Protestos na França atingem lojas de luxo e afetam mais de 3 mil comércios
Os distúrbios de 17 de outubro tiveram saques, incêndios e confrontos; o governo prepara reforço de segurança para novos atos neste sábado.
Resumo em 30 segundos
Os protestos que atingiram cidades francesas em 17 de outubro afetaram mais de 3 mil estabelecimentos, entre eles lojas de luxo, supermercados e farmácias. Os saques a grifes reacenderam discussões sobre desigualdade e exclusão. O governo anunciou reforço de segurança para as manifestações previstas para sábado, 24 de outubro.
A onda de protestos e distúrbios que atingiu cidades francesas no fim de semana deixou mais de 3 mil estabelecimentos comerciais afetados, incluindo lojas de luxo, supermercados, farmácias e pequenos negócios. Saques a grifes como Celine, Hermès, Louis Vuitton e Saint Laurent chamaram atenção em meio à violência, que também atingiu prédios públicos e levou o governo a preparar uma operação de segurança reforçada para novas manifestações.
Em Limoges, a prefeitura, instalada em um edifício do século XIX, foi incendiada e a torre do relógio desabou. Em Paris, lojas de marcas de luxo foram invadidas e tiveram vitrines quebradas. As cenas reacenderam o debate sobre a desigualdade e o papel de um setor que tem grande visibilidade cultural na França, mas cujos produtos são inacessíveis para a maioria da população.
Serge Carreira, diretor da iniciativa de marcas emergentes da Federação da Alta-Costura e professor associado da Escola de Gestão e Impacto da Sciences Po, descreveu a relação francesa com o luxo como marcada por orgulho e desconfiança. “A França sempre cultivou uma relação de amor e ódio com o luxo — orgulhosa de sua influência global, desconfiada de sua moralidade e crítica à sua essência desigual”, afirmou.
Para Carreira, as próprias marcas ampliaram sua presença por meio de celebridades, redes sociais e desfiles transformados em entretenimento. Com isso, produtos como bolsas e roupas de grife tornaram-se conhecidos mesmo entre quem não pode comprá-los, enquanto os preços elevados reforçam a distância entre o público e esse mercado. “Não há mais sonho, apenas inveja e raiva”, disse o especialista ao descrever o sentimento de parte dos jovens.
As invasões também têm precedentes recentes. Em 2023, durante protestos contra a reforma da Previdência proposta pelo governo, manifestantes entraram na sede da LVMH, grupo que reúne a Louis Vuitton, na avenida Montaigne, em Paris. Em 2019, lojas da Dior e da Chanel foram saqueadas durante atos dos Coletes Amarelos, movimento que contestou políticas do governo e o custo de vida.
Os distúrbios atuais ocorrem em meio a manifestações motivadas por reivindicações sociais e econômicas, entre elas críticas ao alto custo de vida, aos salários e aos serviços públicos. A violência, registrada em 17 de outubro, incluiu incêndios, depredações e confrontos com a polícia. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou que cerca de 2.500 pessoas foram detidas após os atos; 917 suspeitos foram encaminhados para responder a processos judiciais e 174 já haviam sido presos.
O presidente Emmanuel Macron prometeu impedir que a violência se repita nas próximas manifestações. “Aqueles que quiserem provocar desordem nos centros das cidades no próximo sábado serão impedidos de fazê-lo”, declarou durante visita ao Catar. Ele também criticou comentários de líderes estrangeiros sobre os distúrbios e afirmou que houve desinformação após os acontecimentos.
A União Nacional dos Estudantes da França convocou novos atos para sábado, enquanto os Coletes Amarelos planejaram uma marcha pelo centro de Paris. Sindicatos também mantiveram a convocação de uma greve geral para 5 de novembro, após negociações com o governo sem resposta concreta às reivindicações, segundo a dirigente sindical Sophie Binet. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu reuniu-se com representantes trabalhistas, mas não houve acordo anunciado.
As autoridades adotaram toques de recolher em áreas atingidas e prometeram ampliar o efetivo de segurança para o próximo sábado. Lecornu também anunciou a mobilização de militares para proteger instalações estratégicas, medida criticada pelo partido França Insubmissa, que afirmou que manifestantes não devem ser tratados como inimigos. Carreira prevê que áreas comerciais de Paris, como a avenida Montaigne e a rua Faubourg Saint-Honoré, terão segurança reforçada durante os próximos atos.
A sucessão de ataques a lojas de luxo evidencia como símbolos de riqueza e exclusividade podem se tornar alvos em períodos de tensão social. Para o setor, a exposição global das marcas, que ajuda a consolidar seu prestígio, também torna suas vitrines e produtos referências visíveis para quem se sente excluído desse universo.