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Quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Smart Sampa expõe credenciais e dados de agentes por 11 meses

Vazamento do sistema de câmeras de São Paulo incluiu código-fonte e permitiu reconstruir o painel; prefeitura afastou servidor e investiga o caso.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Câmera de monitoramento instalada em uma rua movimentada de São Paulo. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Câmera de monitoramento instalada em uma rua movimentada de São Paulo.
Resumo em 30 segundos

Informações restritas do Smart Sampa ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses, incluindo 181 credenciais, dados de aproximadamente seis mil agentes e o código-fonte da plataforma. A prefeitura afastou um servidor investigado pela divulgação e determinou novo cadastro dos operadores. Especialistas alertam para riscos de rastreamento e golpes, mas dizem que o alcance depende das permissões e dos dados acessados.

Informações restritas do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses. O vazamento incluiu 181 credenciais de acesso, dados de aproximadamente seis mil agentes de segurança e o código-fonte da plataforma, segundo informações divulgadas nesta terça-feira (20). A prefeitura confirmou a exposição e afastou um servidor suspeito de divulgar os dados.

O programa reúne mais de 58 mil câmeras, embora nem todas tenham reconhecimento facial. Com as informações expostas, foi possível reconstruir o painel de monitoramento e navegar pelas câmeras integradas ao sistema. A prefeitura afirma que não há registros de terceiros usando indevidamente os equipamentos e sustenta que o episódio não foi resultado de um ataque cibernético convencional, mas da divulgação de informações por alguém que tinha acesso autorizado.

A administração municipal declarou que monitorava a vulnerabilidade como uma espécie de “isca” para identificar possíveis invasores e negou que tenha ocorrido uma falha nos mecanismos de segurança da plataforma. A conduta do servidor afastado é investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A prefeitura também determinou que os operadores do painel façam recadastramento presencial com reconhecimento facial em até três meses.

Especialistas em segurança digital alertam que o acesso a imagens e à localização dos equipamentos pode permitir o acompanhamento de pessoas pela cidade. Lígia Ribeiro dos Anjos, pesquisadora que estudou o Smart Sampa em sua tese de doutorado, afirma que imagens podem ser analisadas por ferramentas externas, mesmo quando não foram captadas por câmeras configuradas para reconhecimento facial.

No sistema oficial, a identificação depende de configurações específicas e de um índice mínimo de similaridade entre rostos. Segundo a pesquisadora, um algoritmo independente poderia pesquisar imagens de uma pessoa a partir de uma fotografia, fora das proteções e dos critérios usados pelo programa. O conhecimento sobre onde estão instaladas as câmeras também pode indicar áreas com maior cobertura de vigilância e pontos menos monitorados.

Outro risco apontado é o uso dos dados para fraudes direcionadas. Wilder Martins, diretor de Segurança da Informação da empresa de cibersegurança EXA, afirma que a combinação de imagens, CPFs, endereços, placas de veículos e informações sobre rotinas pode ajudar criminosos a produzir mensagens que pareçam legítimas. O alcance do risco, porém, depende das permissões vinculadas às credenciais expostas e dos dados efetivamente acessados: uma conta que apenas permite visualizar imagens oferece possibilidades diferentes de outra com acesso a bancos de dados ou capacidade de alterar informações.

A repercussão do vazamento também pode ser explorada em golpes. Criminosos podem enviar mensagens falsas em nome da prefeitura e pedir que a pessoa clique em um link para descobrir se foi afetada, atualizar um cadastro ou confirmar dados biométricos. A recomendação é não abrir links recebidos inesperadamente e procurar informações somente nos canais oficiais dos órgãos envolvidos.

Martins também cita o uso de inteligência artificial para analisar grandes volumes de dados ou produzir imagens e vídeos falsos, inclusive deepfakes com o rosto de uma pessoa. Ele ressalva que a exposição de uma fotografia, por si só, não permite concluir que seja possível burlar sistemas de autenticação biométrica.

A gestão municipal afirmou que não tem acesso ao código-fonte da plataforma, não realiza auditorias externas independentes e desconhece os critérios usados no treinamento dos algoritmos, que ficam sob domínio da empresa contratada. Para Lígia, a participação de órgãos públicos, fornecedores de tecnologia e empresas privadas torna mais difícil identificar responsabilidades e fiscalizar todos os componentes do sistema. Ela também questiona a dependência de empresas terceirizadas em uma estrutura que concentra imagens e dados da população.

Parte das câmeras integradas ao Smart Sampa pertence a particulares que cedem imagens ao programa. A distribuição dos equipamentos pode, por isso, variar entre áreas com diferentes condições de investimento, segundo a pesquisadora. Ela afirma que essa diferença levanta questões sobre quais regiões são mais vigiadas e quem tem acesso à proteção oferecida pelo sistema.

O caso também levou o Ministério Público de São Paulo a registrar uma notícia de fato para avaliar os indícios relacionados à exposição. Essa etapa não equivale à abertura de um inquérito civil: o promotor responsável ainda deve decidir se há elementos para instaurar uma investigação formal.

O contrato do Smart Sampa atribui à empresa responsável a segurança dos sistemas e da infraestrutura e prevê multa de até 10% do valor total do contrato, equivalente a R$ 58,8 milhões. A apuração sobre a divulgação das informações e a verificação das permissões envolvidas devem ajudar a esclarecer a extensão do acesso e as consequências do vazamento. Enquanto isso, especialistas recomendam revisar credenciais, limitar permissões, auditar acessos e suspender contas comprometidas.

Para entender

Smart Sampa
Programa da Prefeitura de São Paulo que integra imagens de câmeras públicas e particulares para monitoramento da cidade. Parte dos equipamentos conta com recursos de reconhecimento facial, que dependem de configurações específicas do sistema.
Notícia de fato
Registro usado pelo Ministério Público para avaliar informações sobre um possível problema e decidir se há elementos para abrir uma investigação formal. Por si só, não equivale à instauração de um inquérito civil.

Fontes: O Globo, Folha de S.Paulo

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