Hospital Eduardo Rabello abre ala de cuidados paliativos no Rio
Com 31 leitos, a unidade é a primeira do tipo na rede estadual e combina assistência clínica com ações ligadas às histórias e preferências dos pacientes.
Resumo em 30 segundos
A ala de cuidados paliativos do Hospital Estadual Eduardo Rabello, na Zona Oeste do Rio, começou a funcionar no fim de agosto e será inaugurada oficialmente em 9 de novembro. Com 31 leitos, oferece suporte a pessoas com doenças graves e inclui iniciativas como um prontuário afetivo e atividades para atender desejos dos pacientes.
O Hospital Estadual Eduardo Rabello, em Senador Vasconcelos, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, abriu no fim de agosto uma ala de cuidados paliativos com 31 leitos. A unidade, voltada a pacientes que precisam de suporte diante de doenças graves, será inaugurada oficialmente em 9 de novembro. Entre as iniciativas da equipe estão atividades para atender desejos pessoais e um prontuário afetivo com informações sobre a vida e as preferências de cada paciente.
A nova ala é a primeira estrutura desse tipo na rede estadual de saúde do Rio. O Eduardo Rabello é um hospital geriátrico, e a unidade recebeu pacientes como Luiz Carlos Benedito, de 71 anos, internado desde 17 de setembro com câncer de esôfago. Na semana passada, ele participou de um baile charme organizado no centro de estudos do hospital, sentado em uma cadeira de rodas e acompanhado por profissionais.
Luiz Carlos queria ir ao Viaduto de Madureira, mas não tinha condições de sair do hospital. A equipe levou a festa até ele, com música comandada pelo DJ Cleber da Silva Souza e luzes coloridas. O som chegou às enfermarias, e outros pacientes também pediram para participar. Antes do evento, Luiz Carlos pediu a um enfermeiro que cortasse seu cabelo para estar arrumado.
“Olham mais para o doente do que para a doença”, disse o diretor-geral do hospital, Helmer Cardoso de Mattos. Ele afirmou que, como Luiz Carlos não podia ir ao Viaduto de Madureira, a equipe decidiu realizar o baile dentro da unidade.
Cuidados paliativos não significam apenas assistência nos últimos dias de vida nem se limitam a pacientes considerados terminais. O objetivo é aliviar sintomas e preservar a qualidade de vida de pessoas com doenças graves, além de oferecer apoio a familiares. A abordagem pode ocorrer junto com tratamentos voltados à doença, como quimioterapia, radioterapia e cirurgias, quando indicados.
No Eduardo Rabello, as preferências e histórias pessoais dos pacientes são registradas em um prontuário afetivo fixado perto da identificação de cada um. O documento ajuda a equipe a conhecer aspectos que não aparecem no diagnóstico clínico. No caso de Maria Inês Poliseu, de 62 anos, o registro informa que ela gosta de cuidar das plantas, prefere canja e aprecia música sertaneja.
Internada desde 2 de outubro com câncer de mama que se espalhou para os pulmões e os ossos, Maria Inês comemorou no hospital o aniversário de 11 anos de um neto. Antes da festa, o médico Abraão Benício a ajudou a lavar o cabelo, outro desejo que ela queria realizar. “Adoro família reunida. Gosto de plantar, caminhar e comer”, contou. “Para ser feliz, a gente não precisa de muito.”
Outras unidades do Rio também mantêm serviços paliativos. O Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, criou uma enfermaria exclusiva há pouco mais de um ano e tinha 20 pacientes na semana passada, a maioria com doenças neurológicas e cardíacas. A prefeitura também oferece atendimento domiciliar a idosos pelo Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso (Padi), que acompanhou 294 pessoas em cuidados paliativos em setembro.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) mantém desde 1998 o Inca IV, unidade em Vila Isabel dedicada a esse atendimento, com 56 leitos. O Inca IV, o Ronaldo Gazolla e o Eduardo Rabello têm ambulatórios, espaços para familiares e equipes multiprofissionais, que podem reunir médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e fonoaudiólogos.
No Inca IV, a cantora Mônica Menescall, de 56 anos, participou de uma apresentação de pagode com familiares e amigos no dia 2, mesmo usando oxigênio. Ela morreu 17 dias depois. “Minha prima foi embora, mas feliz”, afirmou Adriana dos Santos Lessa. Outra iniciativa da unidade foi reunir receitas ditadas por Idalina Oliveira da Silva, conhecida como Vavá, em um livro publicado em homenagem à paciente após sua morte.
Os serviços, porém, ainda precisam ser ampliados, segundo Alexandre Telles, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio. “Os serviços existentes fazem um trabalho importante, mas ainda existe um déficit”, disse. No Ronaldo Gazolla, a direção e a equipe médica estudam oferecer musicoterapia e experiências de realidade virtual com óculos especiais.
Além do cuidado clínico e das atividades de acolhimento, as equipes tentam realizar desejos que podem ser atendidos durante a internação. No Ronaldo Gazolla, Alexandro Moreira, de 48 anos, se casou no hospital com Carmen Lúcia Braga, sua companheira havia 14 anos. Ele tinha doença pulmonar obstrutiva crônica, permaneceu internado por quase um ano e recebeu alta em julho. A assistência paliativa também pode envolver acompanhamento ambulatorial ou domiciliar para pacientes que não conseguem se deslocar.