Pesquisa do Ministério do Turismo mostra que 4 em 10 mulheres já viajaram sozinhas
Lazer, liberdade e autoconhecimento estão entre as motivações; o medo da violência também leva muitas brasileiras a desistir de viajar sem companhia.
Resumo em 30 segundos
Pesquisa divulgada pelo Ministério do Turismo aponta que quatro em cada dez brasileiras já viajaram sozinhas. Lazer, liberdade e autoconhecimento estão entre as motivações. A experiência pode permitir escolhas no próprio ritmo, mas não é uma obrigação nem substitui apoio psicológico. O levantamento também registra desistências por medo da violência, sem detalhar quantas mulheres ou destinos.
Quatro em cada dez brasileiras já viajaram sozinhas, segundo pesquisa divulgada pelo Ministério do Turismo. Lazer, liberdade e autoconhecimento estão entre as principais motivações, enquanto o medo da violência leva muitas mulheres a desistir de fazer viagens sem companhia.
O levantamento trata do turismo feminino e mostra que viajar só pode ser uma escolha para definir o destino, os horários e as atividades sem depender da agenda de outras pessoas. Para algumas mulheres, a experiência também permite conhecer lugares no próprio ritmo e identificar preferências que ficam em segundo plano na rotina.
A decisão, porém, não é necessariamente simples. A neurocientista e terapeuta junguiana Roberta Calderini afirma que muitas mulheres são incentivadas desde cedo a assumir responsabilidades e atender às expectativas de outras pessoas, o que pode dificultar o reconhecimento dos próprios desejos.
“Muitas mulheres passam o dia inteiro atendendo expectativas e, quando chegam em casa, já não conseguem identificar as próprias necessidades. O desejo, o afeto e a conexão emocional precisam de espaço. Quando a rotina é dominada por cobranças, a intimidade pode acabar ficando em segundo plano”, afirma Calderini.
Uma viagem sem companhia pode abrir espaço para escolhas cotidianas, como decidir onde comer, qual passeio fazer ou quando não ter compromissos. Isso não significa, contudo, que viajar resolva conflitos emocionais ou substitua acompanhamento psicológico quando necessário.
A experiência também não deve ser confundida com solidão. Solitude é a possibilidade de estar consigo mesma por escolha e de forma satisfatória; solidão costuma estar ligada ao sofrimento pela falta de vínculos desejados. Assim, alguém pode sentir-se só mesmo acompanhado ou aproveitar a própria companhia durante uma viagem.
A psicóloga Letícia de Oliveira, que trabalha com saúde mental, comportamento e bem-estar emocional, destaca que comparações frequentes podem afetar a maneira como uma pessoa avalia a própria vida. “Quando a comparação se torna frequente, pode surgir ansiedade, sensação de inadequação e dificuldade de reconhecer o próprio valor”, diz.
Imagens de viagens românticas e passeios em grupo, comuns nas redes sociais, podem reforçar a expectativa de que experiências especiais precisam ser compartilhadas. Questionar essa ideia pode fazer parte da autonomia, mas viajar sozinha não deve virar uma nova obrigação nem uma prova de independência.
A segurança é uma preocupação concreta: a pesquisa também aponta que muitas brasileiras já desistiram de viajar sem companhia por medo da violência. Planejar o percurso, buscar informações sobre o destino e manter uma rede de apoio podem ajudar na preparação, sem eliminar os riscos. A pesquisa não informa, no material divulgado, quantas mulheres desistiram nem quais destinos foram considerados.
Calderini afirma que independência não significa resolver tudo sem ajuda. Para ela, autonomia e acolhimento podem coexistir: aceitar apoio também pode ser uma forma de cuidado. Viajar sozinha, portanto, é uma possibilidade para quem deseja a experiência, não uma exigência para demonstrar capacidade.
Para entender
- Solitude
- É a experiência de estar consigo mesma por escolha e de maneira satisfatória. Diferentemente da solidão, que costuma envolver sofrimento pela falta de vínculos desejados, a solitude pode ser vivida mesmo quando se tem relações próximas.