Midterms dos EUA renovam Congresso e 36 governos estaduais
A eleição de meio de mandato pode dar aos democratas o controle das duas Casas e limitar a atuação de Trump nos últimos dois anos de governo.
Resumo em 30 segundos
Os americanos votam nesta terça-feira para escolher representantes da Câmara, parte do Senado e governadores. Projeções apontam vantagem democrata, mas não garantem o resultado. A composição do Congresso poderá influenciar o orçamento, as nomeações presidenciais e a possibilidade de abertura de um processo de impeachment contra Donald Trump.
Os eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira para as eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, que renovarão as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e 36 governos estaduais. O presidente Donald Trump não concorre, mas o resultado pode limitar sua atuação nos dois anos finais do mandato e dar aos democratas o controle do Congresso.
As projeções indicam vantagem democrata. Pesquisas apontam o partido cerca de nove pontos à frente na intenção de voto para a Câmara, e modelos preditivos estimam entre 84% e 95% de chance de os democratas conquistarem a maioria. Para o Senado, as estimativas dão ao partido entre 64% e quase 80% de probabilidade de vitória. As projeções não garantem o resultado, e a apuração pode levar mais tempo em disputas apertadas.
A votação de meio de mandato ocorre na metade do período presidencial de quatro anos e permite que os eleitores escolham novos representantes para o Congresso sem votar para presidente. Historicamente, o partido que ocupa a Casa Branca costuma perder cadeiras na Câmara: desde 1934, isso aconteceu em 20 das 23 eleições de meio de mandato, com perda média de 27 vagas.
A participação costuma ser menor do que na eleição presidencial. Em 2024, 64% dos americanos aptos a votar participaram; nas midterms de 2022, o índice foi de 46%. Como tendem a comparecer mais os eleitores politicamente mobilizados, uma avaliação negativa do governo pode influenciar o resultado. No início de outubro, o Pew Research Center registrou 30% de aprovação para Trump, enquanto o instituto Gallup apontou que presidentes abaixo de 50% de aprovação antes das midterms costumam sofrer perdas maiores na Câmara.
Trump afirmou no início do ano que os republicanos precisavam vencer para evitar que a oposição encontrasse um motivo para abrir um processo de impeachment. A eleição, porém, não decide diretamente se o presidente permanece no cargo. Mesmo que os democratas conquistem as duas Casas, a abertura de um impeachment dependeria de maioria simples na Câmara, e a condenação exigiria o apoio de dois terços do Senado, ou 67 senadores.
Uma vitória democrata também poderia afetar a aprovação de recursos para o governo. O orçamento tem financiamento garantido até 11 de dezembro, e a extensão será negociada pelo Congresso atual. Os parlamentares eleitos assumem em 3 de janeiro; a partir daí, uma Câmara controlada pela oposição poderá usar negociações orçamentárias para pressionar o governo. Em 2018, após os democratas conquistarem a Câmara, uma disputa sobre recursos para o muro na fronteira levou a uma paralisação parcial do governo por 35 dias.
O Senado tem poder para aprovar indicações de juízes, ministros e embaixadores. Se os democratas controlarem a Casa, poderão dificultar ou atrasar nomeações feitas pelo presidente. Já a possibilidade de barrar sozinhos um veto presidencial é limitada: seriam necessários dois terços dos votos nas duas Casas do Congresso.
A disputa pela Câmara também passa pelos mapas dos distritos eleitorais. Diferentemente do sistema brasileiro, em que os votos para deputado federal são contabilizados em todo o estado e as cadeiras são distribuídas proporcionalmente, cada distrito americano elege um representante. O candidato mais votado fica com a vaga, e os votos dos derrotados não se convertem em cadeiras.
O desenho dos distritos pode favorecer um partido. A prática, chamada gerrymandering, consiste em traçar limites eleitorais de modo a concentrar ou dispersar grupos de eleitores e alterar as chances de cada lado. Em geral, os mapas são revistos após o censo, mas o Texas antecipou a mudança no ano passado, a pedido de Trump, com o objetivo de conquistar cinco cadeiras para os republicanos. A Califórnia aprovou um mapa que buscava favorecer os democratas, e outros estados também redesenharam seus distritos.
As estimativas indicam que as novas divisões podem render de duas a cinco cadeiras aos republicanos, menos do que o ganho de quase dez vagas projetado no papel. Em alguns distritos redesenhados, as disputas seguem competitivas. No Texas, por exemplo, apenas um dos cinco distritos criados para favorecer Trump é considerado garantido para os republicanos.
No Senado, os mapas distritais não têm efeito: cada senador é eleito pelo estado inteiro. A disputa envolve 35 vagas, e os republicanos defendem 22 delas. Os democratas precisam conquistar quatro cadeiras a mais do que perderem para obter a maioria; com três ganhos líquidos, o resultado seria um empate de 50 a 50, desfeito pelo voto do vice-presidente JD Vance. No Texas, onde um democrata não vence uma eleição para o Senado desde 1988, as pesquisas indicam uma disputa competitiva entre James Talarico e os republicanos.
As primeiras urnas fecham às 20h, no horário de Brasília, e as últimas, no Alasca, às 3h de quarta-feira. A disputa pela Câmara pode ser definida durante a madrugada, mas o Senado pode levar semanas. Na Geórgia, pode haver segundo turno em 1º de dezembro. Maine e Alasca usam voto ranqueado: eleitores ordenam candidatos por preferência, e as opções seguintes são contabilizadas se ninguém superar 50% dos votos.