como “usuário master” de uma conta relacionada à Alcazar.
Em outra frente, uma nota técnica do Ministério da Fazenda identificou Tomaz como a pessoa física com maior volume de apostas em plataformas no país, estimado em cerca de R$ 5 bilhões. O advogado declarou que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal. O valor corresponde ao total de apostas sucessivas, que pode incluir dinheiro obtido em rodadas anteriores, e não necessariamente ao montante depositado pelo usuário.
A nota técnica também aponta saques de R$ 200 milhões na plataforma Blaze e questiona a classificação de Tomaz como cliente de risco médio, diante do volume e do padrão das operações. Em ação cível contra a empresa, ele alegou sofrer de ludopatia, transtorno relacionado ao vício em jogos, e pediu a devolução de valores perdidos. Comprovantes apresentados no processo registram R$ 4,8 bilhões em ganhos e quase R$ 5 bilhões em perdas em jogos de cassino durante 2025.
Para entender
- Loterj
- A Loteria do Estado do Rio de Janeiro é uma autarquia estadual responsável por administrar, regulamentar e fiscalizar atividades lotéricas no estado. Também credencia empresas para operar apostas esportivas e jogos online.