Lula propõe IA brasileira e defende regras para plataformas digitais
A proposta não tem produto, metas nem prazo definidos; Lula também relaciona a regulamentação das big techs à atuação das redes na eleição de 2026.
Resumo em 30 segundos
Lula defendeu a criação de uma inteligência artificial brasileira, com modelos voltados ao português e a necessidades do país, e disse que pretende regulamentar plataformas digitais. Ele não apresentou plano, prazos ou metas para as iniciativas. A proposta de regulação enfrenta resistência no Congresso e depende de debate e apoio legislativo.
Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a criação de uma inteligência artificial brasileira e afirmou que pretende regulamentar as plataformas digitais após ser eleito para um novo mandato presidencial. Em pronunciamento no domingo (25), o presidente relacionou o desenvolvimento tecnológico à soberania digital e à necessidade de ampliar o ensino de matemática e engenharia.
“Queremos ensinar mais matemática, mais engenharia porque não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa e americana. Quero criar uma inteligência artificial brasileira”, disse Lula. A proposta envolve desenvolver modelos de linguagem em português e em outras línguas, voltados a demandas e problemas do país.
A inteligência artificial brasileira poderia ser aplicada em setores como agronegócio, saúde e serviços financeiros. Modelos de linguagem são sistemas treinados com grandes volumes de textos para interpretar comandos e produzir respostas. Ao priorizar o português e necessidades locais, um modelo nacional pode ser adaptado a contextos que nem sempre são bem atendidos por ferramentas desenvolvidas para outros mercados.
Lula também disse que o governo pretende regular as plataformas digitais. “Essa foi uma eleição que a gente teve que vencer com uma intromissão de fora para dentro através das plataformas digitais”, afirmou. “Nós vamos ter de regulá-las”, acrescentou, sem detalhar quais regras pretende propor ou quando elas seriam apresentadas.
O presidente associou a defesa de regras para as empresas de tecnologia à atuação das plataformas durante o processo eleitoral deste ano. A campanha de Lula acusou a Meta, proprietária do WhatsApp, do Instagram e do Facebook, de favorecer conteúdos da direita e restringir o impulsionamento de publicações do petista. A empresa negou favorecimento e atribuiu os problemas relatados a incidentes técnicos.
Depois, o Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta, formado por profissionais independentes que acompanham decisões da companhia, afirmou que a empresa falhou na aplicação de padrões destinados a afastar suspeitas de interferência eleitoral. O episódio deve alimentar a discussão sobre a responsabilidade das plataformas e os limites de sua atuação em períodos eleitorais.
A regulamentação das big techs, expressão usada para as grandes empresas de tecnologia, já estava na agenda de Lula desde o ano passado, inicialmente com foco no combate às notícias falsas. Propostas sobre o tema enfrentam resistência no Congresso Nacional e foram alvo de críticas. Qualquer iniciativa do governo dependerá, portanto, de debate e apoio legislativo para avançar.
A discussão sobre soberania digital abrange tanto a capacidade de desenvolver tecnologias próprias quanto o controle sobre dados, serviços e infraestruturas digitais. No caso da inteligência artificial, o governo poderá buscar ampliar a formação em áreas científicas e tecnológicas, como matemática e engenharia, citadas por Lula. O presidente, porém, não apresentou no pronunciamento metas de investimento, prazos ou um plano detalhado para a criação do sistema.
A ideia de uma IA nacional não significa necessariamente que o Brasil deixaria de usar ferramentas estrangeiras. A fala de Lula indicou a intenção de reduzir a dependência de modelos chineses e americanos e construir uma alternativa desenvolvida para o país. O nome “IA brasileira” descreve essa proposta em termos gerais; não foi anunciado um produto específico nem uma ferramenta gratuita ou sem filtros.
O tema também envolve modelos diferentes dos assistentes de conversa conhecidos pelo público. Modelos de linguagem, como os usados para responder perguntas e gerar textos, são apenas uma categoria de inteligência artificial. Empresas também desenvolvem sistemas voltados a analisar grandes bases de dados e apoiar decisões específicas, por exemplo em crédito ou serviços financeiros.
A declaração do presidente abre espaço para dois debates relacionados, mas distintos: como construir capacidade nacional em inteligência artificial e como estabelecer regras para plataformas digitais. O primeiro passa por pesquisa, formação de profissionais e aplicações em setores econômicos; o segundo envolve a atuação de empresas privadas, a circulação de conteúdo e a prevenção de interferências em processos eleitorais. Lula não informou quais órgãos conduziriam as iniciativas nem apresentou calendário para as medidas.