Santiago Peña renuncia em meio à crise do Ueno Bank no Paraguai
A Câmara rejeitou o impeachment de Pedro Alliana, que deve assumir a Presidência, mas aprovou o processo contra Peña; o Ueno Bank teve as atividades suspensas.
Resumo em 30 segundos
Santiago Peña renunciou à Presidência do Paraguai em meio à crise do Ueno Bank e a um processo de impeachment que seguirá no Senado. A Câmara rejeitou a acusação contra o vice Pedro Alliana, que deve assumir o cargo. A crise bancária envolve recursos públicos, clientes sem acesso às contas e investigações sobre empréstimos.
Santiago Peña renunciou à Presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5), em meio à crise política provocada pelo colapso do Ueno Bank e à abertura de um processo de impeachment contra ele. O vice-presidente Pedro Alliana assumirá o comando do país, depois que a Câmara rejeitou a acusação de impeachment contra ele e aprovou o prosseguimento do processo contra Peña, apesar da renúncia.
A crise começou após o Banco Central do Paraguai suspender as atividades do Ueno na terça-feira (3) e iniciar um processo de resolução, procedimento semelhante à liquidação extrajudicial no Brasil. A medida fechou as agências e deixou o aplicativo, as contas e os cartões indisponíveis. O banco tinha cerca de 2,9 milhões de clientes, quase metade da população paraguaia, e administrava recursos públicos e pagamentos de aposentadorias.
Uma revisão dos balanços apontou que o índice de solvência do Ueno estava abaixo de 50% do mínimo exigido por lei. O Ministério Público investiga operações de crédito concedidas a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco, sem garantias suficientes. As operações suspeitas somam mais de US$ 167 milhões, cerca de R$ 900 milhões, e parte do dinheiro pode não ser recuperada.
O caso também alcançou recursos públicos. O banco administrava cerca de US$ 850 milhões, equivalentes a R$ 4,6 bilhões, boa parte proveniente do Instituto de Previsión Social (IPS), a previdência paraguaia. Mais de 32 mil aposentados recebiam benefícios por meio da instituição. Oito dirigentes tiveram a prisão decretada, incluindo o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o presidente do Grupo Vázquez, Miguel Vázquez; 27 pessoas foram formalmente acusadas por crimes como lesão de confiança e tentativa de estelionato.
A oposição acusa Peña de conflito de interesses, de alterar regras para beneficiar o banco e de direcionar recursos da previdência à instituição. O ex-presidente foi sócio do Grupo Vázquez até março de 2025 e afirma que não mantém mais vínculo com a empresa. Ele também escolheu Carlos Carvallo Spalding, que dirigia a versão anterior do Ueno, para presidir o Banco Central em 2023. O banco central afirma que Carvallo se afastava das decisões relativas ao Ueno.
Em entrevista, o opositor Efraín Alegre afirmou que a renúncia de Peña foi uma estratégia para preservar seus privilégios e evitar a prisão. Alegre, que concorreu à Presidência em 2013, 2018 e 2023, também acusou Alliana e autoridades financeiras de cumplicidade e defendeu que os responsáveis sejam processados e que o dinheiro seja recuperado. As afirmações são acusações do opositor; Peña nega responsabilidade pelo caso.
A Câmara rejeitou o impeachment de Alliana por 48 votos a 30. A proposta não alcançou os dois terços exigidos pela Constituição paraguaia para que a acusação avançasse. Na mesma sessão, os deputados aprovaram por unanimidade a abertura de processo contra Peña e encaminharam a acusação ao Senado, responsável pelo julgamento político. A renúncia, portanto, não encerrou o procedimento legislativo.
Peña afirmou que o caso do Ueno é isolado e que eventuais responsáveis por irregularidades responderão à Justiça sem privilégios. Já os defensores do impeachment de Alliana alegaram omissão e proteção política; os parlamentares contrários disseram que ele não tinha atribuição legal nem participação direta nas decisões ligadas à crise. Com a rejeição da acusação contra o vice, ele deverá assumir a Presidência pela regra de sucessão constitucional.
A dimensão do caso pode afetar a confiança no Paraguai como destino de investimentos, avaliação levantada por Alegre. O país vinha sendo procurado por investidores, inclusive brasileiros, atraídos por estabilidade econômica e baixa carga tributária, segundo o opositor. Ele afirmou que a crise põe em dúvida a previsibilidade institucional, mas distinguiu os problemas do sistema financeiro da situação econômica do país.
A crise também reacendeu o debate sobre a relação entre poder público e setor financeiro. Para Alegre, o caso não poderia ter ocorrido sem a participação ou a omissão de autoridades; ele comparou a situação ao escândalo do Banco Master no Brasil. A investigação paraguaia e o processo político seguem em andamento, enquanto clientes e instituições afetados aguardam a resolução do banco e a possibilidade de recuperar os valores.