Economia argentina de Milei amplia emprego em Neuquén e perde vagas no país
Desde que Milei assumiu, mais de 265 mil empregos privados formais desapareceram; o petróleo e o gás impulsionam contratações em Neuquén.
Resumo em 30 segundos
A expansão de Vaca Muerta favorece o emprego e os negócios em Neuquén, mas os ganhos não se espalham pelo país. Desde que Javier Milei assumiu, a Argentina perdeu mais de 265 mil postos privados formais e mais de 32 mil empresas fecharam. A inflação caiu, mas a previsão de crescimento para 2026 foi reduzida.
A economia argentina sob o governo de Javier Milei apresenta resultados muito diferentes conforme o setor e a região: enquanto o petróleo e o gás impulsionam contratações e negócios na província de Neuquén, empresas fecham e empregos formais desaparecem em grande parte do país. Desde que Milei assumiu, a Argentina perdeu mais de 265 mil postos de trabalho privados, e apenas quatro das 23 províncias, além da cidade de Buenos Aires, registraram aumento no emprego formal privado.
A expansão de Vaca Muerta, formação de xisto que concentra projetos de exploração de petróleo e gás, atrai trabalhadores e investimentos para a Patagônia. Neuquén, onde fica a área, registra o crescimento mais rápido entre as províncias. O movimento também cria demanda por serviços, como transporte de valores, moradia e comércio, mas os ganhos ainda não se espalham de maneira uniforme pela economia argentina.
Diego Esquivel, de 38 anos, mudou-se de Buenos Aires para Neuquén para administrar um complexo residencial voltado a trabalhadores do setor petrolífero. Ele disse que seu salário triplicou em seis meses e que passou a conseguir contribuir para as despesas universitárias da filha. Antes, recebia US$ 900 por mês em uma empresa de serviços de saúde e, segundo ele, tinha dificuldade para pagar as contas.
O caso contrasta com a situação de trabalhadores e pequenos negócios na capital e em outras áreas metropolitanas. Mais de 32 mil empresas fecharam desde o início do governo Milei, e o total de empregadores privados caiu ao menor nível desde 2007. A perda de vagas formais foi parcialmente compensada por ocupações informais, que absorveram quase o mesmo número de trabalhadores, mas costumam pagar menos.
Roberto Ambrosio, ex-operador da fábrica de pneus FATE, em Buenos Aires, perdeu o emprego após o fechamento da unidade em fevereiro, depois de 80 anos de funcionamento. Ele fazia 1,6 milhão de pesos por mês e hoje realiza trabalhos de pintura; disse que, quando consegue serviço, pode ganhar 300 mil pesos. A fábrica empregava quase mil pessoas e também era fonte de clientes para negócios próximos, entre eles uma loja de produtos de limpeza que estima ter perdido 30% das vendas desde que Milei assumiu.
A abertura da economia ao comércio exterior, incluindo a importação de pneus, expôs a FATE à concorrência externa. A fábrica tornou-se um exemplo dos efeitos da mudança sobre a indústria e os empregos, embora também simbolizasse um modelo protecionista que, segundo a reportagem, elevava os preços de produtos cotidianos. Para trabalhadores como Ambrosio, a transição significou a perda de uma remuneração formal sem uma alternativa equivalente.
Os indicadores nacionais mostram um quadro misto. A inflação, que chegou perto de 300%, está em torno de 30%, e a economia provavelmente cresceu por dois anos consecutivos. A pobreza caiu ao menor nível em uma década, as principais agências de classificação elevaram a nota da dívida soberana e um programa de incentivos a investimentos aprovou 27 projetos, com aportes previstos de US$ 76 bilhões; outras propostas, de US$ 133 bilhões, estão em análise.
Esses números não eliminam os sinais de desaceleração. Milei havia projetado expansão de 5% para 2026 no orçamento apresentado no ano passado, mas a previsão atual é de crescimento de 1,5%. Os dados de julho registraram a maior queda mensal desde a pandemia de Covid-19, e a economia provavelmente encolheu entre abril e setembro, período que pode configurar uma recessão técnica — definida quando há contração por dois trimestres consecutivos.
Em setembro, 39% dos argentinos aprovavam o governo, ante 43% no início do ano, segundo pesquisa LatAm Pulse, da AtlasIntel. A avaliação política importa porque a eleição presidencial está prevista para o próximo ano. Milei venceu em 2023 em distritos antes dominados pelo peronismo, mas o desempenho econômico e a capacidade de distribuir os ganhos para além dos setores de energia podem influenciar seu apoio.
Em Neuquén, o crescimento também pressiona a infraestrutura e os serviços públicos. A província recebeu 21 mil novos moradores no ano passado e iniciou a construção de 160 salas de aula. O governador Rolando Figueroa alertou que conseguir emprego em Vaca Muerta exige qualificação e pediu cautela diante de relatos sobre a quantidade de vagas. A chegada à região, por si só, não garante trabalho, e o custo de vida mais alto reduz parte da vantagem dos salários maiores.
A disparidade entre regiões é visível também nas empresas que tentam acompanhar o boom. Matias Pizzio abriu neste ano uma unidade de sua companhia de transporte de valores em Neuquén, atraído pela demanda de uma comunidade mais próspera. Já o empresário Carlos Isa, que se mudou para a província para atuar com equipamentos de movimentação de terra, disse que os negócios não cresceram como esperava e que os custos locais são altos. O avanço do petróleo, portanto, cria oportunidades, mas não assegura ganhos para todos os trabalhadores ou empreendedores.
Para entender
- Vaca Muerta
- Formação geológica de xisto na província de Neuquén, na Patagônia, com grandes reservas de petróleo e gás. Sua exploração atrai investimentos e trabalhadores e movimenta atividades ligadas à energia e a serviços locais.