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Sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Orquestras dos EUA incluem trilhas de cinema em audições

Trechos de “Tubarão”, “Star Wars” e “Harry Potter” já podem pesar na disputa por vagas, ao lado de obras clássicas e contemporâneas.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Contrabaixista toca atrás de um biombo durante uma audição em uma sala de concertos. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Contrabaixista toca atrás de um biombo durante uma audição em uma sala de concertos.
Resumo em 30 segundos

Orquestras dos Estados Unidos vêm incluindo trechos de trilhas de cinema nas audições para músicos. As passagens testam habilidades específicas e se juntam a obras clássicas e de compositores contemporâneos. A mudança acompanha a ampliação do repertório apresentado pelos conjuntos, embora muitas seleções ainda priorizem peças tradicionais.

Trechos de trilhas sonoras de filmes como “Tubarão”, “Star Wars” e “Harry Potter” estão sendo incluídos nas audições de músicos de orquestra nos Estados Unidos. As passagens, antes concentradas em obras do repertório clássico, podem ser decisivas para candidatos a vagas profissionais, ao lado de peças de compositores como Mozart, Mahler e Beethoven.

Michael Banks, contrabaixista de 25 anos, conquistou uma vaga na Orquestra Sinfônica de Pittsburgh depois de tocar, entre outros trechos, “The Shark Cage Fugue”, da trilha composta por John Williams para “Tubarão”. A passagem aparece no clímax do filme e exige atenção a mudanças de corda e a nuances rítmicas. Banks ingressou no conjunto em maio de 2025, após uma seleção que incluiu várias etapas.

A audição começou com cerca de seis minutos de música. Os candidatos tocaram atrás de um biombo, sem que a banca pudesse vê-los, e Banks avançou à semifinal e à fase final, realizada seis semanas depois. Na última etapa, executou obras de Haydn e Mahler, além de “Coincident Dances”, da compositora Jessie Montgomery, peça contemporânea que exige saltos entre notas distantes.

As seleções para orquestras costumam reunir obras solo, como concertos e sonatas, e uma série de excertos curtos escolhidos para testar aspectos específicos da execução. A lista varia conforme o instrumento. Trombonistas, por exemplo, podem ter de tocar a “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner; harpistas frequentemente estudam o solo da “Valsa das Flores”, de “O Quebra-Nozes”, de Tchaikovsky.

A inclusão de música de cinema acompanha a presença crescente desse repertório na programação das orquestras. Uma passagem de “Tubarão” pode avaliar o domínio técnico de um contrabaixista, assim como uma peça clássica, enquanto trechos de “Harry Potter” exigem habilidades próprias de outros instrumentos. Na harpa, por exemplo, os pedais alteram a afinação das cordas, e seu uso precisa ser planejado com cuidado.

Caitlin Mehrtens, harpista principal da Ópera de Houston, preparou “Fluffy’s Harp”, da trilha de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, para uma audição da Sinfônica de Detroit. Ela disse que a peça não é rápida, mas apresenta notas repetidas difíceis e demanda trabalho complexo com os pedais. Mehrtens também toca como substituta na Sinfônica de Houston, inclusive em concertos dedicados a trilhas de filmes.

A preparação para uma audição começa muito antes da divulgação da lista. Músicos podem aprender excertos tradicionais ainda no ensino médio e passar anos aperfeiçoando-os durante a formação. Também estudam gravações da orquestra para compreender como ela interpreta as obras, já que cada conjunto pode adotar uma sonoridade e uma abordagem próprias.

As listas começam a incorporar também obras de compositores vivos e de grupos historicamente sub-representados. A iniciativa Redefining the Canon, da Boulanger Initiative, trabalha com orquestras para incluir peças desses autores nas audições. Voluntários procuram passagens adequadas para avaliar os músicos, e a compositora Jennifer Higdon, vencedora do Prêmio Pulitzer, percebeu um aumento nas solicitações há cerca de cinco ou seis anos.

Higdon e Montgomery disseram considerar um reconhecimento o uso de suas obras em seleções. Ambas costumam permitir que orquestras utilizem suas músicas sem cobrança, embora alguns compositores cobrem uma taxa simbólica. Os excertos recentes podem apresentar desafios adicionais porque há menos tradição interpretativa em torno deles, e as versões de uma mesma peça podem mudar.

Montgomery, por exemplo, revisou o solo de contrabaixo de “Coincident Dances” depois de ouvir apresentações iniciais. As versões original e editada passaram a circular em audições. Para a compositora, o músico deve escolher uma delas e executá-la com convicção; no caso dessa obra, ela disse que os intérpretes têm liberdade.

As audições são feitas, em geral, às cegas para reduzir vieses, mas o método também recebe críticas. Laura Colgate, spalla — a primeira violinista e líder dos violinos — da National Philharmonic, considera que tocar excertos não reproduz necessariamente as habilidades exigidas no trabalho, que envolve atuar em conjunto. Algumas orquestras, por isso, incluem um período de experiência com o grupo antes de formalizar a contratação.

A seleção de Banks mostra como o repertório exigido pode refletir as mudanças na programação. Ele afirmou que, se trilhas e obras novas fazem parte do trabalho de um músico, também devem ser avaliadas na contratação. A atualização, porém, não é uniforme: muitas orquestras ainda mantêm listas concentradas no repertório tradicional, e a audição continua sendo o principal critério para preencher vagas.

Fontes: O Globo

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