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Sábado, 10 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro cresce mais em cidades dependentes do agronegócio

Análise da Quaest sobre as eleições de 2026 aponta que o avanço foi maior em municípios ligados a grãos, pecuária e grandes propriedades.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Lavoura de soja com uma colheitadeira ao fundo, representando o agronegócio brasileiro. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Lavoura de soja com uma colheitadeira ao fundo, representando o agronegócio brasileiro.
Resumo em 30 segundos

Flávio Bolsonaro ampliou a votação de Jair Bolsonaro em 98% dos municípios no primeiro turno de 2026, com crescimento médio maior nas cidades mais dependentes do agronegócio. A associação permaneceu após ajustes por características locais. Expansão de igrejas evangélicas e abertura de MEIs tiveram poder explicativo menor e menos consistente.

Flávio Bolsonaro ampliou sua votação em relação a Jair Bolsonaro em 2022 em 98% dos municípios brasileiros no primeiro turno de 2026, e o avanço foi maior nas cidades cuja economia depende mais do agronegócio. Uma análise estatística da Quaest aponta que a associação se mantém mesmo quando são considerados fatores como renda, tamanho do eleitorado, população rural, presença evangélica e votação do ex-presidente.

O estudo comparou a parcela dos votos válidos recebida por Flávio neste primeiro turno com a obtida por Jair Bolsonaro na primeira rodada da eleição anterior. A pesquisa examinou três possíveis explicações para a mudança: o peso do agronegócio na economia municipal, a expansão de igrejas evangélicas e o empreendedorismo, medido pela abertura de microempreendedores individuais (MEIs).

Os municípios foram separados em cinco grupos, conforme a participação da agropecuária na economia local. No grupo menos dependente do setor, Flávio cresceu, em média, três pontos percentuais em relação ao desempenho do pai. No grupo de maior dependência, a alta foi de 7,1 pontos. Nos três grupos intermediários, os aumentos foram de 4,8, 5,4 e 6,2 pontos, numa sequência crescente conforme aumentava o peso do agro.

O padrão foi observado nas cinco regiões do país e se mostrou mais intenso no Sul. Nesse recorte, a diferença entre os municípios dos dois extremos foi de quatro a 9,5 pontos. O crescimento também se destacou em áreas do interior de São Paulo e de Minas Gerais, no Centro-Oeste e na fronteira agrícola do Norte.

Para verificar se o resultado refletia apenas características associadas a cidades agrícolas, a análise comparou municípios do mesmo estado e levou em conta outras diferenças entre eles. A associação com o agronegócio permaneceu após os ajustes, inclusive quando o indicador analisado foi a mudança na vantagem da direita sobre Lula.

O tipo de produção também fez diferença. Em municípios produtores de grãos, o crescimento de Flávio foi 2,3 pontos maior do que em localidades com baixa participação do agro. Nas cidades pecuaristas, a diferença foi de 1,2 ponto. Já nos municípios caracterizados pela agricultura familiar diversificada, não foi identificada uma diferença estatística nesse confronto.

Os resultados mais consistentes aparecem em locais que combinam produção de grãos, pecuária, grandes propriedades e crédito rural. O estudo ressalta que é difícil atribuir o efeito a apenas um desses elementos, pois eles costumam estar presentes ao mesmo tempo. O tamanho reduzido de uma cidade, isoladamente, explica menos do que a atividade econômica que organiza sua vida local.

A expansão de igrejas evangélicas apresentou uma associação adicional pequena com o crescimento de Flávio, mas o resultado variou conforme a medida usada e quase desapareceu nas comparações entre grandes cidades. Municípios com proporção maior de evangélicos tiveram um avanço adicional um pouco menor. Isso não significa que a religião não influencie o voto: os dados indicam apenas que a expansão recente de igrejas explica pouco do aumento em relação ao resultado de Jair Bolsonaro.

A abertura de MEIs também teve pouco poder explicativo próprio na comparação entre municípios, depois de considerados outros fatores. Dentro das grandes cidades, porém, áreas com expansão maior de novos MEIs — descontado o estoque que já existia — registraram maior crescimento de Flávio. A combinação entre abertura de igrejas e de MEIs, por vezes associada à chamada “teologia da prosperidade”, não apresentou relação consistente com a votação.

Entre 21 medidas ligadas ao setor agropecuário, a expansão da soja de 2018 a 2025 e o desmatamento de 2019 a 2022 continuaram associados a um crescimento maior de Flávio, mesmo após o controle pelo peso do agro na economia municipal. Já a expansão mais recente dos grãos, de 2021 a 2025, não apresentou essa associação. O mesmo ocorreu com emprego no setor, exposição ao tarifaço dos Estados Unidos e variação do crédito rural entre os governos Bolsonaro e Lula.

A análise, portanto, relaciona o avanço eleitoral à presença consolidada do agronegócio empresarial, e não a uma expansão recente do setor ou a perdas econômicas. Em cidades organizadas em torno de lavouras e pecuária, a atividade também alcança comércio, transporte, oficinas e serviços; moradores que não trabalham diretamente em fazendas podem sentir seus efeitos no cotidiano.

A região do Matopiba — que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — é hoje a principal fronteira de expansão da soja. O Tocantins é o único estado inteiramente incluído nela. Lula venceu no estado em 2022, mas perdeu neste primeiro turno. A combinação de soja, pecuária e grandes propriedades presente em partes do Tocantins coincide com características de municípios onde Flávio teve maior crescimento.

Os resultados localizam os tipos de município em que a mudança foi mais forte, mas não explicam por si só as motivações individuais dos eleitores. Para compreender por que o agronegócio se associa ao avanço de Flávio, será necessário investigar como os moradores desses locais avaliam as mudanças em sua vida e a política.

Para entender

Matopiba
Região de expansão agropecuária formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O nome combina as primeiras sílabas dos quatro estados. É conhecida pela expansão da produção de grãos, especialmente soja.

Fontes: O Globo, Estadão, Valor Econômico

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