Professores dos EUA mudam avaliações para conter uso de chatbots
Redações em sala, provas orais e atividades práticas ganham espaço, enquanto algumas escolas também ensinam os alunos a usar inteligência artificial com responsabilidade.
Resumo em 30 segundos
Professores de escolas dos Estados Unidos estão levando mais atividades para a sala de aula e adotando provas orais, escrita à mão e tarefas práticas para acompanhar o raciocínio dos alunos e reduzir a dependência de chatbots. As estratégias variam: há educadores que restringem a tecnologia e outros que a incorporam ao ensino.
Professores de escolas dos Estados Unidos estão alterando avaliações e atividades para reduzir a dependência de chatbots e observar melhor como os alunos aprendem. Entre as mudanças estão mais redações feitas em sala, provas orais, exercícios presenciais e tarefas práticas, enquanto alguns educadores também usam inteligência artificial (IA) como apoio ao ensino.
Em São Francisco, Tristen Chang, professora de humanidades do 6º ano, deixou de pedir redações para casa e passou a avaliar parte do conteúdo oralmente. Na escola em que trabalha, ela faz 15 perguntas sobre personagens, enredo, tema e metáforas; os alunos respondem em cerca de cinco minutos. “Há muito tempo a tecnologia vem transformando o ensino, mas a IA é a mudança mais drástica”, afirma.
A presença de ferramentas generativas em celulares e computadores levou educadores a transferir para a sala de aula atividades que antes eram feitas em casa. A ideia é acompanhar o processo de raciocínio, e não apenas receber uma resposta pronta. As redes de ensino, porém, não adotam uma posição única: algumas integram a tecnologia, outras restringem seu uso, e há escolas que buscam um meio-termo.
Rusty Shabe, professor de inglês em São Francisco, ampliou o tempo dedicado à escrita em aula porque alguns estudantes recorrem à IA quando se sentem sobrecarregados com tarefas em casa. Em uma atividade, alunos do 7º ano trabalham durante um mês no desenvolvimento de uma redação. Bobson Wong, professor de matemática do ensino médio em Nova York, reduziu o número de questões para casa e passou a propor mais exercícios em sala, onde consegue acompanhar como os estudantes resolvem os problemas.
“Minha principal maneira de entender se eles sabem pensar criticamente precisa acontecer na escola”, diz Meghan Hyland, professora de inglês nos arredores de Nova York. No ano passado, ela passou a pedir que os alunos deixassem os celulares na sala ao sair, depois de perceber que alguns acessavam ferramentas de IA no banheiro. Também aumentou o peso das atividades feitas em classe e reduziu a dependência da lição de casa.
Outros docentes tentam criar perguntas menos previsíveis, que exijam interpretações próprias e não possam ser respondidas de forma satisfatória por um chatbot. Pian Rockfeld, professora de inglês do ensino médio no Bronx, em Nova York, propõe redações baseadas em artigos acadêmicos que costumam estar protegidos por acesso pago, o que dificulta que ferramentas de IA consultem esses textos. “Procuro me esforçar bastante para criar questões às quais, pelo menos por enquanto, a IA ainda não consiga responder perfeitamente”, afirma.
Há também uma retomada de atividades sem tela. Rex Ovalle, professor de inglês do ensino médio nos arredores de Chicago, pede que os alunos peguem cadernos de redação no começo da aula e limita os Chromebooks a aproximadamente 10% dos dias letivos. “Tenho percebido muito mais participação, porque não dá para se esconder quando os laptops estão guardados”, afirma. Os Chromebooks, computadores portáteis usados em escolas, foram amplamente adotados durante a pandemia de Covid-19 e agora são reavaliados por distritos escolares diante da preocupação com o tempo excessivo de tela.
Hyland também pede que os estudantes escrevam à mão, salvo quando precisam de adaptações específicas. Para avaliar a compreensão de livros, ela propõe demonstrações culinárias: ao estudar “Um Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens, um biscoito preto e branco representou a frase inicial do romance, que contrapõe o melhor e o pior dos tempos. A professora busca atividades ao vivo, nas quais os alunos mostrem seu pensamento criativo enquanto realizam a tarefa.
A discussão sobre os efeitos da IA na aprendizagem ainda não tem uma resposta definitiva. Um estudo randomizado conduzido por pesquisadores de Harvard em 2025 concluiu que um tutor de IA personalizado elevou os resultados de aprendizagem e o envolvimento dos estudantes. Já uma pesquisa menor do Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), também em 2025, observou que pessoas que usaram o ChatGPT para escrever redações terminaram mais rápido, mas aparentemente refletiram menos durante o processo. Uma pesquisa da Rand, no mesmo ano, constatou que a maioria dos estudantes e professores de inglês, matemática e ciências nos Estados Unidos usava IA em atividades escolares.
Alguns educadores, em vez de restringir a tecnologia, incorporam-na ao trabalho pedagógico. Michael Zagari, professor de ciências humanas nos arredores de Nova York, usa IA para adaptar documentos históricos a diferentes níveis de leitura e resumir artigos. Ele também incentiva os alunos a recorrerem às ferramentas no início de pesquisas e defende que aprendam a formular comandos e a avaliar os resultados. “A IA não vai desaparecer. Precisamos ensinar o uso responsável da IA, assim como ensinamos o uso responsável da internet”, afirma.
Para entender
- IA generativa
- Tipo de inteligência artificial capaz de produzir conteúdos, como textos, imagens e respostas, a partir de instruções ou perguntas. Chatbots são uma forma de acessar essas ferramentas por meio de uma conversa.