Lula e Flávio Bolsonaro divergem sobre ajuste fiscal e dívida
A equipe de Lula promete superávit primário de 0,5% do PIB no próximo ano; a de Flávio propõe ajuste de 1,5 ponto percentual e uma trava para a dívida.
Resumo em 30 segundos
As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro concordam que o próximo governo precisará conter o crescimento da dívida pública, mas apresentam caminhos diferentes. A equipe petista defende manter o arcabouço fiscal com ajustes e alcançar superávit primário de 0,5% do PIB. A de Flávio propõe ajuste de 1,5 ponto percentual do PIB e limites para a dívida. Outras candidaturas também sugerem mudanças nas regras de gastos.
As campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) defendem que o próximo governo faça um ajuste fiscal, mas apresentam propostas diferentes para conter o crescimento da dívida pública. Em agosto, ela chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), maior proporção desde março de 2021, segundo o dado mais recente citado pelas equipes.
A coordenação econômica de Lula propõe manter o arcabouço fiscal, com aperfeiçoamentos, e promete alcançar superávit primário de 0,5% do PIB no próximo ano. O resultado primário compara receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida. A campanha também aponta a revisão de benefícios fiscais e mudanças na Previdência, incluindo o combate à chamada “pejotização abusiva”, quando uma relação de trabalho é estruturada como prestação de serviços por pessoa jurídica.
Dario Durigan, ministro da Fazenda e responsável pela área econômica da campanha petista, afirmou que é necessário rever privilégios previdenciários, citando militares e aspectos das regras para servidores públicos. Ele relacionou a discussão à transição demográfica, processo de mudança na composição etária da população que afeta o equilíbrio entre contribuintes e beneficiários da Previdência.
Na equipe de Flávio, a coordenadora econômica, Daniella Marques, defende um ajuste equivalente a 1,5 ponto percentual do PIB e uma trava para a relação entre dívida e PIB. A proposta busca limitar o avanço do endividamento em relação ao tamanho da economia. Ela também mencionou reduzir o número de ministérios e privilégios e refazer pontos da reforma tributária, além de deixar para o próximo governo a discussão sobre mudanças na jornada de trabalho.
Há divergências dentro do campo de propostas associado ao senador. Flávio afirmou que não pretende fazer economia sobre aposentados nem alterar a política de valorização do salário mínimo, enquanto integrantes de sua equipe defenderam medidas mais rigorosas em discussões fechadas com representantes do mercado financeiro. Daniella falou em corte de R$ 300 bilhões, mas o detalhamento de como chegar a esse valor não foi apresentado no conteúdo divulgado.
Outras candidaturas também propõem mudanças nas regras de controle de gastos. Renan Santos (Missão) defende uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de ajuste fiscal, com desvinculação e desindexação de despesas, revisão de gastos tributários e corte de supersalários. A campanha de Ronaldo Caiado (PSD) propõe limitar o crescimento das despesas primárias a uma parcela do avanço previsto do PIB; Romeu Zema (Novo) defende uma regra fiscal mais rígida.
As propostas sobre despesas obrigatórias e Previdência têm impacto direto no orçamento e dependem, em muitos casos, de decisões do Congresso. O arcabouço fiscal, em vigor desde 2023, estabelece limites para o crescimento dos gastos federais. Uma mudança constitucional exige aprovação em dois turnos na Câmara e no Senado, com apoio de três quintos dos parlamentares em cada votação.
Para entender
- Arcabouço fiscal
- Regra criada em 2023 para limitar o crescimento das despesas federais e estabelecer metas para o resultado das contas públicas. Ela substituiu o teto de gastos e combina limites de despesa com metas de resultado primário.
- Resultado primário
- Diferença entre as receitas e as despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida. Um superávit primário ocorre quando as receitas superam as despesas nesse cálculo.
- PEC
- Proposta de Emenda à Constituição, instrumento usado para alterar o texto constitucional. Sua aprovação exige votação em dois turnos na Câmara e no Senado, com apoio de três quintos dos parlamentares em cada turno.