SUS precisa manter tratamento de câncer durante crises e desastres
Artigo publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas propõe comitê permanente, fundo de emergência e planos regionais para evitar interrupções no atendimento.
Resumo em 30 segundos
Pesquisadores recomendam incluir o atendimento oncológico nos planos de resposta a pandemias e desastres, com um comitê técnico permanente e recursos de emergência. A proposta considera as interrupções registradas na pandemia de Covid-19 e nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul e prevê medidas para manter exames, medicamentos e tratamentos acessíveis.
Pesquisadores recomendam que o Sistema Único de Saúde (SUS) crie um plano permanente para manter o diagnóstico e o tratamento de câncer durante pandemias, enchentes, secas e outras crises. As propostas foram reunidas em artigo publicado nesta terça-feira (13) na revista The Lancet Regional Health – Americas, a partir de uma oficina realizada no Rio de Janeiro em dezembro de 2025.
O trabalho sugere incluir o câncer nos planos de resposta a desastres, instituir um comitê técnico permanente e criar um fundo de emergência. O objetivo é evitar que pacientes percam exames, medicamentos ou sessões de tratamento quando serviços de saúde e transporte forem afetados. O artigo foi elaborado por pesquisadores de instituições como a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Fiocruz, além de entidades médicas e de pacientes.
A necessidade de preparação ficou evidente durante a pandemia de Covid-19. Em maio de 2020, no período mais crítico, mamografias e exames de Papanicolau realizados pelo SUS diminuíram mais de 80%, enquanto as biópsias caíram quase 70%. Na primeira onda, as cirurgias oncológicas recuaram cerca de 25%.
O rastreamento do câncer só retornou ao nível anterior à pandemia em 2022, segundo estudo do Inca. A pesquisadora Heloise Fernandes Agreli, da agência internacional e autora principal do artigo, ressalta que retomar o volume de exames não significa compensar os que deixaram de ser feitos. A demanda represada se soma ao aumento de casos esperado para os próximos anos.
A queda nos exames e diagnósticos levantou preocupação sobre possíveis diagnósticos em estágios mais avançados. Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e uma das autoras do trabalho, afirma que ainda não existe um levantamento nacional capaz de quantificar esse efeito ou atribuí-lo exclusivamente à pandemia. O impacto sobre a mortalidade também demora a aparecer e é difícil de medir.
Os dados de mortalidade disponíveis retratam efeitos diferentes do período. Em 2020, as mortes de pessoas com câncer por outras causas, entre elas a Covid-19, cresceram 82% em comparação com o período anterior à pandemia. Já uma análise de 2020 a 2022 encontrou mortalidade por câncer cerca de 5% abaixo do esperado. Agreli diz que os números não são incompatíveis: pacientes oncológicos que morreram de Covid podem ter tido a infecção registrada como causa básica da morte.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul também interromperam o atendimento oncológico, sobretudo o acesso aos tratamentos. Não há uma estimativa consolidada sobre atrasos ou mortes relacionados às interrupções, mas profissionais relataram problemas graves. Mesmo que uma unidade de radioterapia permaneça aberta, o tratamento não prossegue se o paciente não consegue chegar até ela, observa Agreli.
Pelo plano sugerido, um comitê coordenado pelo Ministério da Saúde e pelo Inca teria liderança técnica definida e regras de sucessão, para que sua atuação não dependa de quem ocupa os cargos no momento. O grupo levaria as necessidades do atendimento oncológico às discussões com a defesa civil e a regulação de leitos desde o início da crise, definiria quais serviços não podem parar e estabeleceria por quanto tempo exames poderiam ser adiados.
O comitê também articularia respostas regionais. Uma inundação no Sul e uma seca na Amazônia podem exigir medidas diferentes, como centros alternativos de atendimento, rotas de transporte e comunicação entre serviços. Um sistema para localizar rapidamente pacientes em tratamento ativo ajudaria a direcioná-los. A proposta inclui ainda critérios prévios de prioridade quando houver escassez de leitos, remédios ou radioterapia, considerando a agressividade do tumor, o momento adequado para tratar e as barreiras de acesso enfrentadas por moradores distantes dos centros de referência.
Outras medidas recomendadas incluem adaptar, quando possível, terapias para administração oral ou em casa; levar unidades móveis a áreas isoladas; manter energia de reserva e refrigeração para medicamentos; e formar estoques de insumos. Baldotto pondera, porém, que medicamentos orais modernos ainda não estão amplamente disponíveis no SUS. Para que a estratégia funcione, diz ela, são necessárias políticas de acesso, financiamento, estoque e logística.
As crises também afetam hospitais privados, profissionais, deslocamentos, infraestrutura e cadeias de abastecimento. Por isso, Baldotto defende que o planejamento considere a relação entre o SUS e a saúde suplementar, em vez de tratá-los como redes sem ligação. Os autores apontam que o gasto público representa cerca de 45% do total aplicado em saúde no Brasil, ante uma média de 75% nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Para financiar a preparação, o artigo propõe fundos de emergência com receitas vinculadas a tributos sobre tabaco e álcool, mecanismo usado em países como Filipinas e Tailândia para outras finalidades. Ainda não há estimativa de quanto essa fonte poderia arrecadar no Brasil. Para Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia e colaboradora do artigo, garantir a continuidade do cuidado durante uma crise deve ser um compromisso de Estado.
Para entender
- Rastreamento do câncer
- Conjunto de exames oferecidos a pessoas sem sintomas para identificar certos tipos de câncer ou alterações que possam indicar a doença. O rastreamento é diferente da investigação diagnóstica, feita quando há sintomas ou outros sinais que precisam ser avaliados.
- Saúde suplementar
- Termo usado no Brasil para os serviços privados de assistência à saúde, como planos de saúde. Ela funciona paralelamente ao SUS, embora pacientes, profissionais, hospitais e cadeias de abastecimento possam circular ou depender de recursos dos dois sistemas.