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Sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Pesquisadores defendem tratar a machosfera como questão de saúde pública

Artigo na Lancet propõe combinar educação, saúde mental, políticas econômicas e regulação das plataformas para enfrentar o problema.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Jovem diante de um laptop em uma sala escura, com uma página de discussão online na tela. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Jovem diante de um laptop em uma sala escura, com uma página de discussão online na tela.
Resumo em 30 segundos

Pesquisadores defendem que a machosfera seja enfrentada como questão de saúde pública, com ações além da regulação das plataformas. As propostas incluem políticas de emprego e proteção social, apoio à saúde mental, iniciativas nas escolas e restrições à publicidade digital. O artigo também recomenda combater a misoginia fora da internet.

Pesquisadores defendem que a machosfera, ecossistema de comunidades online que compartilham ideias sobre masculinidade, misoginia e vitimização masculina, seja enfrentada como uma questão de saúde pública. Em artigo de opinião publicado na revista científica The Lancet, Kent Buse e Sarah Hawkes, diretores-executivos do centro Global 50/50, afirmam que a resposta deve combinar ações em educação, saúde, economia e regulação das plataformas digitais.

Para os autores, restringir ou regulamentar conteúdos na internet é importante, mas não resolve o problema por si só. Eles propõem um plano coordenado para reduzir fatores sociais que, segundo o artigo, deixam meninos e homens mais vulneráveis à marginalização e a discursos que atribuem suas dificuldades às mulheres e ao feminismo.

A expressão “machosfera” descreve espaços digitais que difundem visões misóginas e ideias sobre uma suposta perda de poder masculino. O conceito se relaciona à masculinidade hegemônica: um padrão cultural que associa ser homem a demonstrar força, evitar expressar fragilidade e assumir o papel de provedor financeiro. O artigo argumenta que a pressão para corresponder a essas expectativas se intensifica em meio a dificuldades econômicas, problemas de inserção no mercado de trabalho, afastamento da escola e encarceramento.

Buse e Hawkes também apontam que serviços de saúde e assistência social não têm conseguido responder adequadamente ao sofrimento e às necessidades de saúde mental de homens e meninos. Um relatório de 2021 da Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou uma taxa global de suicídio de 12,6 a cada 100 mil homens, ante 5,4 a cada 100 mil mulheres.

Na avaliação dos pesquisadores, a machosfera desloca a responsabilidade por problemas masculinos para as mulheres e o feminismo, em vez de relacioná-los a condições sociais e econômicas. Eles afirmam que criadores de conteúdo e plataformas lucram com cursos, mentorias e produtos que apresentam soluções individuais, como disciplina, suplementos e coaching. “Em uma das narrativas mais recorrentes da machosfera os homens são convencidos de que suas dificuldades decorrem de uma cultura feminilizada que reprime sua suposta dominância natural. A solução oferecida é individual, como a busca pela otimização de si mesmo, a disciplina, o uso de suplementos e o coaching, em vez de respostas coletivas ou políticas”, escreveu Buse.

Entre as medidas sugeridas está a articulação de políticas de emprego, qualificação profissional e proteção social para reduzir a precariedade econômica, além de ações para reintegrar meninos à educação e ampliar o acesso à saúde mental. O texto também recomenda integrar os setores de saúde e educação para promover, nas escolas, competências sociais e emocionais, reduzir comportamentos agressivos e desenvolver habilidades de relacionamento.

Outra frente seria a comunicação pública: em vez de retratar a masculinidade como inerentemente tóxica ou meninos e homens como problemáticos por natureza, os autores defendem apresentar formas diversas de masculinidade. Para as plataformas digitais, sugerem regulamentação acompanhada de outras estratégias de saúde pública, inclusive restrições à publicidade. Também recomendam investimento governamental em pesquisa, monitoramento e avaliação das medidas adotadas.

O artigo ressalta que a machosfera não criou a misoginia, mas pode ampliar e normalizar preconceitos já existentes. Por isso, os pesquisadores defendem que o enfrentamento online seja acompanhado de ações contra o machismo e a misoginia fora da internet. Buse afirma que existem iniciativas em diferentes países, mas que elas ainda não foram reunidas em um plano integrado, com orçamento e responsabilidade definida entre áreas do governo.

Entre os exemplos citados estão a Lei de Segurança Online de 2023, no Reino Unido, e a proibição do uso de redes sociais por menores de 16 anos na Austrália. No estado australiano de Victoria, o currículo escolar inclui educação para relações respeitosas desde 2016. No Brasil, Buse menciona a decisão de 2025 do Supremo Tribunal Federal sobre o Marco Civil da Internet, que ampliou obrigações das plataformas, e a lei que proibiu celulares nas escolas.

A antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, também defende uma abordagem que considere o papel das plataformas e dos algoritmos na aproximação de usuários a movimentos misóginos. Em seu livro “Ecologias de crise – uma teoria cibernética da radicalização”, lançado em outubro, ela chama esse processo de “espirais da radicalização”. Cesarino afirma que meninos e homens, especialmente crianças e adolescentes que chegam cedo a esses ambientes, podem ser influenciados por eles, sem que isso elimine a responsabilidade individual por atos de violência.

Fontes: Folha de S.Paulo

Este texto foi produzido com apoio de inteligência artificial a partir de informações públicas, com checagens automáticas de fatos e de originalidade. Encontrou um erro? Avise-nos.

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