Ucrânia inicia retirada em Oleshki por corredor humanitário
A trégua mediada por Melania Trump vale até domingo e permite que civis escolham entre áreas controladas pela Rússia ou pela Ucrânia.
Resumo em 30 segundos
A retirada de moradores de Oleshki começou nesta sexta-feira durante um cessar-fogo humanitário que deve durar até domingo. Um comboio de ônibus e ambulâncias foi mobilizado, e os civis podem escolher para onde seguir. A operação ocorre enquanto a população enfrenta falta de serviços básicos e os ataques continuam em outras regiões da Ucrânia.
A retirada de moradores de Oleshki, cidade ucraniana ocupada por forças russas na região de Kherson, começou nesta sexta-feira, 30, sob um cessar-fogo humanitário mediado pela primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump. A trégua, iniciada na terça-feira e prevista para terminar no domingo, abriu um corredor humanitário para a saída de civis e a distribuição de suprimentos.
Oleshki fica na linha de frente e está sob ocupação russa desde 2022. Antes da invasão em larga escala, em fevereiro daquele ano, a cidade tinha cerca de 24 mil habitantes; agora, estima-se que restem aproximadamente 2 mil. Os moradores enfrentam falta de alimentos, água, medicamentos, gás e eletricidade, além da interrupção do abastecimento de água encanada.
A operação foi precedida pela retirada de minas terrestres da estrada usada para deixar a cidade. Foi disponibilizado um comboio de 25 ônibus, com capacidade para transportar até 750 pessoas, além de ambulâncias para quem tem mobilidade reduzida. Também havia transporte especial para moradores acamados e assistência médica no local, segundo informações divulgadas pelas autoridades russas.
O corredor permite que os moradores escolham entre seguir para áreas controladas pela Rússia ou para territórios sob controle ucraniano. Quem optar por voltar à Ucrânia deve atravessar primeiro territórios ocupados pela Rússia até Anapa, no sul do país, seguir de avião para Gomel, na Belarus, e então cruzar por terra a fronteira com a região ucraniana de Chernihiv. O comissário ucraniano de Direitos Humanos, Dmitro Lubinets, deve acompanhar esse grupo no sábado.
Lubinets chegou à cidade junto com sua homóloga russa, Yana Lantratova, para supervisionar a retirada. A viagem foi feita a partir de Armiansk, na península da Crimeia, também ocupada por Moscou. A presença de Lubinets em Oleshki foi a primeira de uma autoridade ucraniana em uma área ocupada pela Rússia desde o início da guerra; a viagem prevista a Belarus também marcará sua primeira visita à Rússia desde então.
“A retirada e a distribuição de ajuda humanitária começaram”, escreveu o negociador ucraniano David Arakhamia nas redes sociais. Lantratova publicou imagens de moradores aguardando os ônibus, enquanto vídeos divulgados por Lubinets mostram pessoas emocionadas conversando com a delegação. O representante ucraniano disse que a cooperação com a autoridade russa teve como objetivo “salvar vidas”.
Nem todos aceitaram partir. Autoridades dos dois países afirmaram que alguns moradores decidiram permanecer, mesmo com a possibilidade de retomada dos combates. Lubinets disse que quem ficar receberá assistência e afirmou que as autoridades fariam o possível para manter a ajuda chegando à cidade. Na véspera, a Rússia informou que havia preparado dezenas de toneladas de alimentos, medicamentos, itens de higiene e combustível para geradores.
Uma moradora disse à BBC que não participaria da retirada porque não poderia levar seus animais. Olena, ucraniana que vive em Kiev, afirmou que a avó e outros familiares também escolheram ficar e que convencer o pai a sair foi difícil. Segundo ela, pessoas mais velhas resistem particularmente a abandonar a cidade.
A operação provocou críticas na Ucrânia pela imagem de Lubinets ao lado de Lantratova, representante de um país que ocupa a cidade. Moscou deverá apresentar a retirada como uma missão humanitária, enquanto parte dos ucranianos suspeita que a iniciativa também busque melhorar a relação com a Casa Branca. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreveu a operação como um caso isolado, difícil de estender a negociações mais amplas para encerrar a guerra.
A pausa em Oleshki é a interrupção mais longa dos combates em um trecho da linha de frente desde o início da invasão em 2022. Outras tréguas parciais, como as anunciadas durante a Páscoa ortodoxa, foram acompanhadas por acusações de violações. O acordo atual se limita à região de Kherson e não interrompeu os ataques em outras partes da Ucrânia.
Em Dnipro, cerca de 200 mil casas ficaram sem energia nesta sexta-feira após bombardeios durante a madrugada. Na quinta-feira, um ataque de drone contra uma estação ferroviária da cidade matou pelo menos 14 pessoas. Também na quinta, um ataque russo em Chernihiv matou duas adolescentes. A Rússia não indicou que o cessar-fogo em Oleshki será ampliado para outras áreas.