Polêmica sobre Aparecida leva bolsonaristas a reagir à esquerda
Monitoramento de 469 perfis evangélicos aponta que a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida levou bolsonaristas a reagir a narrativas da esquerda.
Resumo em 30 segundos
Um levantamento de 469 perfis evangélicos identificou mobilização de direita e esquerda na disputa sobre Nossa Senhora Aparecida. A socióloga Andréa Laís afirma que, pela primeira vez no monitoramento, a extrema-direita precisou responder a narrativas da esquerda. A polêmica incluiu uma informação falsa sobre Flávio Bolsonaro e um projeto arquivado em 2008.
A disputa eleitoral em torno de Nossa Senhora Aparecida mobilizou perfis evangélicos de direita e de esquerda nas redes sociais. Um levantamento sobre 469 contas ligadas a religião e política indica que, desta vez, a extrema-direita precisou responder a temas apresentados por setores progressistas, segundo a socióloga Andréa Laís, pesquisadora da Casa Galileia.
O relatório Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral acompanha quinzenalmente publicações no ambiente digital evangélico. A edição mais recente analisou postagens entre 14 e 27 de setembro e observou como os dois campos políticos relacionaram o caso à corrida eleitoral.
“E foi a primeira vez que a extrema-direita foi pautada e precisou responder a narrativas propostas pela esquerda”, afirmou Laís. Ela disse que a preocupação demonstrada por lideranças políticas e religiosas bolsonaristas pode indicar que elas interpretaram o episódio como uma possível vantagem para a esquerda.
A controvérsia envolveu uma informação falsa segundo a qual o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) defenderia um projeto para retirar de Aparecida o título de padroeira do Brasil. A proposta foi apresentada em 2007 pelo então deputado e pastor Victório Galli e arquivada em 2008. Não há evidência de que Flávio tenha tentado reativá-la.
A mesma alegação circulou em 2018, associada a Jair Bolsonaro, pai do senador. Agora, ganhou força após Flávio declarar, em agosto, que, se eleito, iria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A fala foi interpretada por parte do público como sinal de que um eventual governo poderia favorecer evangélicos.
Questionado sobre a declaração, Flávio afirmou que era uma forma figurada de destacar a importância da paz, da proteção e da esperança. A frase apareceu em um vídeo no qual justificou sua ausência em um debate da Band: disse que não participaria porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também faltaria e que gostaria de debater “com quem não acredita em Deus”. A afirmação sobre Lula se baseava em um recorte de fala; no trecho completo, o presidente mencionou pessoas que não acreditam em Deus e, em seguida, reafirmou sua própria crença.
A resposta de Flávio à controvérsia foi acompanhada de críticas à imprensa e de acusações de que haveria uma guerra religiosa. Uma postagem em que negou querer retirar o título de padroeira reuniu 857,5 mil interações. Portais evangélicos e lideranças como o deputado Sóstenes Cavalcante (PL) também divulgaram o desmentido e a retratação da GloboNews.
O canal havia exibido um comentário sobre a preocupação de setores católicos com uma parcela evangélica que estaria mobilizada para resgatar o projeto. Depois, pediu desculpas. O comentário não mencionava Flávio. Páginas evangélicas interpretaram o episódio como uma tentativa de afastar eleitores católicos do candidato; outras publicações destacaram aparições dele ao lado de imagens da santa.
Uma carta do Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb), assinada por lideranças como Silas Malafaia, Cláudio Duarte, Teo Hayashi e Robson Rodovalho, acusou Lula e apoiadores de divulgar informações falsas para “atingir um adversário político e, o mais grave, promover uma guerra religiosa entre católicos e evangélicos”. À esquerda, perfis como Evangélicos com Lula criticaram o uso político da fé e defenderam a união entre as duas religiões.
Quem é quem
- Nossa Senhora Aparecida
- Título atribuído à imagem de Maria venerada no catolicismo brasileiro, associada ao Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo. A devoção tem grande presença religiosa e cultural no país e aparece com frequência em debates públicos sobre fé e identidade nacional.
- Casa Galileia
- Organização civil brasileira que desenvolve pesquisas e campanhas voltadas ao segmento cristão. Entre suas iniciativas está o acompanhamento de narrativas evangélicas relacionadas à religião, à política e ao contexto eleitoral.