Kalshi planeja lançar futuros de inflação dos EUA em dezembro
Os contratos terão vencimentos definidos e serão ligados ao CPI e à inflação subjacente; a empresa busca atrair bancos e fundos de hedge.
Resumo em 30 segundos
A Kalshi planeja lançar em dezembro contratos futuros vinculados ao CPI dos Estados Unidos e a uma medida que exclui alimentos e energia. Com vencimentos definidos, os produtos miram bancos, fundos de hedge e outros investidores institucionais. A iniciativa pode oferecer uma alternativa aos TIPS e aos swaps de inflação, hoje usados para negociar esse risco.
A Kalshi planeja lançar em dezembro contratos futuros ligados à inflação dos Estados Unidos, com referência ao índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) e a uma medida subjacente que exclui alimentos e energia. A empresa, sediada em Nova York e conhecida por seus mercados de previsão, apresenta a proposta a bancos, fundos de hedge e outros investidores institucionais como uma forma de negociar a inflação em bolsa.
Um porta-voz da Kalshi confirmou que a companhia trabalha nos contratos, mas não detalhou a data nem as condições do lançamento. Os documentos usados nas conversas com potenciais clientes preveem contratos para os 12 meses de referência seguintes e, depois, para maio e novembro de cada um dos quatro anos posteriores. As negociações seriam realizadas 24 horas por dia, de domingo a sexta-feira, com a Kalshi Klear LLC responsável pela compensação, processo que administra e liquida as obrigações das operações.
Os futuros são contratos padronizados para comprar ou vender um ativo ou referência em uma data futura. No caso dos produtos planejados pela Kalshi, o valor estaria vinculado à divulgação do CPI, indicador que mede a variação dos preços ao consumidor nos Estados Unidos. A medida subjacente, também chamada de núcleo, retira alimentos e energia, cujos preços podem oscilar com maior intensidade.
A empresa contratou Michael Ashton, ex-operador do Barclays e sócio-diretor da Enduring Investments LLC, para desenvolver os produtos e conversar com instituições. Ashton disse que a Kalshi pretende ocupar um espaço sem oferta direta de futuros de CPI. “Não existe nenhuma bolsa que negocie esse produto, e eles querem ser a bolsa da inflação”, afirmou.
Hoje, investidores podem negociar a inflação por meio de títulos do Tesouro protegidos contra a inflação, conhecidos como TIPS, e de swaps de inflação, contratos negociados diretamente entre participantes fora das bolsas. O mercado de TIPS soma US$ 2,2 trilhões, enquanto os swaps ultrapassam US$ 5,4 trilhões. Segundo Mark Spindel, diretor de investimentos da Potomac River Capital LLC, os swaps exigem documentação extensa, o que pode restringir a participação; contratos padronizados em bolsa poderiam ampliar o acesso e reunir compradores e vendedores.
A inflação voltou a ocupar espaço nas estratégias de investimento porque movimentos inesperados dos preços podem alterar as expectativas sobre os juros. Operadores acompanham o CPI para avaliar possíveis decisões do Federal Reserve, o banco central americano, e proteger carteiras expostas a títulos e taxas de juros. Um futuro com vencimento definido pode ser usado para buscar proteção ou assumir posições sobre a inflação, sem depender apenas de negociações bilaterais.
A Kalshi já oferece contratos de previsão que permitem apostar se o CPI ficará acima ou abaixo de determinado nível mensal. Esses produtos pagam de forma binária, conforme o resultado ultrapasse ou não o limite estabelecido, e têm atraído principalmente investidores de varejo. O novo formato pretende oferecer uma gama mais ampla de resultados e vencimentos, característica que a empresa considera necessária para atrair participantes profissionais.
A iniciativa também testa a entrada da Kalshi em mercados tradicionais de derivativos, dominados por bolsas como o CME Group e a Intercontinental Exchange. A CME tentou lançar futuros de CPI em 2004, mas atualmente não oferece esse contrato. Terry Duffy, presidente-executivo da CME, criticou os contratos perpétuos da Kalshi — que não têm data de vencimento — e afirmou que instituições não conseguem administrar riscos com esse formato. Os futuros de CPI planejados teriam vencimentos determinados.
A proposta se soma a uma série de novos produtos da empresa, incluindo contratos perpétuos ligados a criptoativos e commodities. A Kalshi também apresentou pedidos à Commodity Futures Trading Commission (CFTC), reguladora americana de derivativos, para criar contratos perpétuos relacionados ao petróleo e a títulos do Tesouro. A expansão busca diversificar uma atividade hoje concentrada em contratos de eventos, sobretudo esportivos, cuja classificação como apostas é contestada por autoridades de alguns estados.
A empresa enfrenta disputas judiciais nos Estados Unidos. Em julho, Nova York processou a subsidiária de negociação da Kalshi, acusando-a de operar apostas sem licença e sustentando que os contratos expõem moradores, inclusive menores de 21 anos, a riscos financeiros e pessoais. No mesmo mês, um juiz federal suspendeu temporariamente a aplicação de uma lei de Minnesota que proibia mercados de previsão, após pedido da CFTC, da Kalshi e da Polymarket. O juiz considerou que alguns contratos podem ser instrumentos financeiros sob jurisdição federal.
A Kalshi foi cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara e tem como principal concorrente a Polymarket. A expansão para contratos de inflação com vencimento definido pode aproximar a empresa de gestores, bancos e fundos que hoje usam títulos e swaps para administrar esse risco. O interesse dessas instituições e a liquidez que o produto conseguir reunir serão decisivos para sua adoção.
Para entender
- CPI
- A sigla em inglês para índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos. O indicador acompanha a variação dos preços de bens e serviços pagos pelos consumidores e é observado por investidores e autoridades monetárias.
- TIPS
- Títulos do Tesouro dos Estados Unidos protegidos contra a inflação. Seu principal é ajustado conforme a variação de preços, oferecendo aos investidores uma forma de exposição à inflação.
- Swaps de inflação
- Contratos financeiros em que participantes trocam pagamentos vinculados à inflação por pagamentos baseados em uma taxa fixa ou em outra referência. Em geral, são negociados diretamente entre as partes, fora de uma bolsa.