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Terça-feira, 27 de outubro de 2026

Lula interrompe sequência de vitórias da direita na América Latina

Claudia Sheinbaum celebrou a reeleição e chamou o resultado de “um sopro de esperança”; Brasil e México podem contrapor a influência de Trump.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Lula fala em um púlpito durante uma aparição pública, com bandeiras do Brasil ao fundo. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Lula fala em um púlpito durante uma aparição pública, com bandeiras do Brasil ao fundo.
Resumo em 30 segundos

A reeleição de Lula interrompeu uma sequência de sete vitórias de candidatos de direita ou extrema direita na América Latina em 18 meses. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum comemorou o resultado. Brasil e México são agora os principais governos de esquerda entre as maiores economias da região, embora diferenças políticas dificultem uma frente regional coesa.

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva interrompeu uma sequência de sete vitórias de candidatos de direita ou extrema direita na América Latina nos últimos 18 meses. O resultado mantém Brasil e México, governado por Claudia Sheinbaum, como os dois principais governos de esquerda entre as maiores economias da região e como possíveis contrapesos à influência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Sheinbaum celebrou a vitória de Lula nesta segunda-feira, ao abrir sua entrevista coletiva diária no Palácio Nacional, na Cidade do México. A presidente fez o gesto de “L”, associado aos apoiadores do petista, e disse estar “muito contente” com o resultado. “É um sopro de esperança para a América Latina”, afirmou.

O cenário regional mudou desde 2023, quando Lula iniciou seu terceiro mandato e governos progressistas também estavam no poder na Argentina, no Chile, na Colômbia e na Bolívia. Agora, o Brasil está cercado por governos de direita, entre eles os de Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

A divisão política não significa, porém, que os governos da região atuem como blocos coesos. Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai são apontados como governos de esquerda na América do Sul, enquanto Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru são classificados à direita. A orientação política, por si só, também não determina o alinhamento diplomático: Venezuela e Guiana, por exemplo, mantêm aproximações com Washington em temas estratégicos.

A relação entre Lula e Trump foi marcada por disputas comerciais e divergências políticas. Em 2025, o governo americano impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros e aplicou sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. As medidas foram revertidas, mas Trump voltou a aplicar tarifas de 25% em julho deste ano, atribuindo a decisão diretamente a Lula.

Durante a campanha, o petista apresentou o senador Flávio Bolsonaro, seu adversário na eleição, como “o candidato de Trump”. Flávio havia prometido que, se eleito, o Brasil entraria “com grande entusiasmo e grande honra” no Escudo das Américas, coalizão de segurança e combate às drogas liderada pelos Estados Unidos. A reeleição de Lula torna menos provável essa adesão, diante da oposição do presidente brasileiro à iniciativa.

Trump comentou o resultado nesta segunda-feira e afirmou que a disputa “pareceu mais uma eleição fraudada”, mas também disse gostar de Lula. A declaração ocorreu após o presidente brasileiro vencer Flávio no segundo turno. O republicano não apresentou provas para sustentar a suspeita de fraude.

A relação entre Washington e Brasília também envolve interesses econômicos. Os Estados Unidos buscam acesso às terras raras brasileiras, minerais usados em setores como a indústria de defesa e cuja oferta é dominada pela China. Lula, por sua vez, procura investimentos e redução das barreiras tarifárias que afetam exportadores brasileiros.

O México enfrenta uma relação diferente com os Estados Unidos: mais de 80% de suas exportações têm como destino o mercado americano. Para Juan Agulló, professor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, essa dependência ajuda a explicar por que o governo mexicano mantém uma relação de trabalho com Washington, apesar das diferenças políticas. O Brasil tem uma política externa distinta e enfrenta mais atritos com Trump.

Especialistas citados avaliam que Lula deverá combinar a defesa da autonomia brasileira com negociações pragmáticas. Pedro Abramovay, vice-presidente global de programas da Open Society Foundations, prevê que a relação com os Estados Unidos tende a permanecer estável: o país continua sendo um parceiro importante, mas as tarifas não alteraram de forma significativa a economia brasileira, segundo ele. Agulló também considera possível que o governo brasileiro encontre uma forma de convivência com a administração Trump.

Na América do Sul, a maioria dos governos de direita reconheceu a vitória de Lula e mencionou áreas de cooperação, como o combate ao crime organizado e a preservação da Amazônia. A Argentina foi a exceção entre os países sul-americanos até esta segunda-feira: o governo de Milei ainda não havia se manifestado. Durante a campanha, o presidente argentino apoiou Flávio e chamou Lula de “ladrão corrupto”.

A aproximação de Milei com a campanha do senador provocou uma crise diplomática entre Buenos Aires e Brasília, apesar da importância econômica da relação. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China e dos Estados Unidos. Mesmo com tensões entre os presidentes, os dois países são fundamentais para o Mercosul, bloco de integração econômica que depende do comércio entre seus membros.

Abramovay avalia que a presença de governos alinhados a Trump dificulta a formação de uma frente regional contra a pressão americana. Agulló, por outro lado, ressalta que a guinada à direita tem nuances: alguns líderes dependem do apoio de forças tradicionais para governar e enfrentam avaliações negativas. Para ele, o Brasil pode buscar articulação regional por meio do Mercosul e do pacto amazônico, instrumentos de cooperação entre países vizinhos.

Fontes: O Globo, Gazeta do Povo

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