Seca na Amazônia avança com El Niño e eleva risco de incêndios
Desde julho, a estiagem atinge sobretudo Roraima, Amapá e o norte do Amazonas; a previsão de chuva abaixo da média pode prolongar o quadro até 2027.
Resumo em 30 segundos
A seca na Amazônia se intensifica desde julho, enquanto brigadas indígenas e comunidades se preparam para incêndios e falta de água. O El Niño pode reduzir as chuvas nos próximos meses e comprometer a recuperação dos rios até 2027. Focos de calor já superam os registrados no mesmo período de 2025.
A seca na Amazônia se intensificou desde julho e já afeta principalmente Roraima, o Amapá e o norte do Amazonas, enquanto brigadas indígenas se preparam para incêndios e comunidades organizam respostas à falta de água. A estiagem ocorre durante o fortalecimento de um El Niño, que pode reduzir as chuvas nos próximos meses e comprometer a recuperação dos rios até 2027.
A pesquisadora Ana Paula Cunha, especialista em secas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), afirma que a situação ainda não chegou ao nível crítico observado em 2023 e 2024, mas vem piorando. A previsão de chuva abaixo da média coincide com o período em que os rios deveriam subir nas principais bacias amazônicas, o que pode prolongar a estiagem e reduzir a água disponível.
O El Niño é um fenômeno climático ligado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial. Ele altera padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões; na Amazônia, pode favorecer períodos mais quentes e secos. A intensidade dos impactos, porém, também depende de outras condições climáticas e ambientais.
Cunha destaca que o Atlântico também influenciou a seca de 2023 e 2024, quando diversos rios atingiram os menores níveis já registrados. Naquele período, o oceano Atlântico estava aquecido e contribuiu para agravar a falta de chuva. Atualmente, não há aquecimento anômalo no Atlântico, mas a condição segue em monitoramento.
O avanço da seca e do calor aumenta o risco de incêndios. O governo federal reconheceu situação de emergência em 36 municípios do Amazonas, e a fumaça vem afetando cidades como Manaus desde setembro. Até meados de outubro, o sistema BDQueimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), registrou cerca de 39 mil focos de calor na Amazônia, ante 24 mil no mesmo período de 2025. O total ainda é inferior aos cerca de 69 mil focos de 2023 e 112 mil de 2024, durante o ciclo anterior do El Niño.
No Baixo Tapajós, em Santarém, no Pará, a memória dos incêndios de 2015 e 2016 orienta a preparação da comunidade indígena Muruary. Naquele período, o fogo destruiu casas, casas de farinha e roçados, e o igarapé usado como fonte de água secou. Tainan Kumaruara, filha da cacica que liderou a comunidade durante os incêndios, coordena a Brigada Guardiões Kumaruara e diz que o grupo trabalha para reduzir a falta de água, prevenir o fogo e proteger a alimentação das famílias.
Na segunda semana de outubro, brigadistas atuaram contra incêndios na região, em áreas externas à Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, que se sobrepõe parcialmente a terras indígenas. A equipe também busca impedir que as chamas avancem para a unidade de conservação. Tainan organiza a logística e obtém combustível, insumos e transporte para os brigadistas.
A brigada integra a Rede de Brigadas do Baixo Tapajós e aplica o Manejo Integrado do Fogo (MIF), conjunto de práticas que virou política pública em 2024. O manejo considera que comunidades tradicionais usam o fogo em atividades como a limpeza de roçados e rituais. Por isso, inclui orientação sobre épocas e horários mais seguros, queimadas controladas e acompanhamento das comunidades.
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) também elaborou um plano de adaptação aos efeitos do El Niño e a eventos climáticos extremos, além de uma cartilha para orientar as comunidades. O material aborda organização local, proteção da água, segurança alimentar, medicamentos, preparação dos territórios e logística. Ruan Guajajara, técnico da gerência de monitoramento territorial indígena da entidade, afirma que a seca de 2023 e 2024 deixou comunidades com dificuldade de deslocamento e acesso a água potável, alimentos e remédios.
O plano prevê riscos como redução dos níveis de rios e igarapés, dificuldades de navegação, aumento de incêndios e impactos na produção de alimentos e na saúde comunitária. A Coiab ressalta que a vulnerabilidade não decorre apenas do El Niño: mudanças climáticas, desmatamento, garimpo e degradação ambiental também pressionam os territórios.
O Ministério dos Povos Indígenas informou que prepara ações com órgãos federais, entre eles a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). As medidas incluem atualizar dados sobre aldeias e rotas, planejar o fornecimento emergencial de água e alimentos, revisar protocolos de resposta e reforçar brigadas. Cestas de alimentos já são distribuídas pela Funai em articulação com parceiros, incluindo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome; as ações poderão ser ampliadas conforme os impactos.
Para as comunidades, a preparação também é uma resposta à possibilidade de uma estiagem mais severa em 2027. A experiência de Muruary levou à criação da brigada após os incêndios de 2015 e 2016, para combinar prevenção, combate e educação ambiental. A estratégia busca reduzir os danos antes que a seca e o fogo atinjam aldeias, fontes de água e meios de subsistência.