Protestos na França reúnem mais de 500 mil manifestantes
As cerca de 110 marchas de sábado começaram com reivindicações estudantis e ganharam força com críticas ao custo de vida; atos violentos deixaram danos e prisões.
Resumo em 30 segundos
Mais de 500 mil pessoas participaram de cerca de 110 marchas na França no sábado, segundo o Ministério do Interior. Iniciados por estudantes que reivindicam melhores condições nas escolas, os protestos incorporaram críticas ao custo de vida. Grupos violentos saquearam e depredaram estabelecimentos, enquanto autoridades investigam denúncias de má conduta policial.
Protestos iniciados por estudantes se espalharam pela França e reuniram mais de 500 mil pessoas em cerca de 110 marchas no sábado, segundo o Ministério do Interior. Os atos, que começaram semanas antes por melhores condições nas escolas, incorporaram críticas ao custo de vida e terminaram com saques, depredações e confrontos em várias cidades.
A central sindical CGT estimou que 800 mil pessoas participaram das manifestações. Em meio a atos pacíficos, grupos violentos danificaram cerca de 1.500 lojas e outros símbolos do Estado, e aproximadamente 2 mil pessoas foram presas. Em Limoges, um incêndio criminoso destruiu grande parte da prefeitura; em Marselha, pessoas mascaradas invadiram um prédio público e derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa.
A mobilização estudantil começou no mês passado, com reivindicações sobre a infraestrutura precária das escolas, salas superlotadas, excesso de aulas e falta de professores e funcionários. Os estudantes também criticam o financiamento insuficiente e pedem mudanças nas plataformas públicas usadas para selecionar candidatos ao ensino superior, que consideram injustas.
Centenas de escolas foram bloqueadas. O governo informou que pelo menos 24 foram incendiadas ou danificadas. Desde setembro, milhares de pessoas foram presas, e mais de mil policiais, estudantes e funcionários escolares ficaram feridos.
A atuação policial também passou a ser questionada. Promotores e um órgão de fiscalização investigam ao menos 34 denúncias de má conduta de agentes durante os protestos. Entre os casos estão o de um jovem de 15 anos que perdeu a mão esquerda, provavelmente após a explosão de uma granada policial, segundo autoridades, e o de um menino de 14 anos ferido por uma granada de gás lacrimogêneo disparada por um policial a curta distância.
Ao longo de outubro, sindicatos e outros grupos se juntaram às manifestações, ampliando as reivindicações. Parte dos participantes protesta contra a alta do custo de vida e dos combustíveis, cujos preços subiram, em parte, por causa da guerra com o Irã. Agricultores também aderiram, insatisfeitos com os custos de produção. Perfis ligados ao movimento dos Coletes amarelos, que há quase uma década mobilizou protestos contra o preço da gasolina e outras questões, passaram a convocar novos atos.
A crise ocorre enquanto o governo tenta aprovar um orçamento de contenção de gastos, considerado impopular, e enfrenta dificuldades fiscais e sociais. A insatisfação também se dirige ao presidente Emmanuel Macron, que está perto do fim do mandato e não pode disputar um terceiro período consecutivo. O cenário fortaleceu Marine Le Pen, líder da extrema direita, apontada como favorita para vencer a eleição presidencial da próxima primavera.
No domingo, integrantes do governo centrista e líderes da extrema direita responsabilizaram a extrema esquerda pela violência, com críticas dirigidas ao partido França Insubmissa. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu disse que dirigentes partidários alimentaram a desconfiança dos estudantes em relação à polícia e afirmou que alguns participantes dos tumultos pertenciam à “ultraesquerda”.
O França Insubmissa rejeitou as acusações. Seu líder, Jean-Luc Mélenchon, atribuiu ao governo a responsabilidade pelos distúrbios e afirmou nas redes sociais que Lecornu era “responsável pelo caos, devido à incompetência ou a uma estratégia desesperada para criar um partido da ordem que fizesse as pessoas esquecerem seu fracasso nas finanças públicas”. Lecornu não respondeu à declaração.
A mobilização também reavivou a lembrança dos protestos estudantis de 1968, que quase derrubaram o governo e contribuíram para transformar a sociedade francesa. A atual onda reúne reivindicações distintas, mas a combinação de insatisfação com os serviços públicos, preços e condições de ensino elevou a pressão sobre o governo.