Mosquito-tigre avança na Europa e dengue já circula nos Estados Unidos
A Flórida concentra 485 dos 2.145 casos confirmados nos EUA neste ano; a presença do mosquito, porém, não significa transmissão automática da doença.
Resumo em 30 segundos
A presença do mosquito-tigre asiático aumentou em países europeus, e a dengue já tem transmissão local em partes da Europa e casos nos Estados Unidos. A Flórida reúne a maior parcela dos casos americanos citados. Especialistas alertam que o avanço dos vetores pode ampliar riscos, mas não provoca surtos por si só: o vírus e condições favoráveis também são necessários.
A presença do mosquito-tigre asiático avançou em países europeus, enquanto a dengue já provoca casos nos Estados Unidos, com a Flórida entre as áreas mais afetadas. Especialistas relacionam a expansão dos mosquitos transmissores a condições climáticas mais favoráveis e alertam que a chegada do vetor não significa, por si só, transmissão local da doença.
O escritório europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que, nos últimos sete anos, a presença do mosquito-tigre, o Aedes albopictus, aumentou 55% entre os países do bloco. Neste ano, o inseto foi identificado em 31 países. A OMS recomenda vigilância, detecção precoce, prevenção de picadas e controle dos vetores, sobretudo durante a primavera e o verão.
Na Europa, a dengue também já circula localmente — isto é, sem que os casos estejam ligados a viagens ou deslocamentos — em países como Croácia, França, Itália, Espanha e Portugal, de acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças. A presença do mosquito, contudo, não basta para que ocorra um surto: também é necessário que o vírus chegue à região e encontre condições para se manter e se transmitir.
Nos Estados Unidos, foram confirmados 2.145 casos de dengue neste ano, dos quais 485 na Flórida, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Um condado onde fica Orlando emitiu pela primeira vez em 15 anos um alerta sobre doenças transmitidas por mosquitos. A informação sinaliza preocupação local, mas não significa que todas as regiões do país tenham transmissão da doença.
A dengue existe nos Estados Unidos, portanto, mas sua ocorrência não é uniforme. A Flórida concentra a maior parcela dos casos mencionados, e a transmissão local depende de fatores como a presença do vírus e de mosquitos capazes de transmiti-lo. A expansão de um vetor pode elevar o risco, sem levar automaticamente a um aumento imediato de casos.
Na Califórnia, o programa Debug, ligado ao Google, anunciou há três meses que pretende liberar 32 milhões de mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia. A estratégia busca reduzir a capacidade de transmissão: a bactéria dificulta a replicação dos vírus no mosquito. Os insetos não são descritos como transmissores da dengue; a iniciativa é uma forma de controle do vetor, não uma vacina para pessoas.
O método também é usado no Brasil. Em Niterói, onde a cobertura chega a 100%, a redução de casos de dengue foi de 90%, conforme os dados citados. A Wolbachia é uma bactéria que pode bloquear a multiplicação de vírus dentro do mosquito, diminuindo a possibilidade de que ele os transmita após picar uma pessoa infectada.
O pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Luciano Moreira atribuiu a expansão dos mosquitos ao aquecimento global. Segundo ele, períodos mais longos de calor tornam algumas regiões mais adequadas à sobrevivência e à reprodução dos vetores. Moreira afirmou que há relatos de Aedes aegypti na região metropolitana de Londres e disse que a adaptação às novas condições pode ocorrer ao longo dos próximos anos.
O verão europeu recente também chamou a atenção de especialistas. O Copernicus, observatório climático da União Europeia, calculou que 52% do território do bloco esteve exposto a estresse térmico “muito forte”. A combinação de temperaturas mais altas e temporadas quentes prolongadas pode ampliar as áreas onde os mosquitos encontram condições para se estabelecer.
A mudança também é observada no Brasil. No Rio Grande do Sul, os casos confirmados passaram de 80 em 2018 para 2,4 mil neste ano, segundo o painel estadual. Os anos de 2024 e 2025 tiveram números ainda maiores, de acordo com a matéria. Para o infectologista Julio Croda, da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, o país inteiro enfrenta dengue, ao contrário do que ocorria quando algumas áreas eram menos atingidas.
O avanço do vetor pode trazer desafios adicionais à saúde pública. Em locais sem histórico da doença, profissionais podem ter menos experiência para reconhecer e tratar a dengue, e uma parcela maior da população pode estar suscetível. O médico sanitarista Cláudio Maierovitch, da Fiocruz em Brasília e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), defendeu que as regiões atingidas adotem programas de combate ao mosquito semelhantes aos usados nos trópicos. Ele também apontou o risco de casos graves entre idosos e pessoas com comorbidades.
A expansão dos mosquitos, no entanto, não determina sozinha o alcance da dengue. A transmissão local exige a presença do vírus, condições ambientais que permitam sua persistência e uma população exposta. Com vetores em novas áreas, a vigilância e o diagnóstico adequado tornam-se importantes para identificar rapidamente possíveis infecções e orientar a resposta dos serviços de saúde.
Para entender
- Mosquito-tigre asiático
- Aedes albopictus é uma espécie de mosquito capaz de transmitir vírus como o da dengue. Sua presença em uma região não basta, sozinha, para provocar transmissão: o vírus também precisa chegar, e as condições locais devem permitir que ele persista e se espalhe.
- Wolbachia
- É uma bactéria encontrada naturalmente em muitos insetos. Em programas de controle, mosquitos Aedes portadores de Wolbachia são liberados para reduzir a capacidade de transmissão de vírus. A estratégia atua sobre os mosquitos e não é uma vacina aplicada às pessoas.