Mbappé perde patrocínios chineses após fala sobre meme de Mao
A Mengniu está entre três empresas que romperam contratos com o atacante; a China também suspendeu transmissões do Campeonato Espanhol e anúncios com ele.
Resumo em 30 segundos
Kylian Mbappé pediu desculpas em francês, inglês e mandarim após uma fala sobre um meme com a imagem de Mao Tsé-tung provocar reação na China. Três patrocinadores chineses, entre eles a Mengniu, romperam contratos com o jogador, e o China Media Group suspendeu transmissões do Campeonato Espanhol e anúncios com ele.
Kylian Mbappé pediu desculpas em francês, inglês e mandarim depois que uma fala sua sobre um meme envolvendo Mao Tsé-tung provocou reação na China. Em 27 de outubro, três patrocinadores chineses, entre eles a Mengniu, romperam contratos com o atacante francês, e o conglomerado estatal China Media Group suspendeu as transmissões do Campeonato Espanhol e a veiculação de anúncios com o jogador.
O episódio começou com uma conversa gravada em abril para The Bridge, programa apresentado por Aurélien Tchouaméni, colega de Mbappé no Real Madrid. Ao falar sobre o meme mais engraçado feito a seu respeito, Mbappé mencionou uma montagem que colocava seu rosto sobre o de “um sujeito, acho que é um ditador chinês”, referência a imagens de Mao. O trecho foi publicado em 26 de outubro e removido pouco depois, mas já havia circulado nas redes sociais chinesas.
A imprensa estatal chinesa descreveu a fala como “comentários inapropriados sobre a China”, sem mencionar Mao. Segundo o texto divulgado pelo jornal estatal Global Times, muitos chineses preferiam não repetir o que Mbappé havia dito. A fala original não aparecia nas redes sociais do país, de acordo com a agência AFP.
A reação alcançou também a LaLiga, responsável pelo Campeonato Espanhol, e o Real Madrid, que se desculparam depois do jogador. A suspensão das transmissões foi anunciada pelo China Media Group, conglomerado que controla a emissora estatal CCTV. A Mengniu, maior produtora de laticínios da China, estava entre as três empresas que encerraram o vínculo comercial com o atleta.
O caso ilustra como empresas e figuras públicas estrangeiras podem sofrer consequências comerciais por declarações ou conteúdos que provocam reação na China, mesmo quando o episódio ocorre fora do país. A disputa também envolve a circulação de informações: as redes sociais e os meios de comunicação chineses podem retirar ou restringir conteúdos considerados sensíveis pelo governo ou por grupos de usuários.
Em outro episódio recente, a subsidiária chinesa da Sanrio encerrou uma parceria relacionada a produtos da Hello Kitty e pediu desculpas. Os itens, vendidos apenas no Japão, retratavam personagens da empresa com roupas de espiões de Vivant, uma série japonesa cuja segunda temporada apresenta uma organização de inteligência chinesa fictícia. A CCTV acusou a produção de difamar a China, e o Global Times advertiu que a Sanrio poderia perder mais do que vendas imediatas.
A emissora japonesa TBS respondeu que Vivant é uma obra de ficção. No dia seguinte ao anúncio da Sanrio, o porta-voz da chancelaria chinesa afirmou que a série mostrava uma força existente no Japão que, segundo ele, usa produtos culturais para difamar a China. A subsidiária justificou o fim da parceria dizendo que o conteúdo contrariava a filosofia corporativa do grupo.
A pressão também atingiu a Team Spirit, organização de esportes eletrônicos que venceu o torneio Major de Xangai de 2024. Em meados de outubro, ela publicou um vídeo de jogadores de Counter-Strike 2 em um jogo de adivinhação. Um mapa mostrado na gravação apresentava a China sem Taiwan. A equipe retirou o material e pediu desculpas, afirmando que o mapa vinha de um site de terceiros e que sua exatidão não havia sido verificada.
No comunicado, a organização declarou apoiar o princípio de Uma Só China, posição de Pequim segundo a qual Taiwan pertence ao território chinês. Parte dos fãs na China considerou insuficiente a resposta e pediu desculpas individuais dos jogadores, embora eles não tivessem escolhido o mapa. Taiwan é governada de forma autônoma desde 1949.
A censura também pode afetar a cobertura jornalística e a atuação de marcas estrangeiras. Em uma transmissão da CNN sobre vídeos de inteligência artificial que criticavam Donald Trump, o sinal exibido na China foi interrompido duas vezes quando o apresentador conversava ao vivo com um correspondente em Pequim. A tela substituída por barras coloridas mostrava o aviso “Sem sinal, por favor aguarde”.
Em agosto, após o colapso de uma geleira provocar enchentes na fronteira entre Nepal e Tibete, Pequim informou que havia 558 desaparecidos no condado de Gyirong, entre eles centenas de estrangeiros. Imagens de câmeras do posto de fronteira circularam internacionalmente e depois sumiram da internet chinesa. Jornalistas estrangeiros precisam de autorização do governo para entrar no Tibete, e pedidos de acesso à região foram negados.
A marca canadense Lululemon também pediu desculpas após críticas a um festival de ioga realizado em maio na Muralha da China, em Pequim. Usuários de redes sociais e músicos disseram que o tambor usado numa apresentação parecia japonês, e alguns associaram a cena à invasão japonesa durante a Segunda Guerra. Em junho, a empresa retirou das redes sociais o conteúdo do evento e se desculpou com o público e com o ator Zhu Yilong, embaixador da marca na China; o grupo de percussionistas também pediu desculpas.