Smart Sampa expõe credenciais e dados de agentes por 11 meses
Vazamento do sistema de câmeras de São Paulo incluiu código-fonte e permitiu reconstruir o painel; prefeitura afastou servidor e investiga o caso.
Resumo em 30 segundos
Informações restritas do Smart Sampa ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses, incluindo 181 credenciais, dados de aproximadamente seis mil agentes e o código-fonte da plataforma. A prefeitura afastou um servidor investigado pela divulgação e determinou novo cadastro dos operadores. Especialistas alertam para riscos de rastreamento e golpes, mas dizem que o alcance depende das permissões e dos dados acessados.
Informações restritas do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses. O vazamento incluiu 181 credenciais de acesso, dados de aproximadamente seis mil agentes de segurança e o código-fonte da plataforma, segundo informações divulgadas nesta terça-feira (20). A prefeitura confirmou a exposição e afastou um servidor suspeito de divulgar os dados.
O programa reúne mais de 58 mil câmeras, embora nem todas tenham reconhecimento facial. Com as informações expostas, foi possível reconstruir o painel de monitoramento e navegar pelas câmeras integradas ao sistema. A prefeitura afirma que não há registros de terceiros usando indevidamente os equipamentos e sustenta que o episódio não foi resultado de um ataque cibernético convencional, mas da divulgação de informações por alguém que tinha acesso autorizado.
A administração municipal declarou que monitorava a vulnerabilidade como uma espécie de “isca” para identificar possíveis invasores e negou que tenha ocorrido uma falha nos mecanismos de segurança da plataforma. A conduta do servidor afastado é investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A prefeitura também determinou que os operadores do painel façam recadastramento presencial com reconhecimento facial em até três meses.
Especialistas em segurança digital alertam que o acesso a imagens e à localização dos equipamentos pode permitir o acompanhamento de pessoas pela cidade. Lígia Ribeiro dos Anjos, pesquisadora que estudou o Smart Sampa em sua tese de doutorado, afirma que imagens podem ser analisadas por ferramentas externas, mesmo quando não foram captadas por câmeras configuradas para reconhecimento facial.
No sistema oficial, a identificação depende de configurações específicas e de um índice mínimo de similaridade entre rostos. Segundo a pesquisadora, um algoritmo independente poderia pesquisar imagens de uma pessoa a partir de uma fotografia, fora das proteções e dos critérios usados pelo programa. O conhecimento sobre onde estão instaladas as câmeras também pode indicar áreas com maior cobertura de vigilância e pontos menos monitorados.
Outro risco apontado é o uso dos dados para fraudes direcionadas. Wilder Martins, diretor de Segurança da Informação da empresa de cibersegurança EXA, afirma que a combinação de imagens, CPFs, endereços, placas de veículos e informações sobre rotinas pode ajudar criminosos a produzir mensagens que pareçam legítimas. O alcance do risco, porém, depende das permissões vinculadas às credenciais expostas e dos dados efetivamente acessados: uma conta que apenas permite visualizar imagens oferece possibilidades diferentes de outra com acesso a bancos de dados ou capacidade de alterar informações.
A repercussão do vazamento também pode ser explorada em golpes. Criminosos podem enviar mensagens falsas em nome da prefeitura e pedir que a pessoa clique em um link para descobrir se foi afetada, atualizar um cadastro ou confirmar dados biométricos. A recomendação é não abrir links recebidos inesperadamente e procurar informações somente nos canais oficiais dos órgãos envolvidos.
Martins também cita o uso de inteligência artificial para analisar grandes volumes de dados ou produzir imagens e vídeos falsos, inclusive deepfakes com o rosto de uma pessoa. Ele ressalva que a exposição de uma fotografia, por si só, não permite concluir que seja possível burlar sistemas de autenticação biométrica.
A gestão municipal afirmou que não tem acesso ao código-fonte da plataforma, não realiza auditorias externas independentes e desconhece os critérios usados no treinamento dos algoritmos, que ficam sob domínio da empresa contratada. Para Lígia, a participação de órgãos públicos, fornecedores de tecnologia e empresas privadas torna mais difícil identificar responsabilidades e fiscalizar todos os componentes do sistema. Ela também questiona a dependência de empresas terceirizadas em uma estrutura que concentra imagens e dados da população.
Parte das câmeras integradas ao Smart Sampa pertence a particulares que cedem imagens ao programa. A distribuição dos equipamentos pode, por isso, variar entre áreas com diferentes condições de investimento, segundo a pesquisadora. Ela afirma que essa diferença levanta questões sobre quais regiões são mais vigiadas e quem tem acesso à proteção oferecida pelo sistema.
O caso também levou o Ministério Público de São Paulo a registrar uma notícia de fato para avaliar os indícios relacionados à exposição. Essa etapa não equivale à abertura de um inquérito civil: o promotor responsável ainda deve decidir se há elementos para instaurar uma investigação formal.
O contrato do Smart Sampa atribui à empresa responsável a segurança dos sistemas e da infraestrutura e prevê multa de até 10% do valor total do contrato, equivalente a R$ 58,8 milhões. A apuração sobre a divulgação das informações e a verificação das permissões envolvidas devem ajudar a esclarecer a extensão do acesso e as consequências do vazamento. Enquanto isso, especialistas recomendam revisar credenciais, limitar permissões, auditar acessos e suspender contas comprometidas.
Para entender
- Smart Sampa
- Programa da Prefeitura de São Paulo que integra imagens de câmeras públicas e particulares para monitoramento da cidade. Parte dos equipamentos conta com recursos de reconhecimento facial, que dependem de configurações específicas do sistema.
- Notícia de fato
- Registro usado pelo Ministério Público para avaliar informações sobre um possível problema e decidir se há elementos para abrir uma investigação formal. Por si só, não equivale à instauração de um inquérito civil.