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Sábado, 10 de outubro de 2026

Estudo identifica 636 espécies de bactérias intestinais raras hoje

A comparação entre povos caçadores-coletores e populações industrializadas aponta diferenças na diversidade, mas não prova que as espécies perdidas causem doenças.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Pesquisador prepara amostras em laboratório para estudar bactérias intestinais. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Pesquisador prepara amostras em laboratório para estudar bactérias intestinais.
Resumo em 30 segundos

Pesquisadores identificaram 636 espécies de bactérias intestinais abundantes entre os Hadza, da Tanzânia, e os Tsimane, da Amazônia boliviana, mas raras ou ausentes em sociedades industrializadas. O estudo sugere que parte desse conjunto acompanha os humanos há dezenas de milhares de anos. Os resultados não demonstram que a perda cause doenças nem recomendam tentar recuperar esses micróbios.

Um estudo publicado na revista Nature identificou 636 espécies de bactérias intestinais especialmente abundantes em povos caçadores-coletores e raras ou ausentes em sociedades industrializadas. A comparação entre comunidades Hadza, da Tanzânia, e Tsimane, da Amazônia boliviana, sugere que parte desse conjunto microbiano acompanha os seres humanos há dezenas de milhares de anos e diminuiu com mudanças recentes no modo de vida.

Os pesquisadores analisaram amostras de fezes e encontraram 848 espécies comuns aos dois grupos, mas pouco frequentes em países industrializados. Dentro desse conjunto, selecionaram 636 espécies mais abundantes. As bactérias de cada povo apresentavam mutações próprias, um padrão que, segundo os autores, indica que seus ancestrais já carregavam micróbios semelhantes antes de as populações se separarem.

A diversidade também foi maior entre os Hadza. Em média, os voluntários desse grupo apresentaram cerca de 730 espécies, ante aproximadamente 270 entre pessoas da Califórnia, de acordo com Justin Sonnenburg, pesquisador da Universidade Stanford e um dos autores do trabalho. Os Hadza mantêm um estilo de vida de caça e coleta; os Tsimane vivem em aldeias amazônicas, cultivam pequenas áreas e também caçam e coletam alimentos.

A análise não significa que todas as bactérias intestinais antigas fossem benéficas, nem que seja seguro tentar recuperá-las. Marie-Claire Arrieta, especialista em microbioma da Universidade de Alberta que não participou do estudo, alertou para o possível risco infeccioso de micróbios pouco conhecidos. Para ela, o caminho é investigar quais funções úteis eles desempenhavam e buscar formas de restaurá-las, sem tentar reproduzir todo o microbioma de caçadores-coletores.

O microbioma é o conjunto de microrganismos que vive no corpo, incluindo trilhões de micróbios no intestino. Muitas bactérias participam de processos importantes, como a digestão de componentes dos alimentos e a interação com o sistema imunológico. A composição varia entre pessoas e populações; por isso, encontrar uma bactéria em uma amostra não basta para classificá-la como “boa” ou “ruim” em qualquer contexto.

A história evolutiva ajuda a explicar as mudanças observadas. Os ancestrais humanos passaram a cozinhar alimentos centenas de milhares de anos atrás, segundo a hipótese apresentada pelos cientistas. A agricultura, que começou há cerca de 10 mil anos, alterou novamente a dieta. Nas últimas décadas, o consumo de alimentos com muito açúcar e grãos refinados e o uso de antibióticos também podem ter modificado a diversidade microbiana. Antibióticos combatem infecções bacterianas, mas podem afetar micróbios úteis junto com os que causam doenças.

A equipe considera que a perda de espécies pode ter consequências para a saúde, mas o estudo não demonstra que ela cause doenças específicas. Sonnenburg levantou a hipótese de que a mudança esteja relacionada a problemas como alergias e demência. Michael Gurven, antropólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e coautor da pesquisa, disse que o microbioma dos Tsimane pode ajudar a compreender a proteção observada nesse povo contra doenças cardíacas e outras condições crônicas. São possibilidades que exigem investigação adicional.

Bactérias patogênicas — aquelas capazes de causar doença — podem provocar sintomas como diarreia, mas os sinais dependem do microrganismo e da infecção. O estudo não apresenta uma lista de bactérias que causam diarreia, não identifica quais das 636 espécies poderiam provocar sintomas e não oferece tratamento para infecções intestinais. Também não estabelece que existam bactérias que, por si só, façam uma pessoa emagrecer ou engordar.

Os resultados apontam para uma transformação do ecossistema intestinal em sociedades industrializadas, não para um diagnóstico individual. A pesquisa investiga a história e a diversidade das bactérias; identificar um microrganismo específico como causa de sintomas ou decidir como tratar uma infecção depende de avaliação clínica. Os autores defendem estudar as funções que podem ter sido perdidas, em vez de recomendar a introdução de espécies desconhecidas no intestino.

Para entender

Microbioma
É o conjunto de microrganismos que vive em um ambiente do corpo, como o intestino. Sua composição varia entre pessoas e populações; a presença de uma bactéria, por si só, não determina se ela é benéfica ou prejudicial.
Povos Hadza e Tsimane
Os Hadza vivem na Tanzânia e mantêm um modo de vida baseado na caça e na coleta. Os Tsimane vivem em aldeias da Amazônia boliviana, cultivam pequenas áreas e também caçam e coletam alimentos.

Fontes: O Globo

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