IBGE avalia incluir tráfico de drogas e contrabando no PIB
A possível mudança metodológica, prevista para 2028, ainda depende de estudos técnicos e de dados; incluir essas atividades não as torna legais.
Resumo em 30 segundos
O IBGE avalia recomendações internacionais que podem levar à inclusão de estimativas do tráfico de drogas, do contrabando e de jogos de azar no PIB brasileiro. A revisão metodológica está prevista para 2028, mas a adoção não é automática. Uma mudança no indicador pode afetar proporções como dívida pública e PIB, sem alterar a economia real.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) avalia incluir estimativas do tráfico de drogas, do contrabando e de jogos de azar no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. A possibilidade faz parte de uma revisão metodológica das contas nacionais, prevista para ser divulgada em 2028, mas a adoção das recomendações internacionais ainda depende de estudos técnicos e da disponibilidade de dados.
A revisão segue o manual Sistema de Contas Nacionais 2025, aprovado pela Comissão de Estatística das Nações Unidas como referência internacional. O documento orienta que transações de mercado envolvendo certos produtos e serviços ilegais, como entorpecentes, sejam registradas nas contas nacionais, incluindo produção, consumo, exportação e importação.
A recomendação busca tornar comparáveis as estatísticas entre países e ao longo do tempo. Se atividades forem incluídas em um período ou país e omitidas em outro, as medidas da economia podem ficar inconsistentes, ainda que as definições legais sejam diferentes.
O IBGE afirma que a revisão está em curso e envolve analisar recomendações internacionais, incorporar novas fontes de informação e atualizar estruturas estatísticas. A instituição ressalta que as orientações do manual estão sendo avaliadas por órgãos estatísticos de diferentes países conforme suas realidades e que sua adoção não é automática.
Uma nota metodológica publicada pelo instituto em outubro de 2025 mencionava que a nova base incluiria estimativas de contrabando e jogos de azar, além da comercialização de drogas. Uma versão posterior, divulgada em setembro, retirou essa lista e informou que a série será aperfeiçoada com recomendações e alterações do manual internacional. O IBGE disse que apresentará mais detalhes nos próximos meses.
A inclusão de atividades ilícitas no PIB não significa que elas se tornem legais nem que o instituto passe a contabilizar todo crime. A contabilidade nacional mede a produção e as transações econômicas dentro de uma fronteira estatística; o registro serve para estimar o tamanho da atividade econômica, não para autorizar ou legitimar as operações.
A orientação internacional não é nova. Manuais das contas nacionais já tratavam de atividades ilegais nas edições de 1993 e 2008. Na União Europeia, a contabilização passou a ser obrigatória com o Sistema Europeu de Contas de 2010, aplicado a partir de setembro de 2014. O sistema cita tráfico de drogas, prostituição e contrabando de álcool e tabaco.
Austrália, Canadá, Colômbia, Reino Unido, Sérvia e Ucrânia também incluem estimativas da movimentação financeira do tráfico de drogas em seus PIBs. Nos Estados Unidos, o tema segue em discussão: um estudo do órgão responsável pelas contas nacionais estimou que a inclusão de tráfico de drogas, prostituição e jogos de azar ilegais elevaria em mais de 1% o PIB nominal de 2017.
No Brasil, uma mudança metodológica pode alterar o valor nominal do PIB, mas não modifica, por si só, a produção efetiva, a renda ou as despesas do país. O economista Bráulio Borges, do FGV Ibre, estima que a revisão elevaria o indicador, embora afirme que ainda não é possível antecipar a dimensão do efeito.
Borges aponta dois fatores que podem influenciar o resultado: a substituição de dados preliminares por informações definitivas e a atualização metodológica, que pode incluir novo ano-base, classificações, fontes de dados, pesquisas e recomendações internacionais. Ele observa que revisões anteriores elevaram o PIB nominal: em 2007, na mudança da referência de 2000, o nível subiu cerca de 11%; em 2015, com a referência de 2010, avançou 5,5%. Esses precedentes não permitem prever o impacto da próxima revisão.
Uma alteração no valor do PIB também afeta indicadores calculados como proporção da economia. Se o PIB usado como denominador aumentar, a relação entre a dívida pública e o PIB, por exemplo, cai mesmo que o valor da dívida permaneça igual. Borges calcula que uma alta de 1% no PIB reduziria em cerca de 0,83 ponto percentual essa relação, considerando uma dívida equivalente a 83% do produto; efeitos proporcionais podem ocorrer com a carga tributária e os gastos públicos.
Para entender
- Sistema de Contas Nacionais 2025
- Manual internacional que estabelece conceitos e orientações para organizar as contas nacionais, como o cálculo do PIB. Foi aprovado pela Comissão de Estatística das Nações Unidas e serve de referência para que as estatísticas econômicas sejam comparáveis entre países e ao longo do tempo.