Ruy Castro vence o Jabuti 2026 com livro sobre a guerra no Rio
A obra “Trincheira tropical” foi eleita Livro do Ano e venceu também em Biografia e Reportagem; o livro retrata a guerra no Brasil entre 1935 e 1945.
Resumo em 30 segundos
Ruy Castro venceu o Prêmio Jabuti 2026 com “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, eleito Livro do Ano e vencedor da categoria Biografia e Reportagem. A obra aborda os efeitos do conflito no Brasil entre 1935 e 1945, com destaque para disputas políticas e a ascensão do integralismo no Rio de Janeiro.
O escritor e jornalista Ruy Castro venceu na terça-feira, 27, o Prêmio Jabuti 2026 com “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”. A obra foi escolhida Livro do Ano e também ganhou na categoria Biografia e Reportagem, na cerimônia da 68ª edição da premiação, realizada em São Paulo.
Publicado pela Companhia das Letras, o livro acompanha os efeitos da Segunda Guerra Mundial no Brasil entre 1935 e 1945, com atenção especial ao Rio de Janeiro, então capital federal. Castro reúne personagens e episódios ligados a espiões, refugiados, diplomatas, artistas e às disputas políticas daquele período, relacionando acontecimentos internacionais à vida cotidiana carioca.
A narrativa trata da ascensão do nazifascismo na Europa, das tensões que o fenômeno provocou no Brasil e dos debates que antecederam a entrada do país na guerra. Um dos temas abordados é o integralismo, movimento de extrema direita organizado por Plínio Salgado, que ganhou espaço nas ruas brasileiras na década de 1930.
Um trecho do livro descreve a presença dos integralistas no Rio em 1934. A sede carioca da Ação Integralista Brasileira (AIB) funcionava em um prédio na Rua Rodrigo Silva, no centro, onde novos filiados podiam se inscrever e receber materiais de divulgação. Perto dali, uma alfaiataria confeccionava as camisas verdes usadas pelos integrantes do movimento.
As roupas tinham características de uniforme militar, com bolsos, alças nos ombros e, em algumas ocasiões, boina. As mulheres vestiam camisa de gola aberta e saia, enquanto os homens usavam gravata e calças. A AIB era uma organização civil, mas o autor relata que Plínio Salgado obteve autorização do ministro da Guerra, general Euclydes Goes Monteiro, para que os integrantes usassem fardas.
Os militantes se saudavam com o braço direito erguido e a palavra “Anauê!”, que o movimento apresentava como uma expressão de origem tupi. O gesto e a roupa funcionavam como sinais públicos de filiação. A organização defendia a fórmula “Deus, Pátria e Família” e uma estrutura política centralizadora, com Executivo forte e orientação nacionalista, anticomunista e religiosa.
No trecho, Castro retrata Salgado como o líder de um movimento que se inspirava nos regimes autoritários da Alemanha, da Itália e do Japão. O integralismo se apresentava como uma força capaz de combater o comunismo e outros grupos que considerava adversários. A descrição também situa o crescimento da organização em meio à crise econômica e à insatisfação social, fatores que ajudavam a tornar atraente seu discurso para parte da classe média e da juventude.
O livro aborda, assim, como disputas ideológicas internacionais repercutiam na política brasileira antes e durante a Segunda Guerra. A escolha do Rio como foco permite acompanhar esse processo na então capital do país, entre manifestações públicas, organizações políticas e a circulação de ideias que dividiam a sociedade.
Esta é a segunda vez seguida que Castro recebe o principal reconhecimento do Jabuti. Em 2025, “O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim”, coletânea de crônicas sobre o músico, venceu na categoria Crônica e também foi eleita Livro do Ano. O autor é membro da Academia Brasileira de Letras e tem trajetória ligada a biografias, música e história cultural brasileira.
Castro não participou da cerimônia de 2026 por questões de saúde. A Companhia das Letras informou que ele está bem.
Para entender
- Integralismo
- Movimento político brasileiro de extrema direita criado por Plínio Salgado na década de 1930. Defendia nacionalismo, anticomunismo e um Estado centralizado, e seus integrantes ficaram conhecidos pelo uso de camisas verdes e pela saudação “Anauê!”.