Paul Freston vê disputa religiosa em fake news sobre Aparecida
O sociólogo Paul Freston afirma que a falsa alegação sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida reflete disputas religiosas na campanha de 2026.
Resumo em 30 segundos
Paul Freston avalia que a falsa alegação de que Flávio Bolsonaro quer retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil evidencia uma disputa religiosa na campanha. O sociólogo compara o episódio a boatos antigos contra o PT, analisa a relação de Flávio com evangélicos e critica a dificuldade da esquerda em dialogar com esse segmento.
A circulação de uma notícia falsa segundo a qual Flávio Bolsonaro (PL) pretende retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil revela, segundo o sociólogo Paul Freston, uma inversão no uso eleitoral da desinformação religiosa. Em entrevista, ele afirmou que a direita está sendo atingida por uma estratégia semelhante à que já usou contra adversários políticos. A imagem de Aparecida é um símbolo católico de forte presença na cultura popular brasileira.
“A direita está provando do próprio veneno”, disse Freston. “O feitiço virou contra o feiticeiro.” O pesquisador comparou o episódio a boatos recorrentes de que governos ou candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT) fechariam igrejas. Segundo ele, essa alegação circula desde eleições anteriores, apesar de não haver registro de igrejas fechadas por administrações petistas.
Freston lembrou que rumores sobre a implantação de uma religião oficial também apareceram em outros momentos da história política brasileira. Em 1986, durante a Assembleia Constituinte, circulou a versão de que haveria uma tentativa de restaurar o catolicismo como religião oficial. O sociólogo relatou ainda que, em entrevista feita em 1991 com o pastor José Wellington Bezerra da Costa, ouviu uma acusação semelhante contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sem evidências que a sustentassem.
Para o pesquisador, a disputa em torno de Aparecida tem relação com a busca por espaço religioso na vida pública. A imagem católica ocupa lugar central no imaginário nacional, mas não é compartilhada da mesma forma por evangélicos. Freston afirmou que críticas à devoção a santos fazem parte de correntes evangélicas tradicionais e que, em suas expressões mais extremas, o debate pode incluir racismo contra a imagem negra de Nossa Senhora Aparecida.
O sociólogo também interpretou a fala de Flávio Bolsonaro sobre “decretar o Brasil para Cristo” como uma afirmação de centralidade evangélica no espaço público. Ele ponderou, porém, que a expressão não implica necessariamente a criação de uma teocracia ou a retirada de direitos de pessoas de outras religiões. Para parte dos fiéis, disse, a frase pode ter significado místico; outros evangélicos a consideram sem efeito prático.
Na avaliação de Freston, a declaração tem finalidade eleitoral. Ele duvida que um eventual governo adotasse medidas de caráter teocrático, pois elas não teriam apoio nem de muitos evangélicos e poderiam provocar desgaste político. O pesquisador acrescentou que a controvérsia sobre Aparecida e a reação de Flávio à CNBB podem prejudicar sua capacidade de dialogar com católicos e evangélicos.
Freston disse perceber menos entusiasmo por Flávio Bolsonaro entre evangélicos do que houve pelo pai, Jair Bolsonaro. Ele apontou como possíveis fatores as acusações e controvérsias envolvendo o senador e uma reavaliação de parte dos fiéis após 2022. Naquele período, segundo o sociólogo, a pressão política em algumas igrejas, inclusive contra fiéis que discordavam de pregações de direita, pode ter causado desgaste.
O pesquisador considera que o apoio evangélico foi decisivo para que o bolsonarismo se tornasse um movimento de massas. Ele contrastou o perfil predominantemente mais pobre, feminino e não branco de parte expressiva desse segmento com características que, segundo ele, tendem a favorecer o voto em Bolsonaro, como maior renda, ser branco e ser homem. Freston também observou que Lula obteve dois de cada três votos evangélicos no segundo turno de 2002 e 2006, enquanto hoje registra, em média, 30% desse eleitorado.
Na avaliação do sociólogo, a dificuldade da esquerda em ampliar o diálogo com evangélicos tem raízes históricas. Ele criticou uma postura que, segundo disse, trata a religião com indiferença ou desconfiança e defendeu mais disposição para ouvir os fiéis. Também avaliou que a tentativa de apresentar a primeira-dama Janja como interlocutora evangélica não teria boa aceitação nesse público.
Freston é professor colaborador de sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, no Canadá. Sua tese sobre protestantismo e política no Brasil, apresentada na Universidade Estadual de Campinas em 1993, será relançada em dezembro pelo Instituto de Estudos da Religião.
Quem é quem
- Paul Freston
- Sociólogo inglês naturalizado brasileiro, pesquisador de religião e política e estudioso do pentecostalismo. É professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal de São Carlos e leciona em instituições canadenses.
- Nossa Senhora Aparecida
- Título atribuído à imagem de Nossa Senhora venerada por católicos no Brasil. É considerada padroeira do país e constitui um importante símbolo da tradição católica brasileira.
- Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
- Organismo que reúne os bispos católicos do Brasil. A entidade atua em temas religiosos e sociais e aparece na matéria no contexto de antigas alegações sobre a criação de uma religião oficial.