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Sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Democratas conquistam as duas Casas do Congresso dos EUA

A vitória nas eleições de meio de mandato de 2026 amplia a fiscalização sobre Trump e fortalece a ala progressista, mas não dá ao Congresso controle do Executivo.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Capitólio dos Estados Unidos ao anoitecer, com eleitores caminhando nas proximidades. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Capitólio dos Estados Unidos ao anoitecer, com eleitores caminhando nas proximidades.
Resumo em 30 segundos

Os democratas conquistaram a Câmara e o Senado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. O resultado deve ampliar a fiscalização do governo Trump e intensificar a pressão por medidas sobre a guerra no Irã, a imigração e possíveis casos de corrupção. Na política externa, a América Latina deve seguir entre as prioridades do presidente.

Os democratas conquistaram o controle das duas Casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas nesta semana, segundo análise do diretor de política internacional do Center for Economic and Policy Research (CEPR), Alexander Main. O resultado fortaleceu a ala progressista do partido e aumentou a pressão sobre o presidente Donald Trump, que declarou estar disposto a trabalhar com a nova maioria.

As eleições de meio de mandato, chamadas de midterms, ocorrem no meio do ciclo presidencial e renovam todos os assentos da Câmara dos Representantes e parte do Senado. A disputa costuma funcionar como um referendo sobre o governo em exercício, embora não escolha o presidente. Neste ano, os eleitores puniram os republicanos, na avaliação de Main, em razão da impopularidade de Trump e da associação do partido a ele.

O analista afirmou que as pesquisas subestimaram a dimensão da vitória democrata. Ele citou como fatores de insatisfação a inflação, as tarifas comerciais, a guerra contra o Irã e a política migratória do governo. Main disse que o conflito iraniano já dura oito meses, apesar de Trump ter afirmado que terminaria em poucos dias, e que os benefícios da atuação americana na Venezuela não chegaram à população comum dos Estados Unidos.

A mudança no voto latino e a mobilização de jovens também pesaram no resultado, segundo Main. Ele apontou a violência das operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) e a preocupação de pequenos e médios empresários, que dependem da mão de obra imigrante. A corrupção envolvendo integrantes da família de Trump e aliados do presidente também teria contribuído para o descontentamento, afirmou.

Com a maioria nas duas Casas, os democratas poderão ampliar a fiscalização do Executivo por meio de investigações e audiências. O controle do Congresso, porém, não lhes dá automaticamente poder para conduzir as políticas do governo, que continua sob comando de Trump. Main prevê que parlamentares discutam resoluções sobre poderes de guerra, instrumento pelo qual o Congresso pode limitar ou encerrar ações militares, e condicionem recursos à interrupção de operações no Irã e na América Latina.

A ala progressista pressiona por responsabilização do governo pela guerra no Irã, por abusos atribuídos ao ICE e por possíveis casos de corrupção. Main também mencionou iniciativas de impeachment contra o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o secretário de Estado, Marco Rubio. São propostas defendidas por setores do partido; o resultado eleitoral, por si só, não significa que os processos serão abertos ou aprovados.

A liderança democrata pode, no entanto, evitar um confronto imediato com a Casa Branca. Hakeem Jeffries e outros dirigentes sinalizaram preferência por uma relação de trabalho com Trump, enquanto a base do partido cobra medidas mais firmes. Para o analista, o presidente tem incentivo para negociar com os novos líderes, sobretudo para reduzir o risco de um processo de impeachment.

O resultado também ampliou a presença de políticos progressistas: Main estima que haverá ao menos oito integrantes do Congresso identificados como socialistas democráticos e mais de cem membros na ala progressista de esquerda. Apesar desse crescimento, ele avalia que lideranças mais moderadas, associadas às administrações de Bill Clinton e Barack Obama, ainda devem controlar a agenda partidária. Muitos democratas, inclusive moderados, foram eleitos com apoio a pautas progressistas e poderão ser pressionados a transformá-las em ações.

Na política externa, Main prevê que Trump reduza o envolvimento dos Estados Unidos em várias regiões, mas mantenha atenção especial ao Irã e à América Latina. O analista relacionou essa prioridade à estratégia chamada “Doutrina Donroe”, expressão usada pela Casa Branca em uma declaração publicada no dia seguinte à eleição. O comunicado afirmou que a doutrina estava “retomando o Hemisfério Ocidental”.

O nome faz referência à Doutrina Monroe, anunciada em 1823 pelo presidente James Monroe. Ela defendia que potências europeias não deveriam interferir nas Américas, enquanto os Estados Unidos afirmavam um papel próprio na região. No início do século 20, o presidente Theodore Roosevelt ampliou essa interpretação com o chamado “big stick” — “grande porrete” —, associado à disposição de usar a força para intervir na América Latina. A expressão “Doutrina Donroe” combina “Donald” e “Monroe” e, na declaração citada por Main, sinaliza a reivindicação de influência americana sobre o hemisfério.

Main disse que a política para a região pode envolver pressão econômica, diplomática e militar, inclusive por meio do chamado “Escudo das Américas”. Ele atribuiu a Rubio apoio a uma linha de pressão sobre Cuba e a governos e movimentos de esquerda latino-americanos. O analista avalia que a agenda pode ter consequências para países da região, inclusive o Brasil, embora não tenha detalhado medidas específicas dirigidas ao governo brasileiro.

Para entender

Eleições de meio de mandato
As midterms ocorrem no meio do mandato presidencial nos Estados Unidos. Elas renovam todos os assentos da Câmara dos Representantes e parte do Senado, mas não escolhem o presidente. O resultado pode alterar o equilíbrio de poder no Congresso e influenciar a capacidade de o governo aprovar sua agenda.
Doutrina Monroe
Anunciada pelo presidente James Monroe em 1823, a doutrina se opunha à interferência de potências europeias nas Américas. Com o tempo, os Estados Unidos também passaram a invocá-la para justificar um papel de liderança e intervenção na região.

Fontes: Valor Econômico

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