Lula condiciona abertura de sigilos à adesão de Flávio Bolsonaro
Documento protocolado no TSE propõe divulgar dados bancários, fiscais e telefônicos de familiares e empresas dos dois candidatos no DivulgaCand.
Resumo em 30 segundos
Lula protocolou no TSE uma autorização para abrir sigilos bancário, fiscal e telefônico próprios, de familiares e de empresas ligadas a ele, se Flávio Bolsonaro fizer o mesmo. O documento também propõe divulgar os dados no DivulgaCand e lista parentes e negócios associados aos dois políticos.
A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva protocolou nesta terça-feira (20) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma autorização para abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico do presidente, de familiares e de empresas ligadas a ele, caso Flávio Bolsonaro faça o mesmo. O documento também inclui um pedido para divulgar os dados e propõe que o senador do PL autorize a abertura de informações sobre pessoas próximas e negócios associados a ele, entre eles uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz.
A iniciativa ocorreu dois dias depois de vir a público uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Tomaz e possíveis conexões com Flávio. Lula condicionou a abertura dos próprios sigilos à medida equivalente por parte do adversário. No documento, pediu que as informações dos dois candidatos sejam disponibilizadas no sistema DivulgaCand, plataforma do TSE que reúne dados sobre candidaturas.
A autorização apresentada por Lula abrange os últimos oito anos e inclui seus dados pessoais, os de familiares e os de empresas. O presidente também relacionou a primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja, e os filhos Lurian, Marcos Cláudio, Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. A proposta inclui a empresa L.I.L.S Palestras, Eventos e Participações Ltda., da qual Lula declarou ser sócio não administrador.
Para Flávio, o documento cita o pai, Jair Bolsonaro, a mãe, Rogéria Bolsonaro, os irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan, além da mulher do senador, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro. Também relaciona empresas no Brasil e no exterior, incluindo a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, a All In One Corretora de Seguros, a Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação e a Bolsonaro Digital.
A lista inclui ainda a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que tem Tomaz como sócio. O pedido menciona que o advogado é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro relacionada ao mercado de apostas e por suspeitas de participação em fraudes contra aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A investigação que motivou a nova disputa política teve origem em apuração da PF no Rio Grande do Sul sobre crimes financeiros envolvendo plataformas de pagamento e empresas de apostas.
A PF suspeita que Tomaz tenha participação em ao menos duas empresas de apostas legalizadas que poderiam ter sido utilizadas para lavar recursos de outra origem. Em uma busca contra o advogado, investigadores encontraram arquivos e registros que apontariam para uma relação com Flávio. Entre eles está um e-mail enviado por uma funcionária de Tomaz a um banco, em 2025, com pedido para retirar o nome do senador de uma conta vinculada a uma empresa no exterior.
O documento de Lula também afirma que Flávio seria “usuário master” de uma conta utilizada pela Alcazar, com base em e-mails do escritório de Tomaz identificados pela PF em uma investigação sobre fraudes no INSS. Flávio e o advogado negam que o senador tenha administrado contas da empresa ou mantido conta compartilhada com Tomaz. As defesas dizem que a relação entre os dois é de amizade e que os registros não comprovam sociedade ou atividade financeira ilícita.
A apuração sobre a possível lavagem de dinheiro foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) depois que a PF identificou elementos que poderiam envolver Flávio, senador com foro por prerrogativa de função. O caso foi distribuído por sorteio ao ministro Alexandre de Moraes. Até agora, não há denúncia apresentada contra o senador nem evidência pública de que ele tenha oferecido contrapartida a Tomaz.
O pedido de Lula transforma a investigação em tema direto da reta final da campanha presidencial. O presidente já havia desafiado Flávio a abrir os sigilos dos dois; a formalização no TSE detalha quais familiares e empresas entrariam na proposta. O documento argumenta que a divulgação permitiria ao eleitor avaliar os candidatos antes da votação, mas a autorização de Lula permanece condicionada à adesão do adversário.
A defesa de Tomaz rejeita as suspeitas e afirma que a relação com Flávio não envolve negócios ou finanças. Também contesta informações sobre viagens e diz que a atuação profissional do advogado respeita as prerrogativas da advocacia. A defesa do senador sustenta que a amizade não representa vínculo irregular e que as referências a contas e empresas não demonstram participação em operações ilícitas.
A abertura de um inquérito, por si só, não equivale a uma acusação formal nem impede a posse de um candidato eleito. Juristas ouvidos sobre o caso afirmam que uma eventual consequência para a posse dependeria de condenação definitiva, processo que poderia levar meses ou anos. A investigação e a proposta de quebra de sigilos, por enquanto, ampliam o confronto político entre Lula e Flávio nos dias finais da disputa.