Aliados de Flávio levam guerra espiritual à campanha presidencial
Campanhas de jejum e oração e apoios de lideranças evangélicas mobilizam eleitores no segundo turno, enquanto pautas morais clássicas perdem espaço.
Resumo em 30 segundos
Aliados de Flávio Bolsonaro recorrem à ideia de guerra espiritual para apresentar a eleição como disputa entre o bem e o mal. Campanhas de jejum e oração e o apoio de lideranças evangélicas ganharam força na reta final. Pautas como aborto e legalização das drogas seguem presentes, mas ocupam espaço menor na disputa principal.
O discurso da “guerra espiritual” ganhou espaço na campanha presidencial de 2026 entre aliados de Flávio Bolsonaro (PL), enquanto temas morais tradicionais, como aborto e legalização das drogas, tiveram menor destaque na disputa principal. A estratégia apresenta a eleição como um confronto entre o bem e o mal e associa a vitória de adversários a uma ameaça religiosa, com mobilizações de jejum e oração e manifestações de lideranças evangélicas na reta final.
Na sexta-feira (23), a deputada estadual catarinense Ana Campagnolo, do PL, publicou uma imagem que fazia referência à perda do mindinho de Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrida em um acidente de trabalho quando ele era jovem. Sobre a foto, inseriu as expressões “ideologia de gênero”, “aborto”, “legalização das drogas” e “repressão à nossa fé”. A publicação afirmava que cristãos não deveriam votar em candidatos ligados a pessoas que defenderam essas pautas.
Na legenda, Campagnolo criticou políticos que, segundo ela, reaparecem a cada quatro anos com uma imagem de simpatia, apesar de terem tratado valores conservadores como atraso. A mensagem enquadrou o voto como uma escolha de fidelidade religiosa e reforçou a oposição a candidatos associados à esquerda.
Esse tipo de pauta moral não desapareceu, mas ficou mais à margem da campanha presidencial, segundo o cenário descrito por iniciativas que acompanharam perfis religiosos nas redes. A Casa Galileia e o Instituto Democracia em Xeque identificaram forte mobilização, nos dias anteriores ao segundo turno, em torno de campanhas de “jejum e oração pelo Brasil”. Influenciadores como Bella Falconi incentivaram a prática como forma de libertar o país de uma “ideologia demoníaca”.
A guerra espiritual, nesse contexto, transforma divergências políticas em uma disputa religiosa entre forças do bem e do mal. Essa linguagem pode retratar o avanço de um adversário não apenas como derrota eleitoral, mas como risco existencial para a fé e os valores de um grupo. O discurso se combina com pautas morais, mas não depende apenas delas para mobilizar eleitores.
Flávio também buscou apoio em igrejas durante a campanha. Em agosto, prometeu que um dos primeiros atos de sua Presidência seria decretar “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A Justiça Eleitoral proíbe pedidos de voto dentro de templos, e a presença de candidatos nesses espaços pode levar a questionamentos sobre os limites entre atividade religiosa e propaganda eleitoral.
Na reta final, os ministérios Belém e Madureira da Assembleia de Deus declararam preferência por Flávio. O missionário R.R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, também manifestou apoio na sexta-feira (23). Ele afirmou que o senador era mais jovem e que tinha respeito pela família Bolsonaro. Soares, que já havia demonstrado simpatia por Jair Bolsonaro, ainda não tinha declarado publicamente apoio ao filho nesta eleição.
A candidatura começou com ressalvas entre parte dos pastores, que questionavam se Flávio conseguiria repetir o apelo eleitoral do pai e temiam que suspeitas de corrupção prejudicassem sua campanha. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, ex-presidente da bancada evangélica, disse que fiéis perdoariam o senador mesmo se surgissem provas de irregularidades. “E até agora não existe nada de prova, só boataria”, afirmou. A declaração é uma avaliação de Cavalcante; suspeitas e alegações não equivalem a uma condenação.
Flávio disse ter se convertido ao evangelicalismo, processo que teria começado em 2022 e se consolidado com seu batismo na Comunidade das Nações, liderada pelo bispo JB Carvalho. A identidade religiosa do candidato também gerou controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida: antes do primeiro turno, ele precisou responder a um boato de que retomaria um projeto para retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Ele nunca defendeu publicamente essa medida.
A mobilização religiosa também veio acompanhada de ataques a religiões de matriz africana. Em uma publicação, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou um vídeo de um ato pró-Lula promovido por umbandistas e candomblecistas, no qual manifestantes cantavam sobre “manter Bolsonaro amarrado num cipó”. A pesquisadora Carolina Rocha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), explicou que a expressão vem da tradição da Jurema, religião afro-indígena de origem nordestina, e se refere à invocação de proteção e ao afastamento de forças consideradas ameaçadoras, não a um desejo literal de morte.
O debate ocorre em meio à ampliação da presença evangélica na política, com influenciadores e parlamentares como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, do PL de São Paulo, entre os nomes de destaque. Ao mesmo tempo, a disputa evidencia como a religião pode ser mobilizada de formas diferentes: como argumento para orientar o voto, como fonte de apoio a candidatos e como alvo de conflitos entre grupos religiosos.