PF investiga suspeitas sobre Castro e Ramagem em caso ligado a Flávio
A apuração inclui licitação da Loterj e pagamentos associados a Ramagem; Castro nega participação, e a empresa diz que prestou serviços.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Federal apura possíveis irregularidades envolvendo Cláudio Castro e Alexandre Ramagem em investigação sobre movimentações ligadas a Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro. O inquérito examina uma licitação da Loterj vencida pela Pixs, hoje RioPag, e transferências de R$ 270 mil associadas a Ramagem, feitas por meio de uma empresa de comunicação.
A Polícia Federal investiga se houve irregularidades nas condutas do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e do ex-deputado federal Alexandre Ramagem em um inquérito sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. A apuração, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), também examina movimentações financeiras ligadas a Tomaz e uma licitação da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
O caso começou como um desdobramento de uma investigação sobre o setor de apostas e tem como foco transações relacionadas a Tomaz, que também é investigado em um inquérito sobre fraudes ligadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Com a inclusão do nome de Flávio, o processo foi encaminhado ao STF, onde o ministro Alexandre de Moraes foi sorteado relator.
Um dos eixos da apuração envolve uma licitação de 2022 da Loterj vencida pela Pixs Cobrança, hoje chamada RioPag. A Polícia Federal indicou possíveis irregularidades no processo e afirma que arquivos de Tomaz contêm mensagens e registros de viagens que apontariam proximidade entre o advogado e Castro, que governou o Rio de maio de 2021 a março de 2026.
Tomaz é dono da Rede Loto, apontada como a primeira empresa de apostas a obter licença para operar no país, em maio de 2023, emitida pelo governo fluminense. De acordo com os investigadores, ele seria o dono de fato da Pixs. A licitação ocorreu durante a gestão de Hazenclever Lopes na presidência da Loterj, cargo para o qual foi nomeado pelo então governador; a investigação também aponta vínculos profissionais e proximidade entre Lopes e Tomaz anteriores à nomeação.
Na disputa, a Pixs ofereceu repassar à Loterj 20% de sua remuneração, enquanto a única concorrente apresentou proposta de 26%. A rival foi desclassificada por registrar o percentual com duas casas decimais, em vez das três exigidas no edital. Sem concorrentes, a Pixs negociou diretamente com a autarquia e elevou sua oferta para 26,455%, segundo a apuração da Polícia Federal.
A assessoria de Castro afirmou que ele conhece Tomaz desde 2020 e que os dois são amigos. Disse que o advogado atuou em processos de defesa do ex-governador sem cobrar honorários, por causa da relação pessoal, e que ambos fizeram viagens juntos, pagando cada um suas próprias despesas e as de seus familiares.
Castro afirmou não saber que Tomaz tinha vínculo com a Pixs/RioPag quando a empresa foi contratada pela Loterj, nem conhecer a relação do advogado com Lopes ou eventual custeio de viagens do então presidente da autarquia. A nota acrescentou que Lopes foi indicado pelo PL e que Castro não participou da licitação, da contratação nem de tratativas sobre Tomaz e a empresa.
A Polícia Federal também incluiu na investigação um pagamento de R$ 270 mil que, segundo o pedido de abertura do inquérito, teria como beneficiário final Ramagem. O valor foi dividido em três transferências de R$ 90 mil, feitas formalmente à Torre Comunicação Estratégica. A empresa afirmou que prestou serviços de assessoria de imprensa ao escritório de Tomaz e Eugênio de Aragão, a pedido do qual realizou planejamento estratégico, monitoramento e treinamento de mídia para Ramagem durante três meses, quando ele era pré-candidato à Prefeitura do Rio. A Torre disse ter emitido nota fiscal pelos serviços.
Ramagem comandou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Jair Bolsonaro. Ele perdeu o mandato de deputado em dezembro passado, após ser condenado pelo STF a 16 anos e um mês de prisão por participação em tentativa de golpe de Estado, e está nos Estados Unidos desde setembro passado. Os repasses investigados não foram feitos diretamente a ele; a PF apura a relação dos pagamentos com o ex-deputado.
Em nota, Tomaz declarou que não teve acesso ao inquérito e que pediu acesso aos autos, afirmando que prestará esclarecimentos. Disse que sua relação com Flávio é de amizade entre famílias e que suas empresas e participações são lícitas, registradas e declaradas. Também afirmou que, conforme o que veio a público, a PF não identificou ordem ou intervenção direta na desclassificação da concorrente da Loterj, atribuída ao descumprimento de uma exigência formal do edital.
A campanha de Flávio não havia se manifestado sobre a investigação. Em declaração anterior, afirmou que a relação do senador com Tomaz era exclusivamente de amizade. As transferências para Ramagem e a licitação permanecem sob investigação da Polícia Federal.
Para entender
- Loterj
- A Loteria do Estado do Rio de Janeiro é uma autarquia estadual ligada à administração das loterias no território fluminense. No caso, a investigação examina uma licitação realizada pela entidade em 2022 para a operação de apostas.