El Niño intensifica a seca em El Salvador e ameaça recifes e florestas
O fenômeno deve atingir o pico no fim do ano e ampliar os riscos para a agropecuária, os ecossistemas e populações vulneráveis em várias regiões.
Resumo em 30 segundos
A seca no corredor seco da América Central já compromete a criação de gado em El Salvador. O El Niño também aumenta os riscos de branqueamento de corais e incêndios florestais. Combinado ao aquecimento global, pode agravar impactos climáticos e econômicos, embora seus efeitos variem entre regiões e não sejam garantidos.
O El Niño intensifica a seca no corredor seco da América Central e ameaça atividades agropecuárias e ecossistemas, enquanto seus efeitos se manifestam em diferentes regiões do planeta. Em Sensuntepeque, em El Salvador, a falta de pasto deixou o gado em condição debilitada, com costelas aparentes, segundo relatos de um pecuarista local. O fenômeno deve atingir seu ponto máximo no fim do ano, em meio ao aquecimento global, que pode agravar seus impactos.
O El Niño é um aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial que altera a circulação atmosférica e influencia os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo. Essas conexões climáticas, conhecidas como teleconexões, podem favorecer calor e estiagem em algumas áreas e chuvas intensas em outras. O fenômeno aumenta a probabilidade de determinados efeitos, mas não significa que eles ocorrerão necessariamente em cada local.
Na América Central, a seca afeta o corredor que se estende do México ao Panamá. Em Sensuntepeque, o criador de gado Antonio Aguilar, de 54 anos, disse que falta pasto para alimentar os animais. A escassez de vegetação compromete a criação, enquanto temperaturas elevadas e pouca chuva podem aprofundar as perdas para comunidades que dependem da agricultura e da pecuária.
El Salvador registrou em agosto uma temperatura 4,3°C acima da média, conforme análise baseada em dados de satélites, estações meteorológicas e modelos climáticos. O calor resseca o solo e intensifica os efeitos da falta de chuva. Ao mesmo tempo, uma atmosfera mais quente retém mais umidade, condição que pode tornar episódios de precipitação mais extremos em outras regiões.
Os recifes de coral também estão sob pressão. Os corais são sensíveis ao calor, e temperaturas elevadas podem provocar branqueamento, processo em que eles perdem as algas que lhes fornecem alimento e coloração. Uma avaliação global publicada na revista Nature apontou deterioração acentuada das espécies que formam recifes desde o levantamento mundial anterior, realizado em 2008. A análise mais recente estimou que 44% dessas espécies estão ameaçadas de extinção.
As florestas tropicais enfrentam risco maior de incêndios quando as condições ficam mais quentes e secas. Embora o desmatamento global tenha desacelerado no ano passado, a avaliação florestal independente considera incerto que esse avanço continue, diante da piora das condições na África Central e do aumento do risco de fogo associado ao El Niño.
Os efeitos podem também agravar dificuldades econômicas. Alexander de Croo, chefe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), afirmou que o fenômeno, combinado com custos de energia mais altos e juros elevados, pode empurrar milhões de pessoas para a pobreza. As populações vulneráveis tendem a sofrer mais quando crises climáticas se somam a pressões sobre renda e preços.
A intensidade do episódio ainda é classificada de maneiras diferentes por serviços meteorológicos, porque as agências usam métodos distintos para medir o aquecimento do Pacífico. O serviço britânico o considera sem precedentes, e a agência japonesa o descreve como o mais forte observado; meteorologistas dos Estados Unidos ainda não o classificaram como recorde. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) compara a temperatura do Pacífico centro-oriental com a do restante do oceano tropical, uma referência para avaliar a força do fenômeno.
O episódio mais intenso no conjunto de dados da NOAA ocorreu em 1982. A agência avalia que o atual pode superá-lo, mas a posição definitiva só poderá ser estabelecida depois que o fenômeno terminar. A combinação com o aquecimento causado pelas atividades humanas amplia a preocupação: o clima mais quente pode elevar os danos da seca, dos incêndios e do calor sobre os recifes, sem determinar sozinho o resultado em cada região.