Inflação de serviços intensivos em trabalho chega a 7,44% em 12 meses
Em setembro, a taxa ficou acima do IPCA, de 4,58%, e atingiu o maior nível desde junho de 2017, pressionada por salários e mercado de trabalho aquecido.
Resumo em 30 segundos
A inflação dos serviços intensivos em trabalho acumulou alta de 7,44% em 12 meses até setembro, ante 4,58% do IPCA. O grupo inclui itens como serviços domésticos, salões de beleza e reparos. Economistas apontam que salários e mercado de trabalho firme sustentam os preços, que podem continuar pressionados em 2027.
A inflação dos serviços intensivos em trabalho chegou a 7,44% em 12 meses até setembro, o maior patamar desde junho de 2017, e ficou bem acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que avançou 4,58% no mesmo período. A alta, observada em itens como serviços domésticos, salões de beleza e reparos, mantém pressão sobre a inflação brasileira e dificulta a convergência à meta de 3% definida pelo Banco Central.
O grupo responde por cerca de 6% da cesta de consumo usada no cálculo do IPCA e por 17% dos serviços. Ainda assim, segundo cálculos da Warren Investimentos, contribuiu com 0,47 ponto percentual para a inflação acumulada em 12 meses até setembro — aproximadamente 10% do índice total.
A categoria reúne serviços cujos preços dependem mais do custo da mão de obra do que de insumos. Entre os exemplos estão consultas médicas e odontológicas, salão de beleza, empregada doméstica, serviços de reparo e costura. A evolução desses preços costuma acompanhar salários e, em alguns casos, tem relação estreita com o salário mínimo.
A pressão persiste apesar de sinais de perda de fôlego da atividade econômica. Economistas avaliam que o emprego tende a reagir com atraso à desaceleração, o que ajuda a explicar por que os preços de serviços não recuam imediatamente quando a economia esfria. Os serviços intensivos em trabalho surpreenderam para cima nas leituras de agosto e setembro do IPCA e do IPCA-15, indicador prévio de inflação.
A estrategista de inflação da Warren, Andréa Angelo, afirmou que a inflação anual desse conjunto oscilou entre 6,7% e 7,45% desde o início do ano, sem sinal claro de alívio. Mesmo em medidas ajustadas para retirar efeitos sazonais, as variações permanecem acima de 7%, segundo ela. Angelo estima que, se a taxa do grupo estivesse em 3%, o IPCA em 12 meses ficaria perto de 4,3%, ainda dentro do intervalo da meta.
A renda e a situação do mercado de trabalho ajudam a sustentar a demanda por serviços e os custos das empresas. No trimestre móvel encerrado em agosto, o desemprego ficou em 5,3%, menor nível da série histórica iniciada em 2002 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O rendimento médio real dos ocupados subiu 3,7% em relação ao mesmo período de 2025.
No mercado formal, o salário médio real de admissão foi de R$ 2.410,74 em agosto, aumento de 1,02% ante o mesmo mês do ano anterior, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Para Basiliki Litvac, economista-sênior da XP Investimentos, a firmeza do mercado de trabalho sustenta os serviços intensivos em mão de obra, enquanto reajustes salariais acima da inflação favorecem segmentos ligados ao consumo das famílias.
Litvac também aponta que a dificuldade de contratar trabalhadores em alguns setores pode elevar custos e prolongar a pressão sobre os preços. Como os serviços dependem diretamente da renda e da atividade, a inflação dessa área tende a responder mais lentamente ao ciclo econômico. No conjunto, os serviços representam cerca de 36% do IPCA, proporção que amplia sua influência sobre o índice cheio.
O salário mínimo é outro fator relevante. Neste ano, o reajuste foi de 6,79%, calculado com base na inflação do ano anterior e na variação do Produto Interno Bruto (PIB). Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe da G5 Partners, afirmou que a inflação passada e a política de valorização real do mínimo contribuem para a inércia dos preços. Empregadas domésticas têm peso importante no grupo e seus valores costumam acompanhar o mínimo, que também serve de referência para prestadores de serviços sem sindicato.
Leal acrescentou que a relação duradoura entre clientes e profissionais pode facilitar o repasse de custos acima da inflação, pois os consumidores nem sempre substituem quem presta o serviço após um aumento. Essa combinação de salários, renda e reajustes torna a desaceleração mais gradual do que em itens cujos preços respondem mais rapidamente a mudanças na demanda.
As projeções citadas apontam que a pressão pode continuar no próximo ano. Angelo prevê que o IPCA passe de 5,1% em 2026 para 5,2% em 2027 e associa parte da alta à inflação de serviços mais forte. Litvac estima que os serviços intensivos em mão de obra avancem entre 6% e 7% em 2027, uma moderação em relação aos níveis atuais, mas ainda acima da meta de inflação.
Para entender
- IPCA
- O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo é o indicador oficial da inflação no Brasil. Calculado pelo IBGE, acompanha a variação de preços de bens e serviços consumidos por famílias e serve como referência para a meta de inflação.