Grifes de luxo viram alvo de saques em protestos na França
Mais de 3.000 lojas foram afetadas pelos tumultos; especialistas associam a exposição das marcas e seus preços inacessíveis à percepção de exclusão e desigualdade.
Resumo em 30 segundos
Lojas de Hermès, Louis Vuitton, Celine e Saint Laurent foram saqueadas durante os tumultos na França, que também atingiram milhares de outros estabelecimentos. Especialistas relacionam os ataques à desigualdade e à presença cultural de grifes cujos produtos são inacessíveis para a maioria. Episódios semelhantes ocorreram em Paris em 2019 e 2023.
Lojas de marcas de luxo como Hermès, Louis Vuitton, Celine e Saint Laurent foram invadidas e saqueadas durante os tumultos que acompanharam protestos na França no último fim de semana. Os ataques a estabelecimentos comerciais ocorreram em meio a uma onda de depredações e incêndios que também atingiu negócios familiares, farmácias e mercearias; mais de 3.000 lojas foram afetadas, segundo os dados citados sobre os episódios.
As imagens de vitrines destruídas e produtos levados chamaram atenção para o contraste entre o prestígio das grifes francesas e a inacessibilidade de seus artigos. Especialistas ouvidos sobre o tema relacionam os ataques à desigualdade e à forma como as marcas se tornaram presença constante na cultura, embora seus preços afastem a maior parte da população.
Serge Carreira, diretor da iniciativa de marcas emergentes da Federação da Alta-Costura e da Moda e professor afiliado da Escola de Gestão e Impacto da Sciences Po, descreveu a relação francesa com o luxo como marcada por sentimentos opostos. “A França sempre cultivou uma relação de amor e ódio com o luxo — orgulhosa de sua influência global, desconfiada de sua moralidade e culpando sua essência desigual”, afirmou.
A projeção das marcas ultrapassa o público que consegue comprar seus produtos. Embaixadores famosos, desfiles transformados em entretenimento e aparições em tapetes vermelhos ajudam a divulgar grifes como Dior, Chanel, Burberry e Louis Vuitton para milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o aumento dos preços tornou muitos produtos inalcançáveis para quase todos, alimentando, na avaliação de Carreira, a sensação de exclusão entre os mais jovens.
“Não há mais sonhos, apenas inveja e raiva”, disse o especialista sobre esse sentimento. Para ele, destruir vitrines representa uma forma de atacar um sistema que promete inclusão, mas não a oferece. O saque também permite que os envolvidos se apropriem dos produtos, alguns dos quais acabam em circuitos de revenda e no mercado negro.
Com isso, as mercadorias deixam de ser vistas apenas como símbolos de artesanato e tradição, imagem cultivada pelas próprias grifes, e passam a representar, para os manifestantes, o excesso e a desigualdade. A visibilidade internacional das marcas pode ampliar o impacto simbólico dos ataques, mesmo que a violência também tenha atingido estabelecimentos sem ligação com o mercado de luxo.
Os episódios não são inéditos. Em 2023, durante protestos contra a reforma da previdência, manifestantes entraram na sede da LVMH, grupo que reúne marcas de luxo, na Avenida Montaigne, em Paris. Eles soltaram fogos de artifício e queimaram uma efígie de Bernard Arnault, bilionário que controla a empresa.
Em 2019, lojas da Dior e da Chanel na Champs-Élysées, também em Paris, foram saqueadas durante manifestações dos Coletes Amarelos. Naquele período, vitrines de lojas de luxo protegidas por tábuas se tornaram uma cena recorrente. Os ataques recentes são, assim, o terceiro caso de violência física contra marcas do setor em Paris nos últimos oito anos.
A onda atual coincidiu com as Jornadas Particulares, iniciativa da LVMH que abre ao público ateliês e oficinas de marcas do grupo para mostrar como os produtos são feitos. O evento contrasta com a imagem de um setor normalmente fechado e voltado a consumidores de alta renda.
A LVMH informou internamente que adotou medidas para proteger as pessoas e manter as operações. Em mensagem enviada a funcionários em 19 de outubro, Antoine Arnault, chefe de comunicação e sustentabilidade do grupo, agradeceu às equipes e chamou seus integrantes de “nossos melhores embaixadores”. Relatos indicaram que a empresa contratou segurança privada.
Dior, Celine e Hermès não apresentaram comentários sobre os ataques às lojas nem detalharam as medidas de proteção. A Ralph Lauren também não respondeu aos pedidos de manifestação. Enquanto autoridades francesas anunciam reforço da segurança e restrições a manifestações para os próximos dias, as grifes enfrentam o desafio de proteger seus pontos de venda sem se afastar do público que sua presença cultural ajuda a atrair.
Para entender
- LVMH
- Grupo francês de bens de luxo que reúne marcas de moda, joalheria, perfumes e bebidas. Entre suas grifes estão Louis Vuitton e Dior. O grupo promove as Jornadas Particulares, iniciativa que abre ateliês e oficinas ao público.